Sobre Uma Mentira Mil Vezes Repetida

No passado dia 3, apresentei o livro Uma Mentira Mil Vezes Repetida, de Manuel Jorge Marmelo (Quetzal), na Fnac do Chiado. Aqui fica o texto que li nessa altura:

A melhor forma de convencer alguém a ler um livro não será dizer que se aprende muito com ele. Não porque aprender não seja entusiasmante, mas porque normalmente associamos a aprendizagem ao trabalho que ela acarreta, e imagino que também a associemos a alguns tormentos passados em salas de aula, há mais ou menos anos, entre raízes quadradas ou árvores de sintagmas…

A verdade é que se aprendem coisas com os livros, mesmo que não sejam as coisas mais edificantes. Por exemplo, uma das primeiras coisas que aprendi com Mark Twain foi a fazer uma fisga – e se é certo que nunca a usei para acertar em pássaros, também é certo que podia ter partido algumas cabeças mais desatentas, e isso não é o tipo de coisa edificante que a gente queira que alguém aprenda com um livro. E às vezes até se aprendem coisas horripilantes em livros que se gabam de ser moralistas e muito rígidos no que toca aos valores e comportamentos. E estou a lembrar-me da Condessa de Ségur e de um livro de contos que deviam ser exemplares e onde se esperava que os leitores aprendessem tudo sobre o bom comportamento que todos os meninos e meninas deviam exibir, mas onde o que eu aprendi foi a ter pesadelos com uma corça que alguém caçava e cuja pele transformava em candeeiro – ou tambor, já não me lembro muito bem.

Ora, neste livro de Manuel Jorge Marmelo aprendi algo que veio desarrumar algumas ideias que tinha arrumadas desde que comecei a estudar literatura: aprendi que escrever um livro continua a ser a melhor forma de o inventar. E isto, que parece elementar, não foi nada pacífico, porque depois de ler Borges, ou Vila-Matas ou meia dúzia de textos medievais sobre livros que se perderam na bruma dos tempos, uma pessoa não espera ver acontecer algo que já aconteceu em tantos livros emblemáticos de uma forma que parece nunca ter acontecido. Pode parecer confuso, mas é o que acontece em Uma Mentira Mil Vezes Repetida: temos um narrador que frequenta os autocarros do Porto e que vai espalhando pelos utentes que com ele conversam fragmentos sobre um livro chamado Cidade Conquistada que nunca existiu a não ser na sua cabeça. E sobre isto, o narrador esclarece logo todos os equívocos: “Não sabendo muito bem o que fazer para me transformar num homem célebre, ocorreu-me passar a circular nos transportes públicos carregando e fingindo ler um livro grossíssimo, de mil e duzentas páginas em papel pólen soft e encadernação cartonada, ostentando na capa uma fotografia de uma paisagem urbana dos anos 1930 e o título: Cidade Conquistada. É um livro que não existe em mais parte nenhuma. Inventei-o eu – completamente .” (pg.17)

Com o avançar das páginas, o que ficamos a saber sobre Cidade Conquistada cria um outro problema, que já tem pouco a ver com possíveis abalos na história da literatura e tudo a ver com a cobiça desenfreada que qualquer leitor devoto sente perante um livro prometedor: é que queremos ler aquele livro, escrito por um tal Oscar Schidinski, que até pode ser uma infinidade de outras pessoas, e não o livro que tem o nome de Manuel Jorge Marmelo na capa. E se isto não é de grande lisonja para o autor que está aqui sentado hoje, temos de admitir que é a glória eterna para o narrador que Marmelo inventou, e que decidiu inventar um livro para se tornar célebre, com a vantagem de não ter o trabalho de o escrever. Veja-se o que diz o narrador sobre isso: “Poderia escrever Cidade Conquistada e submeter-me aos mecanismos normais de reconhecimento literário, às entrevistas e às sessões de autógrafos sem clientes, ao sufrágio da crítica e à opinião dos leitores, os quais seriam livres de gostarem ou não do que eu escrevesse. Mas correria, nesse caso, um risco excessivo e pouco compensador. Sei perfeitamente como as coisas funcionam e não pretendo sofrer os horrores que os escritores sérios dizem sofrer, nem transformar-me no indivíduo atormentado, profundo e cavo que teria de ser para que o livro fosse levado a sério.” (pg 139)

Quando já estamos relativamente à vontade com esta ideia, pensando que temos nas mãos um volume que se dedica a criar labirintos meta-literários capazes de entreter os leitores que apreciam o género e de conquistar uma mão-cheia dos outros, percebemos que o narrador que Jorge Marmelo inventou e a quem deu poderes para inventar um livro está, na verdade, a dar-nos uma tareia monumental: é que enquanto nos distrai com referências a Jorge Luís Borges, ou a Hélia Correia, ou a Roberto Bolaño, atira-nos à cara uma sucessão infame de factos que confirmam o ser humano como uma espécie de equilibrista da ética, umas vezes capaz das maiores generosidades, e muitas vezes capaz de todas as ignomínias, intolerâncias e brutalidades. E quando percebemos que estamos a apanhar, já não temos muitas hipóteses de fuga: se queremos encontrar a saída deste labirinto literário disfarçado de divertimento intelectual temos de passar pelos feitos de gente que tortura, que impõe regras que desrespeitam o outro, ou que denuncia sem perceber a incongruência das suas acções (para além da bestialidade que está à vista de todos), como acontece com uma das personagens de Cidade Conquistada, um judeu que, na Alemanha onde já se adivinhavam os contornos do que seria infâmia nazi, não falha um comício dos nacional-socialistas, berrando contra os negros, os árabes, os efeminados, os comunistas e os próprios judeus. Já não é um labirinto literário, nem sequer um labirinto meta-literário, é o labirinto onde vivemos todos há milénios, umas vezes saindo-nos bem, mas saindo-nos pessimamente quando decidimos sair-nos mal.

Depois da tareia, e depois de concluído o percurso do narrador que anda pelos autocarros e do seu livro que nunca existiu (para saberem como, há que ler o livro), voltamos à inquietação literária. Não seria mais fácil escrever o raio do livro chamado Cidade Conquistada e dar-nos logo o pior e o melhor da espécie humana? Era preciso atrair-nos para um labirinto que só aparentemente é inofensivo para depois nos largar às feras? Afinal, Uma Mentira Mil Vezes Repetida não é, como nos diz a contracapa, a história de um homem que quer ser famoso no meio literário sem ter de escrever uma linha; Uma Mentira Mil Vezes Repetida, é uma emboscada, e uma emboscada que começa logo com a infâmia de trazer para o título uma frase de Joseph Goebbels, o propagandista de Hitler, para depois a desmontar com uma ligeireza tão falsa como os mecanismos mais visíveis desta história. No fim de contas, é uma emboscada grandiosa, e mesmo que Jorge Marmelo não possa gabar-se de prescindir de escrever os livros que quer que os outros leiam, o seu narrador arrisca-se a ser muito bem sucedido nos seus planos de se tornar famoso sem fazer outra coisa que não seja andar de autocarro pelas ruas do Porto.

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