William Faulkner, Sartoris, D. Quixote

Se fosse realmente possível listar os ‘livros essenciais’ da literatura mundial, teríamos tanto consenso como numa reunião parlamentar. Não se dirá, portanto, que Sartoris é um livro essencial, mas antes que é com ele que Faulkner começa a gravar a sua marca, aquela marca indelével que inclui O Som e a Fúria, trazendo o Sul dos Estados Unidos da América para o cânone literário (e, mais importante, para o imaginário colectivo dos leitores, mesmo os que nunca puseram o pé nos Estados Unidos).

A acção de Sartoris decorre em menos de um ano, mas cada dia é impiedosamente definido pela herança de quatro gerações de Sartoris, cada um arrastando os seus escombros morais e as suas pequenas tragédias. E tudo isto no cenário de uma América em mudança irreversível, com a escravatura a soltar os seus últimos estertores e a ruralidade a ver chegar as tecnologias associadas ao desenvolvimento. Mas não é unicamente pela perspicácia da caracterização das manhas de cada personagem (com pouco espaço, resta aconselhar os leitores a darem especial atenção à impagável Tia Jenny) ou pelo mosaico de cenas e descrições, tão característico de um espaço e de uma época, que Sartoris é um monumento literário. Sê-lo-ia ainda que acompanhasse uma família de alienígenas, porque transforma cada conflito comezinho e cada quotidiano banal no lastro que constrói um universo. E isso, sem blasfémia, é uma espécie de Génesis.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Agosto 2011)

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