Sá da Costa anuncia encerramento

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A Livraria Sá da Costa vai encerrar as suas portas no próximo sábado. A notícia chegou através da página de Facebook da própria livraria, que estava a ser gerida por um grupo de livreiros que decidiu chegar-se à frente numa ameaça anterior de encerramento da casa. Dizia assim: “A Livraria Sá da Costa vai fechar. Os trabalhadores tiveram conhecimento da decisão da Juíza do Tribunal do Comércio esta manhã.A partir de segunda feira, dia 22 de Julho, esta Livraria centenária estará encerrada.Faremos parte da Lisboa desaparecida.Os nossos amigos da livraria/editora Letra Livre editaram o MANIFESTO CONTRA O DESASTROSO ENCERRAMENTO DAS LIVRARIAS DA CIDADE DE LISBOA NO CENTENÁRIO DA LIVRARIA SÁ DA COSTA. Temos que antecipar o lançamento, planeado para Outubro, para este Sábado. Convidamos os nossos amigos a passarem por cá nestes últimos dias. Caro Vitor Silva Tavares, o ‘coice’ chegou. Abraço a todos.”

Em tempos recentes, Lisboa perdeu duas grandes livrarias na zona do Chiado, a Livraria Portugal, em Janeiro do ano passado, e a Barateira, em Maio do mesmo ano. Agora, e se nenhuma reviravolta legal ou económica (é sempre tudo mais económico do que legal, parece) acontecer entretanto, é a Sá da Costa que fecha as portas. É bem possível que dentro de pouco tempo o espaço da livraria esteja ocupado por mais uma padaria chique de inspiração francesa, como aconteceu com a Portugal (nunca passo pela Rua do Carmo sem um abalo e nunca resisto a desejar que as pessoas que estão sentadas a comer brioches e queques coloridos no lugar onde antes havia um balcão de livros, pessoas que recomendavam leituras, memórias de tanta gente – minhas também – e de uma cidade, se engasguem com as migalhas). Ou que mais uma loja de roupa com ar condicionado glaciar e altifalantes aos berros tome conta da casa. Se não for padaria nem loja de roupa há-de ser agência bancária, compra e venda de ouro, pouco importa. Certo é que a cidade se vai transformando em shopping center sem que a gente possa fazer nada. E certo, também, é que estas desgraças parecem nunca bater à porta das grandes cadeias livrescas, as que açambarcam edições inteiras, as que oferecem descontos muito além do que a Lei do Preço Fixo permite, as que vendem livros como quem vende serradura. Um dia também vão começar a fechar, diz-me quem sabe de contas e do deve e haver do mercado editorial, e eu respondo que, à excepção do lamento sincero pelos trabalhadores (normalmente com contratos miseráveis e ordenados risíveis) que perderão os seus empregos, não haverá motivos para grandes tristezas. Não é vingança, não, é a certeza de que quando tiverem desaparecido as livrarias históricas da cidade, as livrarias onde as novidades e os bestsellers não são quem mais ordena, as livrarias onde há conselhos, segredos, livreiros que nos conhecem pelo nome e que sabem o que queremos ler, já não haverá motivos para andar por Lisboa. Que meia dúzia de hipermercados do livro continuem a florescer ou passem a murchar nas zonas nobres da cidade não altera nada. Nessa altura, a gente há-de olhar para a Baixa e acreditar que está no Colombo.

(a fotografia é de Joana Linda)

13 comments

  1. Olá Sara,
    Obrigado pelo texto.
    A fotografia é minha, posso pedir que ponhas o crédito em vez de dizer “retirada do facebook da Sá da Costa?” obrigado. Assim não perde.
    Joana Linda

  2. Bom dia, Joana.
    Já corrigi, e peço desculpa pelo erro. Vi a fotografia na time-line e não lhe encontrei créditos, pelo que deduzi que seria da própria livraria. Agora está devidamente creditada e só posso agradecer, porque é uma imagem muito bonita.

  3. Não gosto! É o consumo desenfreado do que não presta em detrimento da Cultura. Neste país mata-se a Cultura.
    Caminhamos para ficarmos um povo sem História.

  4. É uma vergonha. Esta gente dos Nasdak’s, esta gente que só sabe falar em mercados, até dá vómitos, entretanto salvem-se os BPN’s, os Banif´s e ouros que tais… até quando?

  5. Bom dia
    Talvez mais importante para compreender o fenomeno de fecho de algumas livrarias, seja perceber como outras de maior dimensao como a Bertrand continuam de boa saúde finaceira. Desse modo, poderíamos perceber as garras das grandes grupos, com a Porto Editora, que criou um império à custa da exploração monopolista do livro escolar com o beneplácito e ámen da miserável elite “cultural” portuguesa.

  6. Mais uma vítima do AO.. Gasto o meu dinheiro nos ingleses que encomendo no estrangeiro. Foi assim que quiseram que fosse; eu sempre fui contra e tenho muita pena do que se está a passar. Mas, lá está, estão a engasgar-se nas migalhas com que resolveram ficaram—e não deixa de ser bem feito.

  7. Mais uma livraria que desaparece… Que tristeza. Isto não se deve apenas à crise, mas em larga medida à crescente utiilização da internet para a leitura ou consulta de livros, cada vez em maior número disponíveis on-line. Para mim, e não me considero retrógrado, nada substitui a leitura dos livros em papel.

  8. Não são precisos Colombos para arruinar as livrarias independentes de Lisboa quando é a própria CML que financia a mãe de todas as arrasadoras de livrarias, a Feira do Livro de Lisboa. Pois. Pagamos todos dos nossos impostos a iniciativa que mais livrarias aniquila. E não sou contra a Feira do Livro de Lisboa, sou contra ESTA feira, cujo modelo arruína os livreiros e estabelece como regra a competição desleal dos editores. E tens razão, irão sofrer na pele o que primeiro infligiram aos livreiros. Mas aí será tarde demais.

  9. […] Fiquei agora a saber, com um aperto naquela zona do cérebro responsável pelos afectos, que a Livraria Sá da Costa vai deixar de existir a partir da próxima segunda-feira. Depois do encerramento da Livraria Portugal, na rua do Carmo, da Barateira na Trindade e de um […]

  10. Não deixa de ser caricato que, na semana em que tomamos conhecimento do encerramento da Sá da Costa, o Continente promova a sua Feira do Livro. Esta suposta liberdade de mercado acaba por matar tudo a especialização e a diversidade: acabamos todos vítimas dos hipermercados e da mediania das suas escolhas e ofertas.

  11. A livraria fechou porque ninguem compra livros. Nesse aspecto e um negocio como outro qualquer mesmo que o principal produto seja cultura neste caso o livro. E um negocio dificil, mas em vez de manifestos e coisas que tais, que tal comecarem a comprar mais livros? Esta ‘atividade passiva’ tao mas tao portuguesa roca quase a molenguice. E mais facil dizer mal do que fazer qualquer coisa. Querem fazer qualquer coisa? Juntem-se todos e comprem a livraria, comprei os livros, comprem qualquer ja que como qualquer negocio deste mundo, o objectivo e fazer dinheiro nem que seja o suficiente so para pagar as dividas.

  12. Deviam repor a verdade , em vez de andarem às voltas com tonterias. A livraria fechou porque está atolada de dividas.
    Muitos fornecedores nao receberam o dinheiros dos livros que lá puseram.
    A livraria , como espaço comercial que é, nunca teve uma casa de banho para os clientes, comportamente que implica o encerramento e que qualquer loja por mais miseravel que seja o possui.

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