Grandes e Pequenos, parte II

Assim escreve a livraria Fonte de Letras, de Montemor-o-Novo, à Leya:

Caros Senhores,
Lamento mas não tenho mais paciência para estas reclamações “por escrito” – como diz o delegado comercial da Leya para eu fazer para o seu director. Não sei porque não chega a chamada telefónica que fiz para o telemóvel do comercial, que custa caro, mais o telefonema para o serviço a clientes da Leya, que custa dinheiro! Pois se quer a um quer a outros perguntei e reclamei pelos livros que encomendei e não chegaram, que são as novidades interessantes a sair no momento – Lobo Antunes, Agualusa, Miguel Real, Herta Müller – que pedi ao mesmo tempo que livros do Ruca e da Chicco e do Lego, e esses sim, chegaram cá!!!!

Os livros interessantes não chegam, como não vai chegar provavelmente, o novo livro do Saramago. Estarão com certeza pilhas deles nos hipermercados e afins, para depois voltarem devolvidos para a editora daqui a algum tempo enquanto a Fonte de Letras receberá talvez a 3ª edição daqui a uns tempos e depois de ter dito envergonhada e lacónica, aos clientes habituais e que dão valor à 1ª edição, “peço desculpa, não chegou!!”
Estou cansada e tenho vergonha que os cliente saibam disto.


E voltamos ao mesmo, pensarão os leitores. O problema é que o mesmo acontece diariamente nas livrarias que não têm como negociar grandes margens e mega-promoções, ou seja, com as livrarias que não são cadeias livreiras nem hipermercados. As coisas caminham para um ponto em que só nesses sítios – cadeias livreiras e hipermercados, mas igualmente estações de correio, bombas de gasolina, etc, etc –  haverá livros, ou, pelo menos, só aí haverá os livros de maior circulação, ficando as livrarias independentes reservadas para as edições de autor e para um conjunto de edições que, em muitos casos, vão garantindo a nossa sanidade intelectual, mas que não garantem um negócio de portas abertas. Os nossos liberais gostam muito daquela conversa do ser preciso deixar o mercado funcionar; pois bem, isto não é o mercado a funcionar, é o mercado a apontar o dedo às livrarias independentes e a dizer, claramente, “Vocês, amiguinhos, caput“, enquanto faz aquele gesto infalível de passar o dedo ao longo da linha do pescoço, o próprio, mas simbolizando o alheio.

A imagem lá em cima é, claro, de David e Golias, uma das mais belas histórias da Bíblia.

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