LeV 2011: terceira mesa

Moderados por Francisco José Viegas, André Gago, António Vasconcelos Raposo, Pedro Almeida Vieira, Leonardo Padura e Teolinda Gersão falam sobre os “Livros com histórias dentro”.

Depois de traçar a génese e o enredo de Rio Homem, André Gago fala de memória e da facilidade com que a humanidade esquece, tema incontornável quando se escreve um romance histórico e é preciso decidir que peso deve ter a História no espaço de uma ficção.

“Lisboa é uma cidade aberta ao rio e ao mar, uma cidade de viagens e navegadores”, diz Teolinda Gersão, evocando A Cidade de Ulisses, recentemente publicado na Sextante (e, não sei se já o disse aqui, um livro precioso). Mas as maravilhas da cidade do Tejo não impedem a autora de relembrar os vários períodos de caos económico no nosso país, nomeadamente nos anos oitenta do século passado, época que também se retrata no livro e que viu, como hoje, o FMI chegar a Portugal. E a propósito da ideia peregrina de alguns sobre a nossa salvação poder estar numa possível anexação a Espanha, Teolinda Gersão defende que uma tal situação nos transformaria em “mais dez milhões de galegos, explorados e controlados por um poder central”. Fica o aviso.

“Não sei se sabem, mas há estudos linguísticos recentes que demonstram que um cubano, quando fala depressa, fala italiano, e quando fala depressa, fala português. Eu vou falar em português.” É assim que Leonardo Padura começa a sua intervenção, antes de se dedicar ao assunto que reuniu esta mesa, distinguindo os livros que contam histórias reais com os recursos da ficção, os que se dedicam à História propriamente dita, a tal que exige o ‘h’ maiúsculo, e os livros que nos revelam uma história, seja ela uma história que foi esquecida pelo tempo e que o escritor decide recuperar, ou uma história completamente (ou intencionalmente…) desconhecida, e esse é o caso do romance que agora publicou na Porto Editora, O Homem Que Gostava de Cães. A parte menos conhecida da União Soviética, as suas relações com a Guerra Civil de Espanha e o movimento revolucionário a nível mundial atravessam este romance, a par com a narrativa dos últimos anos da vida de Trotsky, entre o exílio e o assassinato. E aos percursos sinuosos que todos estes elementos traçam no romance, assim como traçaram na História, acrescenta-se o engano maior de assumir o passado como algo conhecido e a História como facto resolvido. Entre arquivos destruídos e factos manipulados, aquilo que sabemos acaba sempre por ser o que o poder, os vários poderes (e não exclusivamente os poderes políticos), nos permite saber no presente.

António Vasconcelos Raposo fala sobretudo da Guerra Colonial, por onde passou, e sobre o modo como esse passado traumático se reflecte, ainda hoje, na sua vida. E termina lendo um excerto do seu livro, Até ao Fim – a última operação, com indisfarçável comoção.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s