Ficou por publicar: Cinzas de Abril, de Manuel Moya (Sextante)

Saiu na Time Out, no início de Março, e só agora percebi que não tinha publicado aqui o resultado da leitura de Cinzas de Abril e da conversa que tive com Manuel Moya, seu autor, durante as Correntes d’Escritas. Aqui fica:

LISBOA POR ENTRE OS CRAVOS

Espanhol por nascimento, lisboeta por devoção, Manuel Moya escreveu um romance sobre o 25 de Abril e conversou com Sara Figueiredo Costa sobre a cidade dos seus afectos.

 

As regras da boa leitura exigem que não se confunda autor e narrador, sob pena de nos perdermos na armadilha da realidade, tão útil à ficção como o aumento do Iva ao nosso bem-estar. Mas Cinzas de Abril, romance do espanhol Manuel Moya que cruza as histórias de várias personagens entre os anos da ditadura e o pós-25 de Abril, com passagem pela revolução dos cravos propriamente dita e pelo exílio prévio de tantos portugueses em Paris, lança a dúvida: onde estava o escritor no 25 de Abril? E o passar das páginas desenha uma certeza que, afinal, é falsa. Apesar das descrições tão vívidas, Manuel Moya tinha apenas 14 anos no 25 de Abril, estava do lado de lá da fronteira, numa aldeia de Huelva, e só visitaria Lisboa alguns anos depois: “Não vivi nada do que ocorreu nesses tempos, mas sempre vivi muito perto da fronteira portuguesa e tudo o que se passa aqui tem reflexos do outro lado, ontem como hoje.” Longe do epicentro de tudo, foi pelo ecrã que os cravos chegaram a Huelva. “Lembro-me muito bem de ver na televisão o que estava a acontecer em Lisboa, mesmo que nessa altura não tivesse noção de que eu próprio também vivia numa ditadura. A realidade portuguesa sempre me interessou muito, até em contraste com a realidade espanhola, porque sempre admirei o facto de o povo português ter tido a dignidade e a coragem de expulsar a ditadura daquele modo, com elegância, sem tiros, sem mortos, sem tragédias de maior, mas com firmeza. Em Espanha não o fizemos e isso levou-me a pensar muito e a criar este romance.”

Cinzas de Abril cruza as histórias de Sophia, uma filha da burguesia que passou a infância em Angola e foi estudar para Paris, Fernando, amigo de infância de Sophia que milita na extrema-esquerda e acaba perdido em África, Ilídio, um inspector da PIDE que vai parar a Luanda sem saber como e se transforma num dos maiores sanguinários da ditadura, e o narrador, exilado em Paris para fugir à Guerra Colonial, apaixonado por Sophia e feliz como uma criança no dia em que a capital francesa recebe as notícias da revolução. Cada uma destas personagens vive o seu próprio conflito, mas é Ilídio quem alimenta o nervo do romance, obrigando-nos enfrentar o que pode haver de humano num torturador. Segundo Moya, “uma ditadura precisa sempre de quem faça o trabalho sujo e, às vezes, até essas pessoas acabam por ser vítimas. Claro que não falamos da mesma coisa quando falamos do torturador ou do torturado, e isso tem de ficar claro, mas ainda assim o torturador pode ser uma vítima do sistema e foi por isso que criei a personagem de Ilídio, que queria ser poeta e, por circunstâncias que ele não tenta contrariar, mas que igualmente não escolhe, encontra-se numa posição em que tem de actuar como um monstro.” Sem maniqueísmos fáceis, Manuel Moya constrói um romance que é tanto sobre a conquista da democracia portuguesa como sobre as contradições humanas que fazem avançar a História.

Além das personagens e das suas demandas pessoais, há um elemento que atravessa o romance e que, mais do que cenário, parece respirar como personagem. A cidade de Lisboa é o pano de fundo de várias cenas do livro, mas é igualmente o espaço fabuloso sem o qual nenhuma personagem existiria. “Tenho duas cidades onde me sinto em casa. Uma é Sevilha, onde estudei, e a outra é Lisboa, aonde cheguei pela primeira vez em 1982. E nesse ano, era como se já conhecesse todas as ruas da cidade, porque já as tinha visto e revisto num mapa, com o qual passava horas imaginando passeios.” A devoção é sentida e percebe-se a cada página, mas o autor não cedeu ao postal ilustrado, revelando becos da Mouraria ou recantos do Cais do Sodré enquanto foge aos cenários mais óbvios: “Não quis fazer descrições turísticas da cidade e, mesmo sobre o 25 de Abril, evitei a descrição do Carmo, porque quis manter esse lugar e esse momento numa espécie de espaço sagrado que não me pertence.” Não lhe pertencia, porque depois de Cinzas de Abril, alguém deveria entregar a Manuel Moya o título de lisboeta honorário.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Março 2012)

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