Correntes d’Escritas 2011: o texto prometido

Quem foi acompanhando este blog ao longo dos último dias deve lembrar-se da promessa. O texto que o Paulo Ferreira leu na mesa em que participou passa agora a estar disponível aqui, no Cadeirão Voltaire, graças à disponibilidade do seu autor (a quem agradeço, claro). Para os mais distraídos, a mesa era a sexta, moderada por José Mário Silva e com Alberto Torres Blandina, António Figueira, Francisco José Viegas, Inês Pedrosa e Maria Manuel Viana como participantes, além do Paulo Ferreira. Como mote, um verso de Nuno Júdice: “Espalho sobre a página a tinta do passado”. Aqui fica o texto:

Espalho sobre a página a tinta do passado: página. Tinta. Passado. Três palavras essenciais, sobretudo porque, quando assim juntas, a palavra passado parece apenas se prestar ao exercício de reforçar que tinta e papel são coisa de um pretérito a que já não queremos voltar.

Agora, os editores recebem textos por e-mail, que foram escritos a computador e comunicam com os autores usando pequenos aparelhos, que já tiveram fios. Telefones que se chamaram telemóveis, evoluindo depois para Smartphones.

Como se uma máquina pudesse alguma vez ser esperta.

Parece que já não sabemos comunicar, se a tecnologia não apoiar a relação. Parece que a tecnologia substituiu as palavras ternas e os abraços que só um amigo nos pode dar.

Estas estranhas formas de comunicar (por e-mail, por sms, por chat) têm sido responsáveis por mais desgraças e fins abruptos de amores inconfessáveis do que a ausência de quem se quer.

Já vi tanto disparate escrito nestas salas de conversação, sim porque os telemóveis ditos de última geração já permitem recriar as salas de chat onde tanta gente se conheceu, e tanta vez se desiludiu, que em muitas e muitas ridículas cartas de amor. E nós a pensarmos que ridículo era escrever essas mesmas cartas de amor.

Sem o rosto terno de quem ainda amamos do outro lado, sai fácil o insulto, sai fácil a falta. Num abrupto momento de irresponsabilidade, que pensamos ser sempre sempre sempre de súbita iluminação:

  • dizemos que já não gostamos;
  • dizemos que nunca gostámos;
  • que já não dá;
  • que queremos sair dali;
  • talvez fugir. Pois, talvez fugir.

Tenho visto tanta gente dar cabo da sua vida por causa de 160 caracteres que só posso ter saudades de um tempo que não vivi, em que os amores eram corajosos. Ou se calhar eram as pessoas que eram corajosas, não sei, pois sabiam que aos que amamos não podemos apoiar-nos na tecnologia, apenas no peito que tantas vezes nos esquenta o coração.

E eu que não consigo sair de casa sem telemóvel (sem dinheiro, cartões do banco, relógio, consigo), devia era estar calado, pois quantos amigos estou sem ver meses a fio e considero que uma mensagem escrita num destes aparelhos vai colmatar a falta que lhes faço. A falta que eles me fazem. E eu, que tantas vezes faço uso desta estranha tecnologia, que hoje escolhi para criticar, devia era estar bem calado pois nem sempre fui capaz de cuidar quem queria, como queria, e acabei dizendo e fazendo o que não devia. O que vale é a generosidade das outras pessoas que continuam a aceitar-me, a aceitar-nos, mesmo depois de proferirmos as maiores barbaridades, quando era tão mais fácil desligar o telemóvel, o computador e dizer simplesmente o quanto gosto dessa pessoa – o quanto gostamos delas.

Estas estranhas formas de tecnologia de que nos apoiamos deu azo a uma nova solidão tão grande, que não sei se alguma vez teremos estado tão sozinhos. É um lugar-comum, bem sabemos, mas não será por isso que em dez milhões de habitantes, e note-se que este número comporta os infantes, temos mais de um telemóvel por cabeça. É um cataclismo multiplicado a uma escala incalculável se pensarmos na quantidade de pessoas que passam pela nossa vida e que não cuidamos. Maldita tecnologia.

Salvaguardando as devidas distâncias, reforço: salvaguardando as devidas, todas, as distâncias, este cataclismo prestes a acontecer faz-me sempre lembrar a resposta de Albert Einstein quanto a como é que ele via que se seria a III Guerra Mundial. Albert Einstein, um dos homens mais brilhantes da história da humanidade, terá encolhido os ombros e dito que não sabia como seria a terceira Guerra Mundial. Mas que a quarta seria à pedrada.

Claro que a culpa não é pelo menos só da tecnologia. É nossa, que somos covardes e patetas, deixando para mais tarde o que podíamos dizer hoje. Pegar no carro e ir visitar o amigo. Apanhar o metro e bater à porta daqueles que gostamos dizendo

«estou aqui».

Do outro lado não se responderá

LOL

Mas decerto haverá um sorriso, vários sorrisos, talvez até uma gargalhada. A mudez da comunicação das novas tecnologias é o que mais me fere. Como não há expressão, não há tom, como saber se

«Está tudo bem»

Quer de facto dizer

«está tudo bem»

Ou se, na verdade, quer dizer

«Preciso de ti. Agora»

As novas formas de comunicar e nos encontrarmos têm, contudo e por vezes, os seus momentos felizes. Ao primeiro conto que escrevi, tinha 13 anos, dei-lhe um título de apenas 4 letras. Eram as letras que compunham o nome daquela de quem gostava. Há dias encontrei-a numa rede social muito popular e pedi-lhe amizade. Há 18 anos não queria menos que o seu amor. Claro que não o deu. Ficou com ele para si e a única coisa que fez foi retraçar-me o coração, como se ele fosse um mealheiro. Agora esta mulher cujo nome tem apenas 4 letras, e que deu origem ao título do meu primeiro conto (tinha 13 anos e estava apaixonado) já não tem o rosto fino e delicado. Perdeu a graça de outros tempos. Bem feito, porque desconfio que ainda hoje andam pedaços do meu peito a boiar pelo Tejo.

É confortável, contudo, desculpar-nos na tecnologia. Apontar todos os perniciosos vícios e malefícios que este tipo de comunicação permite e instiga.

  • que é possível mapear a vida de alguém, se perscrutarmos as mensagens que enviou e recebeu (quase sempre descontextualizadas do tom e expressão em que foram formuladas);
  • que já não sabemos mostrar as emoções porque não temos bonequinhos amarelos que provem e comprovem o que temos cá dentro;
  • que se virmos o registo de horas dos e-mails recebidos e enviados (sobretudo os enviados) conseguiremos saber se a outra parte estava a trabalhar ou nos braços de outrem (o mais certo é estar mesmo a trabalhar, ou até a pensar em nós. A trabalhar e a pensar em nós. Mas a tragédia dá-nos sempre mais jeito);

Há dias que gosto muito da tecnologia:

  • A tecnologia que me permite falar com alguém do outro lado do atlântico;
  • Resolver questões profissionais confortavelmente sentado no Alfa (eu gosto muito de andar de andar de comboio) através de um pequeno aparelho que envia e-mails;
  • Há dias que penso que sem tecnologia não saberia trabalhar – e a verdade é que o escritório parece parar se não temos ligação ao ciber-espaço.

Há dias que a tecnologia é o meu melhor amigo. Mas na maioria das vezes vejo que só me distanciou daqueles que gosto (e que fazem o favor de gostar de mim).

  • Na maioria das vezes, irrito-me quando vejo que não jantei com aquela pessoa que me faz tão bem;
  • Na maioria das vezes, irrito-me quando vejo que andamos todos a bisbilhotar a vida dos outros, como se já nem soubéssemos a diferença entre intimidade e privacidade.

A todos aqueles que gostei e com quem me relacionei sempre lhes pedi a intimidade e disso fui muito cioso. Cioso, como se perceberá, é um eufemismo para exigente, muito exigente. E note-se que não falo apenas de mulheres que tive o gosto de gostar. Falo também dos amigos. Exijo de todos os que gosto a sua intimidade. Mas sei que a privacidade, essa, nunca a poderei ter, nunca a vou desejar. Essa é individual e indissociável.

Infelizmente, e ao que parece, a era da privacidade acabou e com ela foi-se também uma certa ideia de Homem, e das suas relações, que admiro. Vivemos na urgência de boicotar a nossa privacidade, abdicando conscientemente deste princípio básico e civilizacional.

Sermos nós, apenas nós, sem ninguém a olhar. Mesmo que até tenhamos vergonha de quem somos e nem sempre nos consigamos aceitar sempre. Isso é privacidade e abdicar deste valor é abdicar de algo para o qual não deveríamos estar disponíveis.

Provavelmente, durante esta comunicação, a assistência terá recebido mensagens escritas; e-mails que possivelmente até consultou aqui, não esperando por chegar a casa, onde possivelmente uma namorada, um marido atencioso, a espera.

Da minha parte, só posso esperar que essa/essas mensagem/mensagens que receberam durante esta comunicação, e prometo que estou quase a acabar, vos tenha feito chegar a vontade de não responder. E, para variar, talvez comprando flores pelo caminho, peguem no carro e vão ter com ela só para lhe dizer o quanto gostam dela. Lhes dêem a vossa intimidade, mesmo que não lhes confessem que estão com medo, que se sentem frágeis e com medo.

E que até nem sabem se estarão a tomar a melhor decisão. Mas que pelo menos ela deve sentir o calor do vosso peito, o cheiro das vossas mãos. Coisas que a tecnologia, como se sabe, não tem. Coisas que a tecnologia, como se sabe, não compreende.

Muito Obrigado.

Póvoa do Varzim, 25.II.2011

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