Estante Digital, Estante Virtual

Como os mais atentos terão reparado, a rubrica ‘Estante Digital’, que mantive na revista Ler desde Novembro de 2011, deixou de existir a partir da edição de Setembro. Como o meu interesse em acompanhar o que se vai passando no domínio dos livros em suporte digital não desapareceu, não tanto porque me agrade ler nesse formato, mas sobretudo pelas implicações que todo esse admirável mundo novo tem na história do livro e da edição, decidi continuar a rubrica aqui no blog, mudando-lhe o nome para Estante Virtual. Para começar, publico os textos que deveriam ter saído na edição de Setembro (como só depois dessa edição chegar às bancas soube que a rubrica iria desaparecer, os textos ficaram feitos). Para continuar, passarei a partilhar aqui a informação pertinente que for recolhendo sobre o assunto, bem como algumas leituras e recensões a livros em suporte digital, tudo sempre devidamente identificado no título dos posts respectivos, para facilitar a arrumação do blog e a consulta de quem estiver interessado.

Um clássico com roupas novas

micemen

Pensada para um público de professores, estudantes e frequentadores grupos de leitura tão comuns nos Estados Unidos da América, a edição de Of Mice and Men, de John Steinbeck, publicada pela Penguin para o formato digital inclui vários extras dignos de nota. Ao texto já conhecido, que conta a história de George e Lennie na Califórnia rural da Grande Depressão, junta-se uma apresentação da obra feita por Susan Shillinglaw, investigadora residente do National Steinbeck Center, que não só apresenta algumas linhas de análise da obra como acrescenta várias sugestões de leitura complementares, entre a ficção e o ensaio. Os extras incluem ainda o discurso que John Steinbeck fez em Estocolmo, em 1962, quando recebeu o Prémio Nobel da Literatura, bem como uma entrevista com o actor James Earl Jones, um dos protagonistas da versão teatral de Of Mice and Men, e vários vídeos com comentários e opiniões de leitores. Se o digital permite acrescentar ao texto de um livro tantos elementos capazes de o complementarem, a edição de clássicos é, sem dúvida, um bom terreno para apostar nessa complementaridade.

Uma exposição de Caravaggio

caravaggio

O Metropolitan Museum of Art, de Nova Iorque, tem vindo a disponibilizar no seu site vários catálogos e outras publicações já esgotadas para leitura gratuita. The Age of Caravaggio, catálogo coordenado por Joseph P. O’Neill, é um desses catálogos, ilustrando a exposição que o museu acolheu em 1985 e que pode agora ser revista ou imaginada a partir do livro digital. Os textos incluem contributos dos maiores especialistas sobre a obra do pintor, reflectindo sobre técnicas, temas e contextos, para além da biografia do mestre italiano do chiaroscuro. A secção iconográfica apresenta centenas de imagens de boa qualidade que, não oferecendo o brilho de uma boa impressão em papel couché de alta gramagem, permitem ter uma ideia do que terá sido a mostra dedicada a Caravaggio. Ver os quadros e ler as legendas no écrã não será o mesmo que ter estado lá em 1985, mas é a maneira possível de permitir a mais aproximada das experiências.

Comprar livros ou comprar licenças

A denúncia foi feita pelo escritor americano Richard Kadrey: ao sair da zona geográfica reconhecida pelo Google Play, todos os livros que timha comprado para esta aplicação desapareceram, porque as licenças digitais não eram reconhecidas. É um dos problemas do digital que tem de ser resolvido com urgência.

Gregos on-line

A colecção de manuscritos gregos da British Library já pode ser lida a partir de qualquer computador ou tablet. São dezenas de textos em grego, alguns com iluminuras espantosas, como os Salmos de Theodore, produzidos em Constantinopla em 1066. Aceder em http://www.bl.uk/

Digital em baixa

As notícias da ascensão gloriosa do livro electrónico podem ter sido um bocadinho exageradas. Pelo menos é o que diz a Association of American Publishers, que apontou um crescimento de apenas 5% nas vendas de livros em suporte digital no primeiro quadrimestre deste ano, tendo assinalado que, no mês de Abril, as vendas terão mesmo descido. Não vale a pena pôr mais lenha numa fogueira que só serve para alimentar saudosismos ou empresas de gadgets; o livro digital e o impresso não estão em competição pela destruição do mais fraco e tudo indica que continuarão a conviver. O que agora se confirma é aquilo de que já se suspeitava: depois da novidade alimentada pela ideia de que agora passaríamos todos a ler tudo num écrã, a normalidade está de regresso, com os livros em papel a continuarem o seu percurso e os écrãs a explorarem a melhor forma de darem a ler textos, mas igualmente sons, imagens, vídeos. O futuro, logo veremos, mas é bom lembrar que com o digital a exigir energia e um aparelho electrónico, o papel tem boas hipóteses de nunca desaparecer. É caso para citar Manuel António Pina: Ainda nãoé o fim nem o princípio do mundo. Calma é apenas um pouco tarde.”

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