Irmão Lobo

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Carla Maia de Almeida (com ilustrações de António Jorge Gonçalves)
Irmão Lobo
Planeta Tangerina

Carla Maia de Almeida tem escrito livros ‘para crianças’, quase sempre álbuns co-assinados por um ilustrador, onde o texto e a imagem se interligam de um modo dependente, correlacionando sentidos entre o verbal e o pictórico. Em Irmão Lobo as ilustrações de António Jorge Gonçalves assumem um lugar de outra ordem, remetendo para o valor etimológico do termo ilustrar, iluminando pormenores, ângulos, ideias, mas nunca fazendo depender o texto das imagens a partir dele criadas. Estamos, assim, perante um trabalho novo no percurso da autora, uma novela que tem como narradora uma mesma personagem, Bolota, alternando os tempos do discurso entre a altura em que tinha oito anos e um presente em que já chegou à adolescência. Entre os dois tempos, família, medos e sonhos vão sendo introduzidos à medida do olhar inexperiente de Bolota: o desemprego do pai, o desespero da mãe, as manias dos irmãos, mais velhos, a perda do cão Malik, o “totem que mantinha a tribo unida” e cuja expulsão de casa foi o gatilho que tudo fez rebentar na vida até aí estável e despreocupada da narradora.

A tentação de invocar o bildungsroman soaria despropositada perante um arco narrativo curto e focado na transição da infância para a adolescência, não fosse Bolota uma personagem profundamente marcada pela consciência de uma mudança em curso e tão exposta aos grandes abalos da existência como tantos personagens fundadores dessa categoria canónica. Que Irmão Lobo seja um romance classificado como juvenil não faz com que os dramas de Bolota sejam menos devedores da condição humana e dos precipícios que lhe são inerentes e a travessia que conduzirá a personagem dessa infância onde tudo começa a despedaçar-se a uma adolescência consciente do passado confirmam-no a cada passo. Irmão Lobo é uma novela avassaladora no modo como indaga a natureza dos afectos e o modo como construímos o nosso lugar no mundo, entre memória e dúvida e sempre com os mortos por perto.

Sara Figueiredo Costa
(versão completa do texto publicado no suplemento Actual, do Expresso, 18 Maio 2013)

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