Em Macau, tropeçando no mundo

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Chegar a Macau sem nunca ter posto os pés no Oriente, com a missão de acompanhar o festival literário Rota das Letras e com a vontade de conhecer a cidade onde dizem que tudo se encontra, sobreviver a um voo de doze horas (e ao medo de voar), não saber quase nada sobre o que esperar da cidade. Viajamos sempre com os nossos preconceitos, a bagagem que temos dos livros, dos filmes ou da fotografia, e que pode ser apenas um lastro de ideias generalizadas. Sabemos que somos todos mais iguais do que distintos e que essa monotonia só se quebra pelo espanto com o que é diferente, mesmo quando não é tão diferente quanto parece, ou pelo encontro. Se o que desejamos é alcançar esse encontro, o espanto não deixa de ser necessário. 

A chegada fez-se com as imagens do cinema chinês, a poesia de Li Shang-Yi, algumas referências muito dispersas: a caligrafia, a imprensa, a censura, o regime fechado, as linhas de comboio a perder de vista, a ideia de que Macau é a China, mas não é bem a China. E fez-se ainda com as inevitáveis generalizações: os chineses são fechados, individualistas, antipáticos, as ruas cheiram mal, a comida é estranha, ninguém fala português e o que restava do império que parece deixar saudades a tanta gente quase se perdeu. Não será difícil imaginar o inverso, alguém viajando da China para Portugal com a ideia de que os portugueses são todos hospitaleiros e simpáticos, coisa tão fácil de confirmar como de contrariar. Não é diferente deste lado do mundo. A língua é barreira intransponível, sim, mas gesticular e ter à mão um mapa com as ruas em cantonês resolve quase tudo. De resto, o mundo não é um lugar assim tão estranho e Macau não é excepção, mesmo com todos os casinos, néons e carros enlouquecidos convivendo com templos silenciosos, igrejas portuguesas, mercearias com peixe seco e insectos em boiões de vidro.

A mulher que me sorri quando atravesso um pequeno pátio perto do templo de Na Tcha não sabe nada de mim e há-de ver-me com a sua própria bagagem de preconceitos e ideias feitas. Cruzamo-nos, apenas, ela sorri, eu correspondo e a noite que desce sobre Macau torna-se um momento familiar que podia ter acontecido em qualquer parte do mundo sem que o castigo de Babel pudesse fazer algo para impedir o encontro. No dia seguinte haveria de passar dez minutos a tentar explicar a um taxista para que rua queria ir e só um mapa em cantonês me salvaria. Isso e a boa vontade do motorista, que passou dez minutos com o taxímetro desligado a tentar descobrir a rua onde estou a morar. As generalizações servem para muito pouco.

Quanto aos vestígios da presença portuguesa, o tema parece ser sensível, como se constata em vários debates do festival. Pela minha parte, não vim a Macau à espera de nada a não ser acompanhar o Rota das Letras e abraçar um amigo que generosamente me acolheu em sua casa e acredito que essa é a melhor maneira de chegar a um sítio. A herança portuguesa diz-me tanto como outra herança qualquer e não cheguei a este lado do mundo com desejos de reconhecer calçadas ou pastéis de nata de outros tempos, pelo menos não como quem pasma com a glória do passado. O património está cá, sim, e vale a pena vê-lo, tanto como vale a pena não perder os templos, as ruelas onde se vende comida em bancas e onde toda a gente come de pé, os casinos que assustam de tão grandes e que são uma espécie de twilight zone barulhenta e frenética onde os funcionários públicos não podem entrar mas onde todas as outras pessoas podem torrar as suas economias ou brincar com as suas fortunas como se o mundo não continuasse a rodar. O que verdadeiramente me entusiasma no que à presença portuguesa diz respeito são as pessoas que conheço por estes dias, capazes de me fazerem sentir em casa a tantos quilómetros de caminho, e é o Rota das Letras, festival que mexe com uma cidade onde, dizem-me, não acontecem assim tantas coisas no âmbito cultural. As salas por onde têm passado escritores, cineastas e artistas plásticos de língua portuguesa, francesa ou chinesa têm estado sempre cheias, o debate é constante e muito participado pelo público e a possibilidade de quebrar barreiras e esgrimir pontos de vista é constante. Não há herança mais importante e é no presente que a construímos.

Macau parece ser o resultado desta mistura, muito mais do que uma ex-colónia, um posto de saudades perdidas, uma plataforma entre a China onde tudo se proíbe e o caminho para um Ocidente que quase nada sabe da China. Macau são as ruas atulhadas de gente em movimento e os jardins silenciosos, as pessoas que cospem para o chão e que sabem sorrir como em qualquer parte do mundo, a confusão do Porto Interior e a o incenso dos templos, tudo misturado com casinos que funcionam ininterruptamente, homens que remam pela manhã nos lagos de Nam Van, gente que come sopa e patas de galinha a qualquer hora do dia, gente que fala cantonês, gente que fala português. Tudo novo para quem chega, tudo igual ao que o mundo sempre foi.

Sara Figueiredo Costa

(texto publicado no jornal Ponto Final, de Macau, a convite do seu director, Paulo Rêgo, a quem agradeço)

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