No Dia Mundial do Tradutor

Confesso que só agora descobri que hoje é o Dia Mundial do Tradutor, o que não retira qualquer ponto à admiração que tenho pela profissão, sobretudo quando é praticada com esmero. E para assinalar a data, ‘roubo’ ao blog do Encontro Livreiro o discurso dos tradutores Cristina Rodriguez e Artur Guerra, proferido na cerimónia de entrega do Prémio de Tradução Casa da América Latina /Banif 2011 (pela tradução de 2666, de Roberto Bolaño), proferido no dia 13 de Setembro de 2011. Aqui fica, com os devidos agradecimentos ao Encontro Livreiro:
Este momento que vivemos aqui hoje em conjunto oferece-nos acima de tudo a oportunidade de agradecer e de celebrar. Vamos saboreá-lo porque os dias como os de hoje costumam ser contados e recordados para a vida. Receber este prémio é uma honra e gostaríamos de partilhá-la com algumas pessoas que a tornaram possível. Agradecemos em primeiro lugar a todos os membros do júri que nos distinguiram com o prémio de tradução literária da Casa da América Latina/Banif de 2011. É para nós imprescindível agradecer à Quetzal e em especial ao Francisco José Viegas, seu director na época e que nos confiou esta tarefa a contra-relógio. Tivemos meia dúzia de meses para traduzir perto de mil páginas em que só a revisão nos levou um mês, com fins de semana incluídos. Decidimos dividir entre nós as cinco partes que compõem o livro de modo a poder responder à urgência da sua publicação. Sabíamos pela nossa longa experiência de trabalho a dois que essa divisão não iria prejudicar o conjunto da obra, mas para evitar qualquer disparidade de critérios combinámos que a revisão seria feita de modo diferente: um de nós ia lendo a versão portuguesa por si traduzida e o outro ia seguindo o texto original para não deixar passar uma palavra sem sentido, um salto de linha, uma referência inadvertida, fazendo sugestões ou propondo alterações. O nosso trabalho em conjunto permite-nos a entreajuda, ultrapassando a dificuldade que a tradução como acto solitário implica. O texto de Bolaño exprime as multifacetadas dimensões de uma prática de comunicação que exige constantemente prévia interpretação hermenêutica e atenção aos diversos níveis do texto. Texto este que se descobre num labirinto de relações sistémicas que vai abrindo passagens para novas interpretações cujos limites não são apenas do domínio linguístico, mas também estético. Tivemos muitas dúvidas, expressões chilenas e mexicanas que não conseguíamos identificar, entrámos em contacto com outros colegas, trocámos impressões, procurámos na tradução inglesa soluções milagrosas para as últimas indecisões. Sim, porque sabíamos que a tradutora norte-americana viajara até ao México durante o seu trabalho para melhor absorver a atmosfera de grande parte da acção. Luxos vedados aos tradutores literários portugueses, já se sabe, que dificilmente vivem em exclusivo da tradução. Com ou sem crises.

Quem melhor que Roberto Bolaño para entender as vicissitudes económicas de quem se dedica à arte de escrever? Durante toda a sua vida fez de tudo um pouco para não abdicar do seu sonho, trabalhava de dia para escrever à noite, nenhuma tarefa lhe pareceu menor para a sua subsistência e dos seus se ela lhe permitisse continuar a construir o universo literário que nos foi oferecendo em cada livro. Esta dedicação e amor à escrita, descoberta à medida que íamos traduzindo e conhecendo Roberto Bolaño, tornou-se para nós numa fonte de inspiração e admiração. Estamos desconfiados que o fabuloso autor de 2666, “lá do seu assento etéreo” provavelmente velou para que a sua obra fosse tratada com amor. E isso podemos garantir que foi. Amor esse que tem continuado fiel e mais alicerçado nos livros que posteriormente temos vindo a traduzir: O Terceiro Reich, A Literatura Nazi nas Américas, Os Dissabores do Verdadeiro Polícia, A Pista de Gelo.

Soubemos, entretanto, que o tradutor alemão de 2666 também recebeu um prémio pelo seu trabalho. Embora já fosse um autor consagrado e premiado, Bolaño ficou mais conhecido no mundo inteiro graças à brilhante tradução norte-americana que ajudou a colocá-lo, já depois da sua morte, no topo de vendas nos Estados Unidos. Coincidência ou não, a verdade é que como nos disse pessoalmente José Saramago e mais tarde escreveu: “os escritores fazem as literaturas nacionais e os tradutores fazem a literatura universal. Sem os tradutores, nós os escritores (…) estaríamos condenados a viver fechados na nossa língua.”

Obrigado Roberto Bolaño, obrigado José Saramago. E a todos vós por estardes aqui connosco.

Cristina Rodriguez e Artur Guerra

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