Feira do Livro de Lisboa 2011: um balanço em quatro partes

Depois de 18 dias de Parque, entre pavilhões, praças, túneis e farturas, impõe-se um balanço. E nisto dos balanços, cada um faz o seu. A APEL já divulgou um comunicado de imprensa onde assume um balanço positivo, com mais visitantes do que o ano passado, mas ainda sem resultados no que às vendas diz respeito. E quem esteve na Feira a vender livros terá os próximos dias para dizer como foi, se assim o desejar. Pela minha parte, sem saber de vendas, lucros e prejuízos, interessa-me pesar os prós e contras da mutação do espaço da Feira, os livros encontrados e os comprados, mas também alguns aspectos que, relacionando-se com o mercado editorial, não deixam de interessar quem está do lado dos leitores.

I Espaços

Quem se lembra da Feira do Livro com pavilhões iguais para todos os editores não deixará de constatar as enormes diferenças que se foram afirmando nos últimos anos relativamente ao espaço e à sua apresentação. O que começou com a discussão da Praça Leya e com a troca dos velhos pavilhões por aqueles que agora se vêem culminou, este ano, numa Feira onde se destacavam duas praças em jeito de condomínio e um mono arquitectónico em forma de túnel por entre o panorama de pavilhões alinhados, formando alamedas por onde se pode passear sem sobressaltos. Mesmo deixando de lado questões mais políticas, e pensando unicamente no ponto de vista dos visitantes, esta ideia das Praças é estranha, cria espaços fechados naquilo que deveria ser um enorme espaço aberto, potencia concentrações humanas difíceis de atravessar e define áreas que reflectem, de um modo nem sempre simpático, o poder económico de quem as possui. Mas as questões políticas não são para deixar de lado. Vejamos, a Feira surgiu como modo de escoar os fundos editoriais que não se tinham vendido nas livrarias, o que significava que podíamos encontrar livros mais antigos a preços muito convidativos, completar colecções, descobrir edições que teriam passado despercebidas na livraria, etc. Hoje, a Feira parece querer assumir a sua condição de livraria ao ar livre, com tudo o que implica o entendimento mais banal da palavra livraria, ou seja, novidades, novidades, muitas novidades. Encontrar livros com mais de dez anos em alguns dos espaços da Feira é uma tarefa impossível, e sobre isto importa colocar uma outra questão: se a Feira serve exactamente para o mesmo que as livrarias, para que servem as livrarias? Pensarão os editores que, esvaziando as livrarias conseguem melhores resultados financeiros? A curto prazo, talvez, mas a longo prazo, tenho dúvidas. Independentemente das minhas modestas dúvidas, é isto que verificamos muitos espaços da Feira, sobretudo nos atribuídos aos grandes grupos editoriais e às editoras que pretendem disputar os lugares cimeiros do mercado. Felizmente, há editoras que continuam a cumprir os propósitos da Feira, levando para o Parque os livros que quase nenhuma livraria expõe (a ditadura da novidade assim o exige) e que formam a identidade dos seus catálogos, permitindo aos leitores comprar esses livros com descontos consideráveis. E vendem-se muitos livros destes na Feira, parece.

Quanto aos espaços propriamente ditos, entre Praças e Túneis, fica o receio pelo futuro da Feira do Livro. Se este ano já tivémos de conviver com dois espaços delimitados por alarmes e seguranças (as Praças da Leya e da Porto Editora) e um objecto indefinível (o Túnel da Babel) onde se morria de calor, onde havia mais ecrãs do que livros e onde muitas pessoas entravam sem sequer repararem que, em frente, havia três pavilhões de outras editoras (e recordemos que a Babel é a editora do Presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que talvez não tenha zelado da melhor maneira pelos interesses daquelas três editoras, nem pela sua igual oportunidade de exposição numa Feira que também pagaram para integrar), começo a temer pelo que aí virá. Certo é que a Feira reflecte cada vez mais uma espécie de luta de classes latente no meio editorial, e nesta coisa da luta de classes, é bom lembrar um pequeno pormenor: podemos não acreditar na sua existência (na da luta ou na das classes), mas isso não nos poupa aos estragos quando as coisas rebentam.

8 comments

  1. Obrigado Sara pelo
    tempo de nos transmitires as tuas ideias, impressões. Por estas, não é obrigado que vai. São parabéns! A tua lucidez não precisa de mais peso do que o peso da lucidez com à terra sempre nos sentiremos ligados. Nem toda a gente se deixa EMBASBACAR…
    MM

  2. Excelente análise à Feira.
    Este ano fui só num sábado e passei na praça Leya. Além do espaço cheio de pessoas, escritores em várias mesas, confusão para chegar à caixa central, não deu para conversar com o escritor David Machado de quem tinha comprado o último livro, tal era o barulho e a confusão.
    Tive pena pelos escritores ( O Tiago Salazar estava sentado com uma das filas para pagar à sua frente) e não me senti nada confortável com o espaço. Comprar ali ou no hiper acaba por ser igual. Quase só novidades e sem ambiente para conversar com alguém que aconselhe leituras. Continuo a gostar mais de visitar os stands mais pequenos e dar uma palavrinha aos livreiros.
    Fico a aguardar mais análises suas à Feira e ao mundo literário.

  3. Boas, li este teu primeiro balanço sobre a feira do livro de Lisboa e concordo plenamente com tudo o que disseste.
    Num dos meus blogs (www.pipasblog.blogspot.com), também fiz um post sobre a feira e a nossa opinião é identica em tudo. De facto é uma pena que a feira devido à “guerra” e à concorrência entre os três maiores grupos editoriais, tenha vindo desde há uns anos a perder a sua função primária e seja cada vez mais uma “Feira de Vaidades”, onde o seu principal protagonista, o livro esteja cada vez mais a perder a sua importância.
    Em relação às praças e ao túnel é de facto uma péssima ideia, principalmente o túnel que foi a pior coisa que alguma vez aconteceu na feira.
    Esperemos que para o ano (coisa que duvido), a feira volte a ter pelo menos um pouco do ambiente de antigamente e se deixem de invenções… Salvam-se os stands das pequenas editoras onde ainda se consegue encontrar bons livros e a preços acessíveis.
    Nuno

  4. Começo por declarar que o meu comentário não é de desacordo, é de complemento.
    1 – Concordo com a observação da “luta de classes” que não terminará nunca. Acrescento-lhe: A História é sempre escrita do ponto de vista dos poderosos.
    (como autor/procedor da escrita pouco conhecido/promovido sinto na pele as duas “máximas” anteriores.

    2 – Quanto à Feira como espaço de venda não tenho uma opinião abalizada, mas reconheço que os pequenos pavilhões (com a arquitectura que apresentam) são pouco convidativos a uma observação aturada e demorada dos livros. Bastam seis pessoas em frente de uma banca e é impossível “vasculhar” os livros.

    3 – Julgo que a Lisboa falta um grande encontro anual de literatura que “ocupasse” toda a cidade, mas é uma ideia demasiado longa para um post. Talvez, não sei, a Feira se pudesse transformar nesse sentido.

  5. Caro Carlos, também bastam seis pessoas (talvez menos) dentro de um dos pavilhões “abertos” da Leya ou da Porto para não se conseguir vasculhar seja o que for. Sendo que nesses nem é preciso vasculhar porque está tudo (sendo que “tudo” é muito relativo) de capa.

  6. Feira do Livro de Lisboa
    Presentemente a feira passou a ser uma operação de charme – uma campanha de marketing institucional.

    A meu ver, a feira do livro está hoje muito mais atraente, e justiça seja feita em grande parte se deve ao Dr. Rui Beja da anterior Direcção da APEL, por ter tido a coragem de estabelecer uma ruptura com o anterior modelo de gestão e por se disponibilizar para liderar um assunto tão delicado como o projecto de modernização das feiras do livro de Lisboa e Porto. É evidente que o pavilhão apresentado não é um modelo perfeito – pois não há nenhum modelo que possa ir ao encontro das especificidades de cada Editor, assim como dos anseios e expectativas de cada visitante.
    Porém, na minha modesta opinião cumpre com o seu propósito, que se prende com dotar a feira de maior conforto quer para os profissionais como para o público em geral.

    O presente modelo da feira parece-me deveras mais ajustado a um sector que está hoje muito mais profissionalizado, exigente e sofisticado. O modelo anterior pela sua rigidez era castrador penalizando a criatividade, inovação e diferenciação. Contudo, quando várias pessoas referem que o “túnel” da Babel era desconfortável estou plenamente de acordo, no entanto foi bastante concorrido pela sua novidade e arrojada arquitectura, mas os responsáveis que são pessoas atentas certamente que tomaram nota e vão corrigir essas situações de forma a proporcionarem melhores condições aos seus visitantes e potenciais clientes.

    Várias pessoas comentam que temos uma feira a duas velocidades “uma luta de classes”.
    No que diz respeito à desigualdade de forças é uma evidência. No entanto em meu entender foram estes grandes grupos por via da concentração que permitiram introduzir uma outra dinâmica através de actividades paralelas, o contacto com maior número de “forças vivas” autores nacionais e estrangeiros assim como a sedução de órgãos de comunicação social que no passado a desconsideravam. No que diz respeito à introdução das novas tecnologias, mais visível no pavilhão da Babel, é uma inevitabilidade – o editor e todos os agentes ligados a esta indústria que estavam catalogados com o suporte papel, pura e simplesmente terminou.

    Em síntese na minha modesta opinião todos estão de parabéns pelo contributo que tem dado à indústria do livro. Os grandes grupos que por via da concentração, ganharam dimensão emagreceram estruturas permitindo-lhes tornar-se mais competitivos, ganhar músculo financeiro e olhar para um mercado que vai alem fronteiras por via da internacionalização. Hoje, um Gupo Porto Editora, Leya, Babel, Almedina quando define a sua estratégia, pensa num dos nossos mais valiosos activos que é língua portuguesa, numa língua que é a sexta no mundo e num triângulo geográfico de oportunidades, Europa, África e América Latina. Actualmente quase todos estes grupos estão presentes nos três continentes e temos de reconhecer que foram estes grupos que permitiram esta internacionalização, e por via da aquisição salvar muitas editoras que estavam financeiramente muito fragilizadas.
    Todavia, vemos uma nova geração de editores com projectos de pequena e média dimensão que convivem de forma saudável com estes grandes grupos tendo desenvolvido um trabalho brilhante a título de exemplo: Saída de Emergência, Matéria Prima, Verso da Kapa, Alêtheia, Cavalo de Ferro, Booksmile, Clube do Autor, Ahab, Smartbook, Centro Atlântico, Actual Editora, Kalandraka, Bruaá, Gatafunho e Edicare.

    A feira do livro de Lisboa era um momento muito esperado pela ausência de oferta e altamente rentável para os editores. Contudo, houve uma mudança radical do lado do retalho tendo como marco o ano de 1998 com a entrada da Fnac, com um grande capital de experiência internacional e que fez muito bem ao restantes players obrigando-os a crescer em termos quantitativos assim como qualitativos. Actualmente Portugal está dotado de uma rede de retalho muito satisfatória – as Livrarias Independentes, cadeia de livrarias: Fnac, Bertrand, Bulhosa, Wook, Corte Inglés, Book House, Europa América, Oficina do Livro, Barata, Escolar Editora, CE, Almedida e Coimbra Editora especializadas em livro jurídico, Paulus e Paulinas especializadas em livro religioso, distribuição moderna: Grupo Sonae, Grupo Jerónimo Martins, Grupo Auchan, Grupo Mosqueteiros, Leclerc, canais não naturais: CTT, Bombas de Gasolina, Celeiro entre outras, assim como um número interminável de feiras organizadas por empresas especializadas neste tipo de acções, câmaras e bibliotecas.
    Presentemente a feira passou a ser uma operação de charme – uma campanha de marketing institucional. Estou convencido que o principal dividendo que hoje os editores retiram deste evento é a promoção/comunicação, já no que diz respeito ao aspecto comercial, embora considere que é lucrativa, entendo que em termos de volume de negócios não compensa o hiato em relação ao que se deixa de vender para o retalho durante este período.

    Carlos Meirinho Carrilho Rito
    25-05-2011

  7. No que diz respeito à nova geração de editores, acrescento Tinta da China… que por lapso me esqueci de referir… sendo uma editora pela qual tenho uma grande estima e admiração
    carlos meirinho carrilho rito

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