O Festival Literário da Madeira, agora com as palavras todas

A imprensa tem limites que os blogs desconhecem, nomeadamente as limitações de espaço, que muitas vezes surgem pouco tempo antes do fecho da edição, com o aparecimento de uma notícia de última hora ou de uma publicidade que precisa de metade de uma página. A crónica-reportagem que escrevi para o número de Maio da Ler, sobre o Festival Literário da Madeira, sofreu um bocadinho com esses limites, tendo sido publicada numa versão muito mais curta.  Agora que o número de Junho já está nas bancas, deixo aqui a versão integral do texto.

 

COISAS QUE ACONTECEM NUM PRIMEIRO FESTIVAL LITERÁRIO

Mandam as regras da sanidade mental que uma pessoa não se atire às suas fobias como se elas se resolvessem com boa vontade e aforismos do Paulo Coelho. Quem tem medo de aranhas, não se atira para um tanque de viúvas negras. Mas quando a fobia envolve aviões, o caso altera-se: ou se acede à civilização, saltando para o dito tanque, ou se vive sossegadinho, com o medo esquecido, mas longe da possibilidade da viagem. E foi assim que me convenci a entrar num voo da TAP com destino ao Funchal, porque ficar com o medo esquecido não me deixaria averiguar como correria a primeira edição do Festival Literário da Madeira (FLM), uma organização dos Booktailors e da editora Nova Delphi que, sem expectativas possíveis, parecia inaugurar a promessa de levar a senda dos festivais literários a paragens menos prováveis.

Recreio no Funchal
Sobre o sucesso do FLM e a certeza da sua continuação nos próximos anos, já toda a imprensa escreveu, para não falar na cobertura dos vários blogs presentes e na enxurrada de tweets, facebooks e outras epifanias virtuais dos amigos dos ICoisos. Quem chegou até aqui, estará mais interessado em conhecer algumas inconfidências. Mas antes, a contextualização que se impõe.

Um festival literário é mais do que um encontro de escritores em são convívio com a imprensa e com os leitores. Essa descrição é justa, mas o que não costuma dizer-se é que um festival literário também é uma colónia de férias. Não é que não se trabalhe, mas a reunião de várias pessoas que partilham a sua dedicação aos livros mas que não deixam por isso de partilhar uma compreensível vontade de diversão e uma extraordinária capacidade para o gossip, transforma tudo num recreio. Bem intencionado e cheio de momentos literários, mas nem por isso menos recreio. É compreensível. Durante uns dias, as pessoas vivem num hotel – sem querer irritar ninguém, frequentemente com vista para o mar –, cruzam-se em todos os espaços (menos nos quartos, mas cada um sabe de si) e deixam para trás a preocupação de cozinhar, fazer a cama ou dar conta dos pratos sujos que já começam a abalar a harmonia conjugal. Escrevem, lêem, dão autógrafos, pedem entrevistas, debatem, e à noite bebem. Com a bebida, soltam-se as conversas, as inconfidências, as afinidades. Quando a coisa chega ao último dia, percebe-se por que é que tantas caras exibem aquela expressão de quem sabe que a colónia de férias chegou ao fim. E mesmo que ninguém se atreva a entoar o “Chegou a hora do adeus…”, é como se a musiquinha irritante pairasse por entre os abraços de despedida. Não se estranha, por isso, que depois das referências à Recherche, a frase hollywoodesca sobre o que acontece ou deixa de acontecer em Las Vegas seja a mais utilizada para falar do festival do momento. O que quer que aconteça na Póvoa, em Matosinhos e, agora, no Funchal, fica por lá. E por isso não vou falar das técnicas para apurar a melhor poncha madeirense, dos escritores que desfilaram em roupão até à piscina do hotel Meliã Mare ou da sósia de uma certa actriz americana que deixou alguns convivas com o queixo caído por tempo indeterminado.

Um repasto devastador
Dizem os mal intencionados que os nossos festivais não têm o glamour de Paraty ou a loucura bárbara do Hay-Festival, mas se há coisa pela qual se destacam primorosamente é a hospitalidade. Escritores, editores e jornalistas são recebidos com simpatia e sempre, sempre, bem alimentados. Neste apartado, o FLM decidiu subir a parada, convocando para a segunda noite do festival uma refeição digna de um braço armado dos Macavencos.

Tudo começou com uma prova de vinhos da Madeira, bolo de mel e outros acepipes locais. Seguiu-se um rancho folclórico e um jantar primorosamente preparado pelo restaurante Venda da Donna Maria para dar a conhecer a gastronomia da ilha. O que ninguém pensou foi que ia conhecer toda a gastronomia da ilha. A comida estava muito boa, mas depois de cinco entradas generosas e meia açorda, comecei a desconfiar de que não sairíamos dali vivos e a perceber o motivo pelo qual a organização incluiu os contactos do Hospital do Funchal no programa. Ainda faltavam dez pratos e três sobremesas quando pus em causa a minha fama de pessoa que come sem pudor. A partir daqui, instalou-se o medo, e nem os momentos altos das horas anteriores o afastaram. Perante estômagos literários em tensão, esfumaram-se as divagações de José Mário Silva sobre Aurelino de Sousa Gomes, o escritor que não escreve, as aventuras de valter hugo mãe com os seus livros “cheios de porcarias” ou a referência de Raquel Ochoa a uma coisa chamada “masturbação acompanhada” (juro pela minha saúde).

O baile dos escritores
Quando a comitiva estava à beira da congestão, o rancho atacou o “Ponha aqui o seu pezinho”, captando participantes entre os convivas. Felizmente, estava do lado de fora de restaurante, pelo que não precisei de juntar à minha fama de glutona a de pé-de-chumbo, mas pude ver Rui Zink bailando com dedicação enquanto procurava manter o ritmo respiratório, Inês Pedrosa aprendendo novos passos com um cavalheiro de barrete e botas tradicionais, dois consultores editoriais trocando voltas com senhoras de lenço na cabeça que pretendiam ser bordadeiras e alguns jornalistas tentando não conhecer de perto as pedras da calçada. Pensava-se que a distância da Capital resguardaria os foliões, mas cinco minutos depois já a trupe dos ICoisos tinha colocado o vídeo na internet. E ainda me perguntam por que é que não compro um Iphone…

Enquanto isso, um escritor prosseguia a tarefa de comer com dedicação. Mário Zambujal, sem tremer, terá provado todos os pratos e ninguém pode dizer que lhe notou diferenças depois do jantar. Um jornalista da velha guarda a mostrar aos camaradas mais novos como é que se faz, sem medos nem mariquices. Pela minha parte, desisti ao sétimo prato, quando percebi que o momento de recorrer aos contactos hospitalares se aproximava. A literatura é muito bonita, mas tinha a família a contar com o regresso a Lisboa.

A luxúria da poncha
Sendo um filho assumido das Correntes d’Escritas, o FLM decidiu inovar nos temas das mesas, apresentando-os claros e bem definidos, ao contrário do que acontece na Póvoa, onde o título de cada mesa é um enigma que os escritores se desunham por decifrar. O que o FLM não pensou foi que essa inovação não alteraria o caos que uma mesa com três ou quatro escritores pode ser. E ainda bem, porque se as mesas do Funchal tivessem sido as lições de sapiência que um ou dois participantes quiseram que fossem, teríamos morrido de tédio na pérola do Atlântico, em vez de termos assistido a mais uma mão-cheia de momentos únicos, daqueles que hão-de permanecer na memória colectiva de quem esteve e deixar quem não esteve a roer-se de inveja. Já aqui se referiu a história de Aurelino de Sousa Gomes e a masturbação acompanhada, rapidamente transformada em sound byte. Mas ficaram por referir outros momentos altos, como aquele em que Rui Zink explicou que os telemóveis com câmeras de vídeo eram um perigo, porque um escritor pode beber uma poncha a mais e confundir a admiração de uma leitora com luxúria, coisa que terá acontecido no Mini Eco Bar, que recebeu a comitiva na sexta-feira à noite (e onde Zink, jurou-o o próprio, não esteve). Ou a intervenção de Pedro Vieira na mesa sobre os escritores maltratados, onde juntou, na mesma lista, Margarida Rebelo Pinto e Brendan Behan sem que ninguém o apedrejasse a partir da plateia, para logo depois referir Karl Marx e uma edição publicada pela Avante, essa sim, mesmo maltratada, porque apresenta trezentos e cinquenta prefácios antes de arrancar com o texto do barbudo. Ou, ainda, a bomba que Sandro William Junqueira largou sobre a assistência, sob a forma de um verso de Adília Lopes: “Um dia tão bonito/ e eu não fornico”. E depois querem que isto dos festivais literários pareça sério… É certo que se citou Herberto Helder para cima de trezentas vezes, mas a Recherche não teve direito a aparecer e toda a gente parecia mais interessada em conviver, trocar livros ou moradas electrónicas (com que fim, não pude averiguar) e conversar noite dentro do que em ocupar o tempo em meditação, com um Roland Barthes entre mãos, a dar aos neurónios literários o uso que eles exigem. Afinal, se não for para isso, para que serve um festival literário?

Pronto, a verdade é que correu tudo muito bem
Depois de tudo o que já se escreveu sobre o FLM, seria de mau tom vir agora contrariar os elogios. É verdade que os Booktailors e a Nova Delphi se mostraram uma organização exemplar, que uma primeira edição do que quer que seja não costuma correr tão bem, que chegou a haver duzentas pessoas na assistência, que os miúdos das escolas acolheram os escritores que os visitaram com entusiasmo visível e que não se viu ninguém insatisfeito, mesmo antes dos vários copos de poncha que circularam (e que levaram Mário Zambujal a encerrar a última mesa “com poncha e circunstância”). Mas também é preciso dizer que aquela coisa do jantar levantou suspeitas, porque há formas menos dolorosas (e menos prazenteiras) de aniquilar uma porção tão generosa do meio literário português, e que com tantas mesas e tantos lançamentos, sobrou pouco tempo para conhecer o Funchal, e tempo nenhum para visitar a Livraria Esperança, que merecia todas as romarias e uma ou duas peregrinações. E como se não bastasse ter de ir e voltar a bordo de um monstro de ferro com asas, ainda descobri, antes da porta de embarque para Lisboa e logo depois de uma funcionária do aeroporto me ter apalpado da cabeça aos pés só porque apitei quando passei naquelas maquinetas infernais que nos tiram radiografias, ecografias, análises à glicemia e tudo, que um jornalista da concorrência tinha uma vista de mar muito melhor do que a minha. Há coisas que não se toleram.

Sara Figueiredo Costa
(publicado, com muitas alterações, na Ler, nº102, Maio 2011)

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