Amor, paixão, desvios alimentados pela malícia momentânea, co-habitação, desejo, nada disto são sinónimos, ainda que muita gente alimente essa vã esperança. Os que sabem disso dividem-se entre os que equilibram tudo como podem e os que olham para cada gesto quotidiano como partícula da enorme comédia humana que vale a pena mimetizar, analisar e atirar para os olhos, os próprios e os alheios, se for caso disso. Cesare Pavese pertencia a este segundo grupo e recorreu à matéria mais aparentemente banal para erguer alguns romances memoráveis, de que este A Praia é exemplo maior.
Na paisagem da Riviera italiana, o narrador passa a temporada de Verão em casa de um amigo de infância, recentemente casado e com um novo grupo de amigos. As vicissitudes do casamento, as meias-palavras que podem desequilibrar uma conversa ou uma vida inteira e, sobretudo, a consciência do tempo cruzam-se na beira-mar estival e, sem que nada de estrondoso aconteça, cada parágrafo confirma que naqueles dias se joga ao destino sem hipótese de escolher os dados. A Praia mostra um Pavese que domina o rigor dos momentos insignificantes, sabendo encontrar-lhes a cadência e revelar o modo como se revestem de grandeza. E nisto não há contradição, porque insignificância e grandeza são quase sempre lados de um mesmo espectáculo, aquele em que nos vamos movendo, representando em rotinas ou inventando abismos para agitar os dias.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, nº189, Maio 2011)

só é estranha a imagem escolhida para a capa… se a ação se passa nos anos 50, 60… por aí… que sentido faz uma praia com ares de século XIX (início de século XX)?
MINHA CARA, PAVESE MORREU EM 1950.