LeV 2011: segunda mesa

Com moderação de Vítor Quelhas, Joel Neto, José Abecassis Soares, Eduardo Sacheri, José Luís Peixoto e Gonçalo M. Tavares debatem o mote “Encontro-me a mim próprio viajando”.

A viagem do escritor, sobretudo a partir da trajectória autobiográfica, e a viagem como modo de procurar outros quotidianos são os motes lançados por Vítor Quelhas.

Acabado de chegar de Lisboa, Gonçalo M. Tavares discorre sobre a impossibilidade de fugirmos à nossa herança, o que faz com que qualquer viagem nunca vá além dessas fronteiras, por mais que se caminhe. Sobre se a viagem aumenta a nossa capacidade de sermos mais lúcidos, ou mais sensatos, o autor tem dúvidas, ainda que a ideia de viagem o entusiasme cada vez mais. Não havendo linhas rectas na natureza, o percurso mais directo entre dois pontos é uma invenção humana, e a passagem da linha recta terrestre à linha recta aérea marca, definitivamente, a ideia de viagem contemporânea. Eliminando o que está no meio, resta-nos o ponto de partida e o destino, e esse parece ser o fascínio da viagem actual, ao contrário do passado, em que a viagem era, essencialmente, o percurso.

 A história da viagem é, segundo Gonçalo M. Tavares, a história da eliminação progressiva do percurso. E a viagem é, na verdade, o modo como se move (ou não se move) a nossa atenção; podemos calcorrear o mundo sem nunca sair do sítio, ou deslocarmo-nos sem sairmos do mesmo sítio.

Com Eduardo Sacheri, argentino, inauguram-se as participações noutras línguas. Feliz por toda a assistência o compreender, e depois das desculpas, habituais nestas coisas, por não perceber nem falar português, Sacheri confessa que não é um grande viajante e teme que isso seja um problema para a sua participação neste encontro. Ainda assim, lembra-se de uma grande viagem que iniciou há vários anos e que continua a empreender, a viagem como leitor. O que terá começado como uma forma de enfrentar o medo do escuro (com uma lanterna, que acendia quando o pai lhe apagava a luz e que o permitia ler durante várias horas, sem que ninguém desconfiasse) transformou-se numa viagem sem retorno definido e capaz de potenciar uma outra viagem, a da escrita.

Viajante frequente, José Abecassis Soares assume-se como ‘descritor’, mais do que como escritor, e subscreve o mote da mesa, confirmando o quanto as viagens contribuíram para a sua auto-descoberta. Mas antes da auto-descoberta, apareceu a estratégia: como forma de resolver os impedimentos financeiros que costumam dificultar as viagens, diz o autor, mas também como reacção ao desaparecimento dos gelos no Kilimanjaro, José Abecassis Soares encontrou patrocinadores e iniciou um percurso que culminou na criação da associação Ice Care, que tenta consciencializar pessoas e instituições para o problema dos degelos que afectam paisagens, mas sobretudo pessoas e modos de vida.

José Luís Peixoto congratula-se por, ao fim de três passagens pelo LeV, ter finalmente um livro (o Livro) que inclui uma viagem, a da emigração portuguesa para França nos anos sessenta, tema que já configura, no léxico do autor, uma única palavra, emigraçãoportuguesaparaFrançanosanossessenta. Tendo escrito sobre algo que não viveu, Peixoto confessa que foi neste romance que encontrou mais sobre si próprio, na medida em que nasceu, de um certo modo, de uma viagem como essas. E foi a necessidade de experienciar, até onde a escrita o permite, aquilo que aconteceu antes do seu nascimento, e que de algum modo o definiu, que levou o autor a dedicar-se ao tal tema que já é uma única palavra.

Joel Neto separa as viagens entre as ‘colecções de carimbos’ (muito praticadas pela nossa classe média e caricaturada pela t-shirt Hard Rock café) e as viagens dos intelectuais, ou dos jovens urbanos e moderninhos, cheios de pretensões intelectuais, que não viajam, mas contemplam. E está inaugurado o tom incómodo e politicamente incorrecto (mas tão certeiro, mesmo quando caricatural) que Manuel Alberto Valente referiu há pouco, na apresentação do livro do autor, Banda Sonora de um Regresso a Casa (Porto Editora). Joel Neto diz que já praticfou ambas, mas que neste momento nenhuma das duas lhe interessa muito, ainda que não tenha certezas sobre a melhor forma de viajar. E encerra lendo uma crónica dedicada à Terra-Chã, que classifica como a coisa mais kitsch que já se lembrou de escrever…

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