Nuno Costa Santos Trabalhos e Paixões de Fernando Assis Pacheco Tinta da China
Não temos, cá no ínfimo burgo, muitas figuras como Fernando Assis Pacheco, consensual pela qualidade de tudo o que fazia (e não porque se esforçasse por agradar), manancial de histórias e episódios que hão-de ser recordados mesmo por quem nunca o conheceu e repertório infindável de conhecimentos eruditos e populares, dando igual importância ao Lazarilho de Tormes ou à chanfana de cabra velha. A figura e a obra merecem biografia detalhada, com índice onomástico, episódios desconhecidos, notícia de inéditos e tudo. E antes que se artilhe o mosquetão do ‘mas’, importa dizer que Nuno Costa Santos, admirador confesso de Assis Pacheco, não só não se atira a essa empreitada como, cauteloso, deixa bem claro na introdução destes Trabalhos e Paixões… que o que aqui se vai ler é uma crónica biográfica e a designação não é só cautela; é, igualmente, uma boa descrição do que passa por estas páginas.
Cruzando os depoimentos de familiares e amigos, a documentação a que acedeu em casa do escritor e uma prosa devota, mas escorreita, Nuno Costa Santos desfia os afectos do biografado com dedicação, não deixando de esclarecer momentos-chave da sua vida, de destacar a bibliografia produzida por Assis Pacheco (das plaquettes que oferecia furtivamente aos livros que o consagraram) ou de elencar as etapas de um percurso profissional onde jornalismo e literatura nunca respiraram em separado. Podemos ficar à espera da biografia monumental, mas não estamos nada mal servidos com esta crónica biográfica.
Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Fev. 2012)
