Sobre Eduardo Lourenço, na revista das CE

O número deste ano da revista das Correntes d’Escritas foi dedicado a Eduardo Lourenço. Aqui fica o meu contributo, lá pela página 73:

Acabada de chegar à Faculdade, sabia bem quem era Eduardo Lourenço mas vergonhosamente pertencia ao grupo dos infelizes que nunca lhe tinham lido um livro do princípio ao fim. Decidida a corrigir o erro, saiu-me da estante da biblioteca O Labirinto da Saudade, aconselhado já não sei por que professor, e o título deixou-me de pé atrás (deve ser aqui que confirmo a ideia de que a juventude, às vezes, é mesmo sinónimo de pouca sabedoria). Animada com o ambiente de luta estudantil que se vivia no número 26 da Avenida de Berna, ali tão perto do Ministério da Educação, não estava muito virada para a ideia de alimentar fados e saudades que me remetiam num instantinho para o tempo da outra senhora. Eu queria era mudar o mundo, ajudar a construir alguma coisa que não trouxesse amarrado o lastro de reis perdidos no nevoeiro, ditadores cujas cadeiras tardavam a escaqueirar-se e sentimentos de ai, jesus, que fatalidade. Tirando as boas intenções de semelhantes desejos e vontades, que não renego e que, em boa medida, ainda experimento, tamanho preconceito em relação ao que me rodeava, não só no presente mas igualmente na cronologia que também nos define historicamente, estava mesmo a pedir um abanão. E o abanão veio sob a forma de livro, como vêm, tantas vezes, os abanões que contam. O Labirinto da Saudade foi o primeiro Eduardo Lourenço que li e ainda que outros livros do autor tenham sido importantes no meu percurso, não só de estudante, mas sobretudo de leitora, este primeiro continua a ser uma fonte inesgotável de regressos e questionamentos. Pensar o que somos e como nos relacionamos, entre nós e com o mundo, enquanto comunidade é um exercício cujo imperativo se encontra tão actual hoje como há cerca de três décadas, altura da primeira edição de O Labirinto da Saudade. E colocar esse exercício em marcha com recurso à literatura pareceu-me, na altura, e parece-me ainda hoje um modo particularmente lógico de melhor pensar.

Depois de ler O Labirinto da Saudade, concretizei uma daquelas descobertas que são uma espécie de verdade de La Palisse, porque qualquer pessoa letrada as tem como adquiridas, mas eu tinha a mesma idade do livro e tudo era novidade. A descoberta foi esta: ao contrário do que as longas bibliografias cheias de autores estrangeiros ou de portugueses já mortos davam a entender, aqui no rectângulo tínhamos um pensador de calibre universal, e activo como poucos. E se isto pode parecer aquela satisfação patrioteira que nos deixa tão enlevados quando temos alguma coisa que se pode reconhecer em todo o mundo (é ler o livro, que está lá tudo e ainda mais), a verdade é que foi muito mais uma felicidade pela proximidade, uma espécie de soberba por termos, em primeira mão, acesso ao que Eduardo Lourenço vai escrevendo, por podermos vê-lo e ouvi-lo com frequência regular (e estou a lembrar-me de uma Gulbenkian a rebentar pelas costuras, há já uns anitos, e de uns degraus que eram mesmo desconfortáveis mas que valeram muito a pena) e, talvez, por percebermos, com a limpidez que vem da identificação primária (é outra vez a comunidade, e é ler o livro outra vez, que está lá tudo) aquilo que, sendo pensamento universal, nos diz respeito em primeira mão.

Depois deste primeiro abanão, outros vieram, como vieram as muitas aprendizagens cuja importância nenhum elogio de passagem pode explicar. Os estudos sobre Fernando Pessoa, as muitas incursões na literatura portuguesa, a reflexão sobre a Europa e tudo o que neste texto já não cabe. Ainda assim, O Labirinto da Saudade continua a ser livro de cabeceira, não como adorno perpétuo, antes como ponto estrutural que importa revisitar regularmente.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Correntes d’Escritas, nº11, Fevereiro 2012)

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