Naguib Mahfouz, O Cairo Novo, Civilização

Único prémio Nobel da Literatura em língua árabe, Naguib Mahfouz tem vindo a ser traduzido aos poucos pela Civilização, que agora publica um romance de 1945 onde o ar do tempo pesa tanto como a influência do existencialismo, sobretudo o de língua francesa.

Dos quatro colegas de universidade que iniciam a narrativa, será a história de Mahgoub a dominá-la, colocando em debate a vontade de rápida ascensão social e os seus custos num Cairo onde reina a corrupção e onde novas ideias começam a minar estruturas e convenções seculares. Detentor de uma amargura que as origens humildes não chegam para explicar, Maghoub mantém-se afastado de compromissos com os debates estudantis da época, colocando os valores do Islão, o socialismo e os direitos sociais no mesmo saco de indiferença e preferindo gastar o tempo com a ânsia de subir na vida. Quando a oportunidade lhe surge sob a forma de um esquema pouco claro, a sua escolha é óbvia, ficando o narrador com a espinhosa tarefa de lhe escrutinar a consciência, iluminando momentos de dúvida e hesitações como quem espera encontrar arrependimento. No muito que tem de caricatura social, Maghoub não deixa de simbolizar a fraca preparação de velhos sistemas para mudanças tão transversais como a primazia do mérito na ascensão laboral e os leitores não deixarão de rever alguns vícios tão europeus no Cairo dos anos 30 do século passado.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Jan.2011)

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