Sobre as Coisas Que Nunca Aconteceriam em Tóquio

Na quinta-feira, apresentei o livro de Alberto Torres Blandina, Coisas Que Nunca Aconteceriam em Tóquio (Quetzal), no cinema S. Jorge, no âmbito do Festival Silêncio. Aqui fica o texto que li, já com os apartes que fui fazendo incluídos:

 

Quando a Quetzal me convidou para fazer esta apresentação eu aceitei de bom grado, porque as Coisas que Nunca Aconteceriam em Tóquio foi um livro que passou pelos escaparates de forma algo discreta, mas que merecia ter tido um lugar por entre aquele punhado de coisas que nos ajuda a pensar o mundo e o quotidiano em que vivemos, sobretudo se vivemos na cidade, com acesso à internet, com alguma possibilidade de viajar e com a cultura televisiva a dominar o panorama.

O problema de se apresentar um livro está sempre no risco de fazermos alguma revelação sobre o conteúdo que possa estragar o prazer da leitura, por isso vou tentar não ceder à tentação de contar a história que se guarda nestas páginas, até porque nestas páginas se guardam tantas histórias (assim em modo de boneca russa) que o melhor é contar eu mesma uma outra, que não pertence aqui. Quando li Coisas Que Nunca Aconteceriam em Tóquio aconteceu-me um daqueles fenómenos tipo madalena do Proust (e eu não podia vir apresentar um livro sem falar na Recherche, ou as pessoas iam ficar mal impressionadas…) e, logo no primeiro capítulo, o ambiente do aeroporto e a conversa do narrador, Salvador Fuensanta, um empregado de limpeza do aeroporto, com os candidatos a viajantes fez-me lembrar de um episódio que já tinha esquecido. A primeira vez que entrei num aeroporto, o da Portela, era miúda e fui com a minha família buscar a minha mãe, que regressava de Veneza. Não sei bem que idade tinha, mas lembro-me de ver aquele movimento de gente e de ter a certeza de que o aeroporto da Portela era o centro do mundo, o que é um daqueles lugares-comuns que adoramos associar aos aeroportos e que o Alberto usa como um dos motes para a sua narrativa. Claro que nessa altura eu não sabia muito bem o que seria um lugar-comum e não deixei de me deslumbrar perante a possibilidade de um terreno delimitado no meio da cidade poder ser o ponto de acesso a qualquer lugar do mundo.

Nessa ida ao aeroporto, aconteceu um episódio curioso que o livro do Alberto resgatou do baú da minha memória. Um casal de turistas, não me lembro de que nacionalidade, até porque tive alguma dificuldade em percebê-los, avançou na nossa direcção e estendeu-me uma máquina fotográfica enquanto dizia algumas palavras que eu me lembro de soarem a inglês, mas sem certezas. Eu, ensinada a não aceitar rebuçados de estranhos, quanto mais máquinas fotográficas, abanei a cabeça educadamente, até que a minha irmã me disse que os senhores só queriam que eu lhes tirasse uma fotografia, e eu acedi, um bocado espantada com aquilo de me colocarem uma máquina nas mãos. Os casal de turistas era só sorrisos, e malas, e saquinhos com postais e galos de Barcelos. Mostraram a sua cara de maior felicidade para a objectiva, abraçados como se fossem o casal mais apaixonado deste mundo. Eu tirei a fotografia, devolvi-lhes a máquina e regressei para junto da minha família, sem saber que ia voltar a ver aquele casal poucos minutos depois, numa zona de espera do aeroporto, discutindo em estrangeiro com olhares de ódio que pareciam ser antigos e que não batiam nada certo com os rostos da fotografia. Enquanto esperava pela hora a que o avião da minha mãe iria aterrar, fiquei a observar aqueles dois e a pensar em como era possível sorrir apaixonadamente para uma câmara fotográfica quando se estava prestes a atirar o parceiro para a pista, de preferência momentos antes de o trem de aterragem lá bater. Não houve conclusões e eu esqueci-me da história, até ler as Coisas Que Nunca Aconteceriam em Tóquio, onde este contraste entre a imagem que fabricamos de nós através das nossas atitudes e aquilo que realmente somos e sentimos é explorado de uma forma muito contemporânea, mas sobretudo muito desconcertante.

Por mais modernos, descontraídos e lidos que queiramos ser, ou parecer, não temos como fugir dos lugares-comuns e a melhor maneira de confirmarmos isso sobre nós próprios é entrarmos num aeroporto. O frenesi de pessoas com malas, os quiosques com jornais de todo o mundo, os cafés que custam cinco vezes o preço da bica e que vêm em copinhos coloridos de papel saídos de um qualquer filme nova-iorquino, os portões de embarque… Só o nome ‘portões de embarque’ é todo um programa, como se do lado de cá fosse Lisboa e do lado de lá fosse Cracóvia, Buenos Aires, Istambul ou o Alasca e nós pudéssemos saltitar alegremente de um lado para o outro, como quem pões um pé de cada lado da fronteira e acredita estar a mudar de país com esse gesto. Sendo o mundo redondo, um aeroporto tem tanto potencial para ser o seu centro como um campo de milho na América do Sul ou um deserto na África do norte, ou uma casa envelhecida em Carrazeda de Ansiães. Mas nós gostamos de acreditar que os aeroportos são mesmo o centro do mundo, e que vamos à Índia para nos descobrirmos, ou que vamos para Cancún para encontrar a felicidade em cocktails coloridos com chapelinhos de papel, como algumas das personagens deste livro. Faz parte da nossa natureza e em Coisas Que Nunca Aconteceriam em Tóquio confirmamo-lo com uma clareza que também é uma forma de nos rirmos de nós próprios.

E o casal do aeroporto da Portela? Bem, o casal do aeroporto da Portela continuou a discutir e a mulher acabou por levantar-se e arrastar a sua mala para outro banco, deixando o homem sozinho e enfadado. O avião da minha mãe chegou entretanto e eu não voltei a ver aqueles dois, mas passados estes anos todos, depois de ler o livro do Alberto, tenho a certeza absoluta de que não terão entrado no mesmo avião. Talvez ele tenha ido para o Oriente, atrás de uma certeza zen que descobriu nalgum livro de auto-ajuda, e talvez ela tenha embarcado para Estocolmo e hoje esteja a cultivar os mirtilhos que nós colocamos nos muffins para parecer que somos tão modernos que já não comemos queques. De qualquer modo, o centro do mundo não existe e as Coisas Que Nunca Aconteceriam em Tóquio são uma boa maneira de confirmar até que ponto continuamos à procura dele.

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2 comments

  1. Óptima apresentação. Depois disto só falta correr até à livraria mais próxima e fazer-me com o livro.

    Cumprimentos

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