Feira do Livro de Lisboa 2011: um balanço em quatro partes (II)

II Programação Paralela

O que acontece na Feira para além da venda de livros também costuma fornecer lenha para algumas discussões. Para quê ter debates, se as pessoas vão é ver os livros, por que não ter debates, se as pessoas gostam de livros, hão-de gostar de os debater, palhaços em desfile são uma afronta aos livros, palhaços em parada ajudam a chamar a atenção para os livros, enfim, o de sempre repartido do mesmo modo. Claro, entre figuras dos livros e séries infantis transformadas em gigantones, palcos ocupados com bandas de covers a debitar músicas do Jorge Palma e ranchos folclóricos em passeio, Parque acima, Parque abaixo, nem tudo terá sido interessante para toda a gente, mas a Feira ainda é uma feira e é essa especificidade que a define, por mais que a queiram transformar em sofisticada livraria ao ar livre. Pessoalmente, dispensava uma ou outra coisa, como toda a gente dispensaria (provavelmente, coisas diferentes), mas não imagino a Feira como um espaço silencioso e circunspecto, onde as pessoas folheiem livros como quem está na secção de reservados da Biblioteca Nacional. A Feira são os livros, a possibilidade de conversar com quem os faz, as farturas (as farturas…), com mais ou menos óleo e todo o cuidado para não tocar nos livros com a mesma mão com que se sacode o açúcar e a canela, a voz daquela senhora da APEL a anunciar os autógrafos nos altifalantes e a trocar os nomes de muitos autores, os gelados que nunca há e nos obrigam a comer o outro, que afinal até era o que mais nos apetecia, os miúdos a correrem pelo relvado central do Parque, que parece que só nesta altura do ano é que ganha vida, e fica tão melhor assim, os autores em quem se tropeça, o poder apontar, mostrando aos mais novos, ‘olha, aquele é o Urbano Tavares Rodrigues’, ‘aquela é a Lídia Jorge’, ‘aquele é o responsável pelos livros da Antígona, aqueles que têm uma careta com língua de fora na capa’, e os miúdos a aprenderem a reconhecer, a criarem outras imagens dos livros, a saborearem a Feira como quem ainda não sabe que tudo isso hão-de ser memórias associadas às páginas que hão-de voltar noutros sítios. Na Feira, o que se passa à volta dos livros não incomoda os ditos livros, mesmo quando possa incomodar um bocadinho os passeantes, como quando estamos a tentar acompanhar um debate na Praça Azul e temos um grupo a cantar fados no quiosque de café ali encostado, ou quando estamos a moderar um debate no auditório da APEL e temos uma orquestra a tocar a poucos metros (aconteceu, não estou a inventar). A solução é coordenar melhor a programação paralela, impedindo que umas coisas dêem cabo das outras, mas garantindo que todas têm lugar, dentro do razoável. Até os bonecos gigantones, que mesmo quando incomodam deixam perceber a evolução das tendências infantis: o Noddy anda muito desaparecido, depois de uma fase em que o mundo se dividia entre os familiares de crianças que o achavam muito querido e os familiares de crianças que o queriam estrangular, e os Irmãos Koala parecem dominar a cena, juntamente com o Geronimo Stilton; depois há uns bonecos que gostavam de ser famosos, mas não conseguem, como um coelho que por lá andava a querer parecer o Stilton e um leão um bocado aborrecido que não percebi se vinha dos livros ou dos gelados, e afinal isto é muito parecido com os escritores de carne e osso, com as devidas distâncias de pelúcia, e o melhor de tudo foi ver a Ovelha Choné, Shaun para os verdadeiros especialistas, e quase ceder à tentação de lhe dar um abraço. Que a Feira possa continuar a ser esta agradável mistura de livros com farturas, de raridades bibliográficas com roulottes de comida suspeita, de criancinhas insuportáveis com encontros inesperados, é o que posso desejar, de preferência com mais fundos de catálogo e menos novidades, que para isso temos o resto do ano.

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