Correntes d’Escritas 2012: Primeira Mesa


A partir da frase-tema “a escrita é um risco total”, Eduardo Lourenço (autor da frase) recua à invenção da escrita para colocar nesse momento a fundação de uma espécie de segunda humanidade, que permite o diálogo entre gerações, mesmo comportando o risco de algumas perdas pelo caminho.
E do Egipto à Mesopotâmia, passando pela imagem do escritor como ‘o roubador do fogo’, ou pela escrita como a ferramenta que consegue dar forma à irrealidade, conclui que a pretensão da escrita é “tecer o sentido da experiência humana, da totalização da experiência humana”.
Almeida Faria recorda o momento, há uns anos, em que encontrou, por acaso, Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro passeando em Nova Iorque,  confirmando que há situações em que a realidade supera todas as probabilidades da ficção. E prossegue esmiuçando o seu processo de escrita, que começa com um estado que é uma espécie de embriaguez, quando surgem as personagens e a sua vontade de existir, mas rapidamente evolui para o conflito inevitável entre a vida da escrita e a vida quotidiana (chegando a primeira a tornar-se muito mais presente e real do que a segunda). “Acreditar que as personagens que se criam serão mais duradouras do que a nossa breve passagem pelo mundo é o que faz tudo valer a pena”, diz o autor. E na sala, cheia como sempre, não há quem duvide.
Ana Paula Tavares explica que decidiu escrever para contrariar uma certa ideia de ‘vida normal’, ainda que não deixe de pensar, muitas vezes, como seria a sua vida desse outro modo. Quanto ao risco da frase-tema, ele só surgiu de modo concreto quando se apercebeu do eco que os seus primeiros poemas publicados geraram na Angola de então, pouco preparada para ler uma mulher que ninguém conhecia e que falava de amor, das paixões e do corpo com desassombro inaudito.
Hélia Correia agarra o tema recuando às raízes, ao étimo, que no caso da palavra risco são quatro, não havendo certezas sobre qual será o étimo real. Do árabe ‘risc’, associado ao pagamento dos soldados em função do seu desempenho, ao grego ‘risikon’ que remetia para os acasos da sorte, passando pelos étimos latinos ‘rixicare’, sugerindo o risco do combate, e ‘ressecare’ significando rasgar (por exemplo, quando os navios se ‘rasgavam’ nos rochedos), a falta de consenso linguístico parece confirmar a riqueza da semântica, sobretudo quando a associamos à escrita. E entre as muitas possibilidades do risco associado à escrita, Hélia Correia refere também a mais literal de todas e lembra Zeca Afonso, que morreu há 25 anos, neste mesmo dia. Já fora de uma interpretação tão literal, a autora questiona-se sobre o conforto que a literatura parece encarnar, perguntando sobre os modos de quebrar esse conforto.
Rubem Fonseca assume a sua filiação na ‘escola peripatética’ e decide levantar-se, de microfone em punho, para falar enquanto se move de um lado para o outro. E começa a intervenção com a assunção de que a escrita é uma forma aceite de loucura, afirmando que todos, na mesa, são totalmente loucos, “ainda que cada um à sua maneira”. Mas não basta ser louco, diz Rubem Fonseca, “é preciso ser alfabetizado”. Já a inteligência nem sempre é requisito, a acreditar nas palavras de Somerset Maugham, que afirmava conhecer dezenas de escritores e muito poucos escritores inteligentes. À loucura e à alfabetização, Rubem Fonseca junta a motivação, “sem a qual não conseguimos sequer descascar uma banana”. E depois, a paciência: é preciso não parar, mas é preciso ter paciência para, como Flaubert, encontrar a palavra certa, le mot juste, porque “não existem sinónimos; isso é conversa de gramáticos para boi dormir”. Está tudo? Não. Falta a imaginação. É fundamental que o escritor invente. Quem esperava uma comunicação solene, acabou de receber uma masterclass, como agora se diz. E para um escritor com fama de tímido e tão difícil de entrevistar, Rubem Fonseca deambula pelo palco com o à vontade de um actor, a graça de um mestre supremo e a elegância de um sambista. Se este não foi um dos momentos mais memoráveis das Correntes d’Escritas, não sei o que terá sido.

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