O Nobel vs. a latrina

Hoje é dia de Nobel. Já se sabe que é coisa solene, que só à segunda tentativa se percebem as palavras do senhor sueco que o anuncia, sobretudo se o nome do autor ou da autora tiverem demasiadas consonantes, e que pode ganhar alguém de quem só remotamente ouvimos falar. E sabe-se, sobretudo, que depois do Nobel o mundo continua mais ou menos igual, com excepção das montras das livrarias. Apesar disso, o dia do Nobel é uma espécie de pequeno Natal para quem gosta de livros e de literatura e muito antes de o senhor sueco sair pela porta branca e anunciar o tão esperado nome já o link para a transmissão em directo está aberto há muito, numa espera ansiosa para que a porta branca dê lugar à revelação. Este ano parece diferente. O link já ali está, à mão, mas o ar é outro, menos salubre, e não é pela chuva ou pelas obras no prédio ao lado. Estou à espera do Nobel e só consigo pensar nos 48 trabalhadores que o Público vai despachar, muitos deles jornalistas cujo trabalho respeito e admiro, alguns deles jornalistas que conheço e por quem tenho afecto, o que traz outras angústias (é sempre assim, ainda que um trabalhador despedido seja um trabalhador despedido, conheça-o a gente ou não). E de repente o Nobel é um pormenorzinho de nada, porque não é só o Público que se vai arruinar: na Lusa estão a querer cortar 30% da equipa, no El País parece que o corte chega a metade e não é difícil a gente lembrar-se do que aconteceu na Grécia há não muito tempo, quando os jornais e a informação começaram a desaparecer. Saber que gente que conheço, admiro e de quem gosto vai ficar sem trabalho angustia-me, mas não é melhor saber que o mundo como o conhecemos está a desabar e tudo indica que os escombros vão durar demasiado tempo, como aquelas obras embargadas que deixam alicerces, esqueletos de metal e muito entulho espalhado pelo chão sem que se saiba quando é que dali renasce um novo edifício. E não, não me descansa o entusiasmo dos movimentos sociais que oferecem informação onde mais ninguém a oferece, porque por mais meios de comunicação alternativos que possamos construir sem grandes meios (e podemos, sei bem e por experiência própria, criar emissões em directo com poucos tostões, rádios na internet, jornais bem escritos e bem paginados, etc), isso nunca cumprirá o mesmo papel que o jornalismo que investiga, vai às fontes, cruza as informações, acede às pessoas e às instituições. Dir-me-ão que esse jornalismo já é raro, e que por vezes é muito viciado, e eu não discordo, mas creio que é por ele que nos devemos bater ou não teremos democracia durante muito mais tempo.

Daqui a nada vem o Nobel, não sei se já sabiam.

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