Rota das Letras: primeira mesa de debate

A abertura oficial da Rota das Letras fez-se com a presença das autoridades locais e os representantes das várias instituições associadas ao festival literário de Macau, numa cerimónia que começou com a solenidade do cortar de fitas e prosseguiu com a Dança do Dragão no largo do Centro da Ciência de Macau.

Já no auditório, e depois dos discursos da praxe, o festival começou com uma mesa de debate dedicada ao tema da globalização, com a participação de Mauro Munhoz (director da Festa Literária Internacinal de Paraty) e dos escritores Bi Feiyu, Yi Sha, Luís Cardoso, José Eduardo Agualusa, Lei Chi Pan e Dulce Maria Cardoso, moderados por Agnes Lan. Ao painel juntou-se, a partir da plateia, Alexandra Lucas Coelho.

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A discussão sobre a influência e as perspectivas dos escritores num mundo globalizado, título da mesa, revelou olhares muito díspares sobre o assunto, com alguma cautela revelada por parte dos escritores chineses, sobretudo Be Feiyu e Yi Sha, da China Continental, relativamente a uma possível perda de identidade cultural num espaço onde todas as influências se cruzam sem qualquer barreira, e os autores de língua portuguesa, entusiasmados com as hipóteses que o contacto entre influências de todas as partes do mundo abre a quem faz da literatura o seu trabalho. Se no início do debate essa cautela manifestada pelos autores chineses parecia dever-se sobretudo a questões de ordem política, relacionadas com o regime chinês e as suas reservas relativamente à recepção de determinadas influências do exterior, com o decorrer da conversa ficou claro que a apreensão se devia mais a uma ligação forte com a cultura chinesa, rica e muito antiga, e com um certo medo de perder as raízes num mundo onde as raízes parecem já não estar em parte alguma. José Eduardo Agualusa, que na sua intervenção inicial destacou isso mesmo, dizendo que “a literatura universal é o primeiro território do escritor”, seguido da língua e da sua infância (matéria inesgotável e sempre presente, mesmo que não explicitamente, em qualquer obra), acabou por sintetizar a questão da globalização dizendo que não perdemos nada quando aprendemos mais sobre a cultura do outro, o que acontece é que acrescentamos algo à nossa própria cultura. E se alguém esperava um exemplo literário para ilustrar a afirmação, o autor angolano preferiu referir um vídeo de enorme popularidade que circula pelo Youtube onde pode ver-se um chinês, emigrante em Angola, dançando kuduro com um requebrar que, diz o autor, faz inveja a qualquer angolano apreciador da dança: “aquele homem não perdeu absolutamente nada do seu património cultural, mas em compensação ganhou uma coisa nova para juntar a esse património”. Ficou a dúvida sobre se os autores chineses partilhariam deste entusiasmo, na medida em que a tradução simultânea se revelou pouco eficaz. Essa foi, aliás, a grande falha do debate, já que nem sempre foi fácil acompanhar o que diziam os autores chineses, o que deixou no ar a suspeita de que o mesmo poderia estar a acontecer no sentido inverso. Por outro lado, essa dificuldade acabou por funcionar como um relembrar constante de que todas as ilusões sobre a tão falada globalização encontram sempre uma barreira mais difícil de transpor do que qualquer outra questão identitária, e essa barreira é, precisamente, a língua, porque não há linguagem gestual nem expressividade humana que quebrem algumas das fronteiras mais essenciais quando se trata de chegar ao outro – para o confirmar, deste lado do mundo, basta andar na rua e tentar comprar comida, pedir uma indicação sobre uma rua ou entrar num táxi para o perceber, e não se trata de antipatia ou qualquer outra má vontade que o preconceito possa querer inventar, e sim dessa barreira inultrapassável composta por sistemas linguísticos absolutamente distintos.

Um festival como a Rota das Letras, que tem como um dos seus princípios programáticos a criação de espaços de diálogo entre escritores de diferentes expressões e culturas, não poderia ter escolhido melhor painel para abrir os debates. As fortes marcas identitárias de cada um dos autores revelaram, ao mesmo tempo, a forte ligação à cultura de origem, nuns casos, e a vontade de definir uma identidade com os fragmentos de todas as culturas por onde se pode ir passando ao longo de uma vida, noutros, e essas posturas, mais do que antagónicas, acabaram por cruzar-se no espaço privilegiado para o encontro que é a literatura. Aí, para lá de todas as diferenças no modo de olhar o mundo e de com ele estabelecer relações, há sempre um ponto de encontro privilegiado e possível, mesmo que para isso seja imprescindível recorrer ao trabalho desses outros agentes cujo nome raramente surge nas capas dos livros mas sem os quais não teríamos como aceder a grande parte da criação literária universal: os tradutores.

(com a revista Blimunda, da Fundação José Saramago, em Macau)

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2 comments

  1. Um encontro sobre literatura na China e a palavra “censura” não aparece uma única vez… Quem patrocina a patuscada? Uma marca de lixívia?

  2. Caro André, pela minha parte, tenha calma; estou a tentar ter alguma reacção dos escritores da China continental aqui presentes, coisa que não será fácil, como saberá, o que não quer dizer que não valha a pena tentar (dando depois conta do resultado, mesmo que o resultado seja uma recusa de falar no tema).
    Quanto ao festival, e tendo chegado a Macau pela primeira vez há poucos dias, não sei se a minha opinião é a mais fundamentada, mas parece-me que parte das pessoas que vivem em Macau não se sentem a viver exactamente na China ( isto é algo que me parece visível no dia a dia, mas como lhe disse,,preciso de mais tempo, mais conversas e mais opiniões para dizer algo mais informado sobreposto), havendo, parece-me, uma margem bastante grande para se dizerem e fazerm aqui coisas que seriam possíveis do lado de lá da fronteira com a China propriamente dita (e ainda há uma fronteira, e bem guardada).
    Quanto aosmatrocínios do festival, sugiro que consulte o site. Está lá tudo.

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