O regresso de Lars Kepler

No dia em que chega às livrarias O Executor (Porto Editora), aproveito para recuperar uma entrevista que fiz aos dois autores suecos que se escondem no pseudónimo Lars Kepler. Alexander Ahndoril (AA) e Alexandra Coelho Ahndoril (ACA) estiveram em Portugal há mais ou menos um ano, apresentando O Hipnotista, um policial de contornos psicológicos que inaugurava as aventuras de Joona Lina, um detective pouco típico. A entrevista, gravada num hotel lisboeta, ficou por publicar. Até agora.

 

Lars Kepler é o nome na capa do livro, mas Lars Kepler não existe a não ser quando se juntam Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril, o casal de escritores que criou o pseudónimo mais agitador da literatura sueca contemporânea. Quando o primeiro livro saiu, o sucesso foi tão grande que criou um ‘caso Kepler’, até se descobrirem os verdadeiros autores, ambos com obra reconhecida. Em O Hipnotizador, o comissário Joona Linna recorre aos serviços de Erik Maria Bark, que jurara não voltar a hipnotizar ninguém, para resolver o assassinato de uma família. Com o avançar da trama, o passado de Erik e o presente do homicídio acabarão por cruzar-se numa espiral de surpresas que se mantém funcional até à última página. Na sua passagem por Portugal, país de origem da mãe da metade feminina de Kepler, os autores conversaram com o Cadeirão Voltaire sobre o seu novo projecto literário.

Como é que dois escritores com obras distintas e reconhecidas decidem juntar-se e criar um novo escritor, um pseudónimo duplo que obriga a fazer a dois aquilo que sempre se fez solitariamente?

ACA: O pseudónio foi precisamente por sermos escritores conhecidos e com obras distintas. E como queríamos escrever algo novo, com um tom diferente do que tinham os livros de cada um, decidimos assumir um pseudónimo.

É verdade que o editor não sabia quem estava por trás do nome Kepler quando recebeu o livro para publicação?

AA: Sim, porque não quisemos que a decisão de publicar ou não o livro fosse determinada pelo nosso reconhecimento prévio enquanto escritores.

E a agitação que a imprensa criou à volta do livro e do seu autor misterioso, que acabou com a descoberta da vossa autoria e com fotógrafos a perseguirem-vos à porta de casa… Esse cenário é comum na cena literária sueca?

AA: Não, de todo. Nunca tinha acontecido nada assim antes e foi muito estranho.

ACA: Se calhar como isto aconteceu no Verão e não havia notícias, os jornalistas dedicaram-se a descobrir a identidade de Lars Kepler (risos).

E não houve, nesse processo, nenhuma intenção de marketing?

AA: Não. Na verdade, o nosso editor ficou zangado por não querermos revelar-nos, porque isso impedia a promoção do livro.

ACA: Mas nós resistimos durante algum tempo, porque como a Suécia é um país pequeno, se um escritor é conhecido por escrever determinado género de livros, ninguém vai desligá-lo desse género e aceitar que escreva outro qualquer. E nós queríamos escrever sem essas limitações.

Tenho de perguntar se o nome Lars Kepler tem alguma relação intencional com o do escritor Stieg Larsson.

ACA: Sim, absolutamente. No início, o Aleksander propôs Kepler e eu não fiquei convencida, porque achava que o autor devia ser uma mulher. Então propus Lotta Kepler e ficou assim por um tempo. Mas depois achámos que não podia ser uma mulher, e eu propus Lars. E foi também um tributo a Stieg Larsson, que Kepler aprecia por muitos motivos – era um feminista, lutou contra o racismo…


Copyright © Anna-Lena Ahlström

A personagem central de O Hipnotizador, o inspector Joona, não corresponde ao cliché contemporâneo do detective atormentado, cheio de vícios e com alguns distúrbios psicológicos, mas ainda assim capaz de seguir em frente.

ACA: Tínhamos consciência de que a nossa história era muito violenta e assustadora, e por isso queríamos ter um herói muito confiável.

Apesar disso, o inspector Joona não é uma personagem linear…

ACA: Sim, não é fácil entendê-lo. E como queríamos escrever vários livros com ele, quisemos uma personagem que se fosse desvendando a cada novo livro. Mas sempre como um herói que transmita confiança, por vezes até de modo exagerado.

Então está explicada a recorrência de situações em que Joona obriga outras pessoas a afirmarem categoricamente que ele tinha razão.

ACA: Sim (risos).

Este primeiro volume aborda a possibilidade de se descobrirem coisas que podem solucionar um mistério acedendo ao cérebro humano através do hipnotismo. É uma ideia muito forte num romance policial, mas levanta o problema da incerteza sobre a veracidade dos factos que se descobrem desse modo. Como é que lidaram com essa questão, sabendo que o que guardamos na memória nem sempre corresponde à verdade?

AA: Pareceu-nos que o hipnotismo podia ter um enorme efeito dramático, porque os problemas e as dúvidas que vão surgindo sobre o processo alimentam o próprio mistério. Claro que na realidade, isto seria impossível, porque não se poderiam usar provas obtidas deste modo em tribunal, por exemplo, mas na narrativa funciona muito bem. E o mais interessante sobre o hipnotismo é que a pessoa hipnotizada pode mentir a quem ao hipnotizador, mas não a si própria.

ACA: Além disso, a tradição do policial passa por descobrir os crimes tentando perceber o modo de pensar e de agir do criminoso, e o hipnotismo tenta isso mesmo, entrar no pensamento de outra pessoa. Isso foi muito entusiasmante.

Fizeram muita pesquisa sobre o universo do hipnotismo?

AA: O meu irmão mais velho é hipnotizador e isso ajudou-nos perceber e documentar uma série de coisas.

Habitualmente, o policial obedece à regra que diz que a chave para desvendar o crime tem de estar no próprio texto. Mas em O Hipnotizador, essa chave está no passado de Eric, que o leitor desconhece, o que, em termos narrativos, permite qualquer desenlace. Esta forma de lidar com as ‘regras’ do policial foi premeditada?

AA: Sim, quisemos, de facto, fugir a um certo modo, muito esquemático, de narrar um policial.

ACA: E quisemos transmitir a ideia de que nada é o que parece e de que o próprio passado pode ser uma fantasia.

AA: Como se arrastássemos o leitor para este mundo e o deixássemos explorar à vontade.

ACA: Para além disso, como temos muitas referências cinematográficas, quisemos criar várias linhas narrativas, de maneira a que o leitor se fosse movendo por diferentes espaços, tempos e contextos. Isso pode trazer muita dinâmica a um romance policial.

Ernst Mandel dedicou um livro (Cadáveres Esquisitos, editado em Portugal pela Cotovia) à análise sociológica do romance policial onde identificou diferentes tipos de crimes romanceados em função do tempo e do contexto. Nesse livro, defende que os policiais de finais dos anos 60 tendiam a apontar o sistema político e económico como culpado. Hoje estaremos noutro patamar, com o crime violento aparentando não ter qualquer motivação ‘lógica’?

ACA: Talvez. Temos assistido a tantos crimes sem motivação perceptível na Suécia. Mas por outro lado, continuo a acreditar que quem comete crimes violentos tem uma história qualquer, um elemento de perturbação, uma motivação. Não acredito que as pessoas sejam simplesmente assim, sem contexto algum.

AA: Os nossos medos estão a mudar. As pessoas parecem mais próximas, também por causa da tecnologia e da comunicação a todos os níveis, mas ao mesmo tempo parecem mais afastadas, como se já não temessem propriamente a sociedade, mas uma espécie de violência individual e sem motivo que estaria nas ruas. E no entanto, a maioria dos casos de violência ocorre na família, e a maioria dos crimes é cometida por alguém que a vítima conhece. Por isso, sim, os medos estão a mudar, e isso reflecte-se também nos romances policiais, que já não são simples histórias de perseguição de um criminoso, mas sim verdadeiros thrillers, onde é preciso lutar para se continuar vivo.

O que é que se passa nos países nórdicos para, de repente, surgir este interesse na vaga do romance policial?

ACA: Contar histórias é uma tradição muito antiga para nós. Mas sobretudo acho que é o resultado de se viver numa sociedade com uma superfície aparente muito forte. A Suécia é um país onde as pessoas não querem ver determinadas coisas, nem falar sobre elas.

AA: Talvez seja o assumir de uma separação separação entre a realidade e o quadro arrumadinho que se pinta a partir de uma sociedade como a sueca.

ACA: Pode não querer assumir-se, mas todas as sociedade enfrentam o crime. Por mais organização e privilégios que existam, ele está lá.

Quantos livros assinados por Kepler e com o detective Joona vamos poder ler?

Estamos a planear uma série de oito, contando com este.

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