Um raio de sol na Barcelona franquista

Juan Marsé faz parte daquela categoria de escritores cujo trabalho se liga a uma cidade qual cordão umbilical. No seu caso, a cidade onde tudo nasce e se transforma em literatura é Barcelona, com destaque para o tempo da ditadura de Franco e para os quarteirões mais próximos do Bairro de Grácia, entre o parque Guell, a avenida Diagonal e os muitos caminhos que levam às Ramblas. Caligrafia dos Sonhos (edição D. Quixote) retoma o pulso da capital catalã nos anos da ditadura, já depois da guerra civil, num bairro onde a pobreza se remediava com negócios clandestinos e a clandestinidade se disfarçava com a ajuda dos cúmplices possíveis. “Qualquer cenário tem as suas histórias, mas Barcelona não é uma escolha minha. Pelo contrário, foi a cidade que me escolheu a mim, não só pelo facto de ter nascido e crescido ali, mas igualmente porque muitas das histórias que utilizo me apanharam na idade em que se forma a personalidade de um escritor. Diz-se que a pátria de um escritor é a sua infância e, ainda que seja uma daquelas frases batidas, algo tem de verdade.”

A tentação de ver em Ringo, narrador e personagem principal deste romance, possíveis ecos de um Juan Marsé adolescente nas ruas empobrecidas da Barcelona pós-guerra não é, por isso, descabida. Tal como Ringo, o autor foi criado por pais adoptivos, no mesmo bairro, na mesma época, num cenário tão semelhante ao de Caligrafia dos Sonhos que a curiosidade de tablóide numa revista tão respeitável acaba por perdoar-se (assim se espera…). O próprio escritor confirma as ligações entre biografia e literatura quando a segunda se assume como arte maior e a primeira como matéria prima: “Pode dizer-se que este é o meu romance mais autobiográfico. Mas isto não é de fiar, porque algumas histórias, sobretudo a da minha adopção, foram-me contadas pela minha avó, e a minha avó fantasiava muito mais do que eu. A história da adopção é uma história de que gosto muito, e gosto tanto que a prefiro à real, por isso a inclui no romance.”

Sentado à mesa de um café do bairro, Ringo assiste à história de amor equivocada entre Vicky Mir e o senhor Alonso. Perdido nos sonhos de chegar a ser pianista (apesar do dedo perdido num acidente de trabalho) e indeciso quanto à possibilidade de cortejar Violeta, filha de Vicky, Ringo vê a cidade passar sem que a cidade dê muito por ele. Até à noite de bebedeira em que encontra o desaparecido senhor Alonso e se torna o mensageiro involuntário de uma carta que haveria de deslindar os mistérios do romance que anda a desassossegar o bairro. Combinar excesso de álcool e responsabilidade não costuma ser boa ideia e é assim que Ringo escolhe o campo da ficção para consertar os males do mundo. “Esse rapaz em desacordo com o que o rodeia, com a realidade do bairro, da família, do trabalho, da vocação, com os seus sonhos sentimentais. Aquela rapariga de quem gosta, mas de quem não gosta, que é feia, mas tem bonitas pernas… No fundo, Ringo procura a maneira certa de se reconciliar com a realidade e a ficção é a forma que encontra de o fazer.” De certo modo, é o que faz Juan Marsé em cada romance, uma reconciliação baseada numa escrita sem floreados, mas onde nenhum detalhe é esquecido – as ruas, as conversas, as pequenas tragédias do quotidiano que a História só registou como apontamento sociológico, mas cuja existência definiu, tal como ainda define, a respiração dos dias. Será por isso que Marsé prefere os bairros de Barcelona aos salões da corte, o dia a dia dos cafés e das casas ao registo sobejamente conhecido das batalhas e conquistas. “A grande história que me interessa é precisamente essa. A outra, deixo para os estudiosos e os académicos. Não é que não me interesse, mas desde o ponto de vista da criação artística não me proporciona a possibilidade de encontrar beleza e eu também procuro alguma forma de beleza ao escrever. Por isso não me interessam os romances históricos, com os episódios sobre reis e rainhas… ainda por cima agora, que descobri que o que agrada aos reis é matar elefantes.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Maio 2012)

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