Rota das Letras: barreiras e pontes

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A manhã de ontem foi passada na Universidade de Macau, do lado da Taipa, depois da travessia de uma ponte ondulante que cruza as lagoas, parecendo flutuar entre a água e a neblina.
Hong Ying, Luís Cardoso, Vanessa Bárbara e Pan Wei falaram sobre a sua escrita e o seu precurso biográfico perante um auditório cheio de alunos do Departamento de Inglês. As intervenções passaram pelas leituras feitas ao longo da vida, pelo processo de escrita e sobretudo pelas memórias, confirmando que a infância é um território inesgotável ao qual a literatura tanto deve. A minha atenção, no entanto, estava focada nos autores chineses. Por um lado, interessava-me perceber como se relacionam estes autores com um espaço social e cultural onde a censura é pedra de toque. E quanto a isso, Hang Ying deixou claro que é preciso ter algum cuidado com o que se escreve, não querendo desenvolver mais o assunto, enquanto Pan Wei ajudou a quebrar algumas das minhas ideias feitas quando referiu váriosmautores estrangeiros que o influenciaram (Byron, antes de todos) e quando disse que ler livros de todas as partes do mundo é essencial para exercermos antentativa, táo vã quanto imprescindível, de tentarmos compreender esse mundo. A surpresa deve-se ao facto de essa ideia ter sido, de certa forma, contrariada no primeiro painel da Rota das Letras, aquele que discutiu a globalização mas em que os autores chineses presentes não se mostraram muito interessados no contacto com o mundo fora do seu país. Digamos que três dias em Macau, num festival onde convivem escritores de vários pontos do mundo, começam a permitir o estabilizar de algumas ideias e uma delas é a constatação do abismo que existe entre autores chineses e autores de qualquer outra parte. Mas temo que esta ideia deva muito ao desconhecimento, na medida em que a literatura chinesa contemporânea é um território vastíssimo no qual sou praticamente ignorante, e igualmente na medida em que o pouco ou nenhum convívio com o Oriente sem ser através dos livros, do cinema e de outras expressões artísticas, ou mesmo através da internet que tudo parece aproximar, não me permite decifrar determinados códigos comportamentais. Digamos que, por mais de uma vez, desconfiei que aquilo que me parecia frieza e distância começa a parecer, no caso de alguns escritores, formalidade. E depois há a questão da língua, barreira inultrapassável apesar de todos os intérpretes. Nunca, em nenhum outro contexto, foi tão claro que não há forma possível de estabelecer uma comunicação plena, no perfeito domínio de todas as nuances, todas as metáforas e todos os trocadilhos, a não ser conhecendo a língua alheia.Tenho a certeza de que os meus dias de Macau não chegarão para decifrar a situação, mas esse é o gesto inalcançável de qualquer viagem a lugares que se desconhecem. Certo é que por mais que os livros nos mostrem o mundo, não chegam para o confronto necessário e desejável para se conhecer, realmente, o outro lado das coisas.

(com a revista Blimunda, da Fundação José Saramago, em Macau)

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