O espaço das estantes I

Uma biblioteca não se compõe unicamente de livros. Para além destes, há outras ‘espécies’, como lhes chama a linguagem técnica da biblioteconomia, que vão de jornais a revistas passando por folhetos de cordel, panfletos e edições em formatos pouco convencionais. Na minha biblioteca, essas outras espécies são frequentes, com os jornais e as revistas a ocuparem lugar proeminente na secção ‘fora dos livros’. São objectos difíceis de guardar em condições, e para quem não tem uma Quinta da Marmeleira como José Pacheco Pereira, o melhor é conformar-se com a ideia de que os jornais vão amarelecendo, sujeitos à humidade, ao pó, à passagem do tempo. Mas também isso é elemento fundamental numa biblioteca, sobretudo numa biblioteca pessoal.

Com a mudança recente de casa, ainda há jornais e revistas encaixotados e o processo de os recuperar, reorganizar e arrumar acaba por oferecer uma série de reencontros prazenteiros. Entre os jornais e revistas que fui guardando há edições especiais, como as que o Público fazia por ocasião do Salão Lisboa, com as fotografias a darem lugar à ilustração, alguns números da velha Revista, do Expresso, sobre temas como o Maio de 68 ou o massacre de Santa Cruz, em Timor, três ou quatro edições do Blitz e várias edições do Caderno 3, do Independente, que a minha irmã costumava comprar e onde comecei a ler os textos de Miguel Esteves Cardoso. É numa dessas edições do Independente que recupero, agora, um texto de que me lembrava bem, mas que pensava já não ter por perto. Trata-se de um texto de Inês Pedrosa sobre o tema da amizade e, nos 11 anos que tinha quando foi publicada e eu a li e reli, lembro-me bem de constatar em quase todas as frases a confirmação de alguma coisa que eu começava a intuir mas não saberia expressar. Para além disso, Inês Pedrosa ridicularizava um livrinho de um tal Francesco Alberoni sobre A Amizade, que eu tinha lido e achado a coisa mais parva que alguém poderia escrever sobre o tema, coisa que também me agradou. Nessa altura, a certeza de os amigos serem para a vida toda era algo que me descansava perante a agitação de um mundo que começava a ver menos ordenado do que os livros faziam querer. E ainda que quase todos os amigos dessa altura tenham ficado pelo caminho, e que os que hoje verdadeiramente importam tenham aparecido um pouco mais tarde, as frases que sublinhei há 22 anos (caramba, isto de ter papéis datados é tramado) continuam a ecoar com sentido, agora com a vantagem de ter experimentado algumas delas, confirmando que os amigos “Sabem de nós mais do que somos capazes de lhes dizer. Jurariam que à hora do crime estávamos a tomar chá com eles. Mesmo que a polícia nos encontrasse com as mãos cheias de sangue”, ou que nos exigem “A pele dos nossos inimigos. As batatas fritas do nosso bife. A nossa melhor roupa, por uma noite. A nossa meiguice, às cinco da manhã, porque a noite afinal correu mal.” É um bom argumento para a próxima vez que alguém me perguntar por que guardo tanto papel amarelecido em casa.

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