Os 40 anos da Culsete

No Domingo passado, a livraria Culsete celebrou os seus 40 anos de actividade com um almoço onde se juntaram as gentes do livro, como Manuel Medeiros, um dos livreiros da casa, gosta de chamar aos que lêem e dão a ler. Quatro décadas de vida não são coisa pouca para uma livraria independente que, situada no centro de Setúbal, tem sabido reunir clientes e amigos a partir do gosto comum pela leitura. Isso mesmo se percebeu à mesa, com gente de todas as idades, alguns vindos de longe (dos Açores, por exemplo, terra natal de Manuel Medeiros), todos com alguma história para partilhar à volta das memórias ligadas à livraria. Fátima Medeiros, também livreira da Culsete, fez as honras da casa, e a sala cheia confirmou aquilo que já se sabia: que a Culsete é um espaço especial, capaz de reunir pessoas muito diferentes e de encontrar para cada leitor o livro que lhe está destinado – ou, melhor ainda, capaz de desencantar os livros que os leitores nem sabiam que queriam ler.

A minha primeira memória da Culsete não é muito antiga, mesmo que já conhecesse a livraria de ouvir falar a outros. Foi há poucos anos, numa tarde ensolarada, que rumei a Setúbal para visitar a livraria e conhecer Manuel Medeiros, o Livreiro Velho que tanta gente me garantia que tinha de conhecer. E tinha. A conversa, que era para ser entrevista (tê-la-ei algures no computador, mas guardo para mais tarde), durou um dia inteiro, começando na livraria e acabando em casa do livreiro, com derivas, pausas para uma ida à estante à procura de um ou outro livro, algumas gargalhadas e muita admiração da minha parte. E se a primeira visita à Culsete confirmou todos os elogios que a livraria parecia merecer por parte de quem já a conhecia, foi a conversa com Manuel Medeiros que me deixou com a certeza de que há pessoas que é mesmo preciso conhecer, porque nos fazem ver o mundo de outro ângulo, nos desarrumam as ideias para melhor as ordenarmos e, sobretudo, porque a empatia é uma coisa que nos faz bem à alma, mesmo que não se explique.

As comemorações dos 40 anos da Culsete prosseguem até ao final do ano e até ao próximo dia 17 acontecem sob a forma de arruada, todos os dias, na Av. 22 de Dezembro, em frente à livraria (das 15h00 às 23h00).

3 comments

  1. Leio isto e ainda fico com mais remorsos de não ter podido estar presente na festança.
    Obrigado, Sara, por me ter feito lá estar mais um pouco, já que o meu amigo Artur Goulart me enviou uma bela colecção de fotografias onde o Manuel Medeiros, que nos últimos tempos andava cada vez mais parecido com o Stephen Hawking, aparece com uma jovialidade marota de um jovem.

    onésimo

  2. Confirmo a jovialidade marota, Onésimo. Apesar do oxigénio que às vezes falta, a vontade de conversar, discutir, mostrar escritos no caderninho ou apenas rir do nosso Livreiro Velho está intacta. De resto, a festa foi bonita, sim, e a sua ausência foi notada, mas logo perdoada pela distância e pelas horas de voo.
    Até breve.

  3. Uma das ironias da vida é que, apesar de ter vivido toda a minha vida perto da Culsete, só agora, que passo o dia quase todo em Lisboa, é que começo a descobrir a sua importância. Pena é não estar aberta no fim de semana (segundo parece, pela informação no facebook). Mas tentarei passar por lá nas férias.

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