Feira do Livro de Lisboa 2011: um balanço em quatro partes (III)

III Quanto custa comprar mais barato?

Quem tenha dedicado algum tempo a fazer contas durante os dias da Feira terá percebido que os descontos anunciados na Hora H dariam para fazer a felicidade de muitos leitores. Livros com 50% de desconto sobre o preço de capa são coisa muito atractiva, e não é fácil resistir (cedi à tentação duas vezes, e não houve peso na consciência que me travasse o movimento). A pergunta que fica por fazer é esta: se as editoras podem fazer descontos de 50%, ainda que pontualmente, aos leitores, não poderão fazê-los às livrarias? Parece que não, de acordo com as margens habitualmente praticadas, o que transforma a Hora H numa espécie de hecatombe, fazendo conviver, de modo forçado, a felicidade dos leitores com a aflição dos livreiros. Claro que quando estamos no Parque, felizes, cheios de açúcar das farturas e a olhar para um livro que custa quase vinte euros sabendo que daí a uns minutos vai custar apenas quase dez, é difícil que tais pensamentos nos ocorram. O que não menoriza o problema. Mais complicado é pensar no cumprimento da Lei do Preço Fixo, frequentemente quebrado por muitas editoras fora de qualquer Hora H. Se os livros que foram publicados há menos de dezoito meses não podem ter determinados descontos, como é que apareceram tantos livros com estas características com descontos a atingirem os 30 e os 40%? Há um ano, na conferência de imprensa que apresentou a 80ª Feira do Livro de Lisboa, lembro-me do zelo da direcção da APEL anunciando fiscalização constante para prevenir estas situações. Este ano, em conversa com vários editores espalhados pelos muitos pavilhões da Feira, foi-me dito que a fiscalização andava por lá, sim, mas a tomar conta do que vendiam os alfarrabistas. Não confirmei, até porque nunca vi fiscalização alguma, mas tomei a queixa como um sintoma de que alguma coisa não estaria a funcionar como devia. E nestas coisas, a dúvida não é benéfica. De qualquer modo, custa-me tanto perceber o mau funcionamento da fiscalização como o derrotismo de alguns livreiros que são associados da APEL e que, questionados sobre o que pretendiam fazer para protestarem quanto ao facto de tanta gente não cumprir a Lei do Preço Fixo, disseram que não valia a pena o esforço. Eu não tenho uma livraria, mas gostava de continuar a viver numa cidade onde as livrarias, sobretudo as que não são supermercados de livros, fossem uma realidade frequente.

3 comments

  1. Já há mais de uma década, para não falar em duas, ouço os livreiros a queixarem-se das Feiras do Livro e da deslealdade das editoras ao vender directamente aos clientes, substituindo-se ao retalho, com descontos substanciais. Durante a última década também editoras médias de muito prestígio fazem todos os anos campanhas de descontos nas suas livrarias em Lisboa, o que não favorece os livreiros, em particular os mais pequenos, que se indignam com esses processos de venda directa, muito embora seja um expediente para estas editoras sobreviverem num mercado cada vez mais fechado e dominado por lógicas de concentração, de alta rotação do livro, margens estreitas, etc. A acrescentar a isto, durante todo o ano temos tendas espalhadas por Lisboa a despachar stocks de muitas editoras. Por último, nos últimos anos apareceram os coglemerados do livro e tudo que implicam. Mas ninguém tratou ainda de um problema suplementar que se está a passar. A queda a pique da venda de livros que tem ocorrido nos últimos meses. E esta está a afectar toda a indústria e vai agravar-se. Para os grandes grupos editoriais o deslocamento para o mercado brasileiro pode minorar o problema, os demais passarão tempos ainda mais dificeis, quando já não era fácil manterem-se à tona. Durante esta feira do livro de Lisboa pelo que oscultei (de boca e sem nenhum rigor científico) a queda das vendas em relação ao ano passado foi em média de cerca de 25%.

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