A Ilusão do Real

Não adianta fugir ao pré-conceito: é impossível ler o primeiro romance de Alexandra Lucas Coelho fingindo que não se leram os livros anteriores, onde a reportagem e o diário de viagem se foram cruzando. Haverá leitores que podem mergulhar em E a Noite Roda sem esse lastro prévio, só que essa será uma outra leitura, talvez igualmente proveitosa, mas impossível de dissecar aqui.

O embate entre reportagem e romance torna-se explícito desde os primeiros capítulos, mas onde poderia insinuar-se uma interrogação sobre o que realmente estamos a ler, como se a natureza de um registo e os contornos de um género tornassem a leitura mais arrumada, há uma narrativa a inquietar a recepção. Aí se cruzam as viagens de trabalho de Ana Blau (a narradora), uma jornalista catalã que acompanha a actualidade sempre agitada do Médio Oriente, e a sua relação com Léon Lannone, jornalista belga que conhece em Jerusalém, nas vésperas do funeral de Yasser Arafat. A história é contada em flash-back, com o olhar do presente a filtrar as visões possíveis sobre o que aconteceu e a ampliar as dores, dúvidas e hipóteses que se desfizeram em fumo com a patina própria de qualquer memória, mesmo que recente.

E a Noite Roda não é a história da paixão de Ana por Léon no cenário de um trabalho jornalístico intenso, nem o seu reverso, mas antes a história de uma contaminação, tão bela quanto trágica, tão exemplar no ritmo e no estilo quanto sufocante no enredo. As contaminações, por definição, não são processos controláveis, pelo que o romance não se fecha na reciprocidade entre as duas linhas narrativas principais, espalhando-se por outros contágios, espaciais e temporais, de tal modo que a paixão de Ana e Léon, o funeral de Arafat, o conflito israelo-palestiniano, as viagens de avião, os encontros do acaso e tudo o que possa registar-se em tom de narrativa se arrumam, no plano geral da leitura, numa espécie de eco, polifónico e intenso, do caos que pretendem representar. Mais do que desarrumar discursos identificados com géneros narrativos bem definidos, o primeiro romance de Alexandra Lucas Coelho ensaia uma apropriação daquilo a que, por uma questão de conforto, chamamos realidade. Que o faça através de um discurso romanesco, de apontamentos de reportagem e de uma longa epistolografia dos tempos modernos, com e-mails e sms substituindo o papel de carta, só confirma a vocação experimental desta prosa, mais interessada em encontrar formas possíveis para expor os ossos do mundo do que em vender miragens desse mundo com a embalagem adequada.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Ler, #112, Abr. 2012)

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