Ler: Estante Digital

Amanhã, na Ler de Novembro, inauguro uma secção sobre livros em formato digital. Quem me conhece bem estará a rir-se com a notícia, assim como quem diz ‘ah, não querias, não gostavas, e agora até lês os clássicos no ecrã’. Não é bem isso, mas anda lá perto.

A ideia de transformarmos as nossas bibliotecas, empoeiradas, cheias de papel amarelecido e bilhetes de metro entre as páginas, em coisas virtuais às quais acedemos através de chips, ou bites, ou lá o que é, continua a não me entusiasmar. Mais do que isso, não creio que uma coisa substitua a outra, e continuo a ver o livro impresso como uma espécie de baluarte civilizacional – se uma guerra der cabo dos servidores onde se guardam as ‘nuvens’ de informação e os livros que compramos sem nunca conseguirmos sentir-lhes as páginas, o papel impresso continuará por cá. Se for bem tratado, continuará por cá muito tempo, assistindo, sobranceiro, aos cinquenta novos modelos diários de leitores de e-books que já não reconhecem os e-books que comprámos há dois anos, porque o sistema é outro, etc, etc.

  

Apesar de tudo isto, o digital está aí e quem gosta de livros não quererá ver o barco passar sem, pelo menos, experimentar dois ou três passeios pela proa. Foi assim que comecei a ler sobre o assunto, primeiro, e a ler livros digitais, depois, maravilhando-me com algumas coisas, duvidando de outras. A partir da edição de Novembro, escreverei mensalmente sobre dois e-books, sobrando-me espaço para mais algumas coisas, entre notícias relevantes do mundo digital e considerações sobre temas relacionados com isto de lermos no ecrã. E com a leitura diária de tantos artigos sobre o tema que este novo espaço exige, isso quer dizer que passarei a escrever mais sobre o assunto também aqui, sobretudo quando o espaço na página da Ler não me permitir desenvolver certos temas com a atenção que gostaria. Estou entusiasmada, sim, mas os livros que me rodeiam não têm nada a temer (a não ser a falta de espaço, que será resolvida com mais pilhas desequilibradas, e nunca com a substituição de qualquer volume pelo seu correspondente digital). A partir de amanhã, veremos como corre.

Antes do fim, impõe-se um agradecimento ou dois. Se não fosse o entusiasmo da Isabel Coutinho, que me pôs um iPhone nas mãos há uns dois anos e me obrigou a folhear alguns livros no ecrã, talvez não tivesse muito para dizer sobre o assunto (na altura, mantive-me indiferente, que uma pessoa não pode dar parte de fraca só porque lhe mostram um bocadinho de tecnologia, mas a verdade é que aquilo me deixou a pensar). E se não fosse José Afonso Furtado, que há uns tempos, numa entrevista para a OML, me explicou tudo com o modo eloquente, informado e pedagógico que o caracteriza, e que diariamente disponibiliza pilhas de informação relevante sobre o que se passa com as tecnologias da informação e os novos modelos do livro, eu não teria a visão ampla que hoje tenho sobre o papel do digital no quadro mais vasto da História do Livro. Serei sempre grata a ambos, bem como aos muitos amigos que têm iCoisos de várias espécies e outros aparelhómetros que lêem livros e que mos emprestam (ou vão emprestar, mas ainda não sabem disso) para que eu possa ler os livros que alimentarão esta nova página.

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