Para o Livreiro Velho

MMedeiros2012

Os textos de despedida são sempre laudatórios e definitivos, mas por mais que a justeza dos elogios e a certeza do fim sejam uma realidade, não me apetece escrever um texto de despedida. Manuel Medeiros (1936-2013), conhecido entre as gentes do livro por Livreiro Velho, morreu há dois dias e não há como embelezar esta frase. O livreiro da Culsete, a bela livraria que pôs de pé em Setúbal e à qual se dedicou ao lado de Fátima Ribeiro Medeiros, companheira de uma vida, já cá não está para alimentar as longas conversas que adorava manter, para desinquietar quem o escutava com perguntas inesperadas ou para lançar aquelas gargalhadas que pareciam contidas por causa da delicadeza que o caracterizava no modo de falar, mas que rapidamente se tornavam contagiosas e confirmavam que a delicadeza não tem de ser fraca.

Dizer alguma coisa sobre a inevitabilidade da morte e a certeza de que lá cairemos todos é fraco consolo para quem fica, e até desconfio que o Livreiro Velho não apreciaria o recurso a um lugar tão comum (havia de exigir mais, não por capricho, mas sobretudo porque esperava muito de quem com ele falava). Mais importante parece ser parar um momento e tentar perceber uma parte do que fica. E há duas noites, na Igreja do Convento de Jesus, em Setúbal, enquanto familiares e amigos velavam o corpo de Manuel Medeiros, esse “o que fica” começou a ganhar forma. É que entre a tristeza geral pela partida de um homem (amigo, pai, marido, conforme as pessoas e as relações que com elas construiu) houve também o espaço e o tempo para partilhar algumas memórias comuns aos que ali estávamos, num dos bancos da igreja. Foi assim que nos lembrámos da teimosia do livreiro, da sua constante disponibilidade para falar e ouvir, da manha boa com que nos desviava de um livro para nos fazer chegar a outro, das reuniões preparativas do Encontro Livreiro, em que apontava caminhos que eram tão óbvios e que nós não estávamos a conseguir ver. E lembrámo-nos dos conselhos e das ideias que foi deixando para projectos futuros, projectos que eram dele mas que só lhe faziam sentido porque sabia que também eram nossos, projectos que sabia que talvez já não visse acontecerem, mas que confiou a quem estava por perto com a certeza de que o caminho vai sempre existindo, mesmo quando já cá não estamos para o palmilhar. Houve quem contasse que, nas últimas semanas, Manuel Medeiros confessou estar a ter “um fim de vida espectacular”, frase que poderia causar estranheza em quem o visse sem forças e com a respiração debilitada, mas que tinha todo o sentido quando se conhecia o resto, o que estava e quem lhe estava à volta, o modo como olhava para a vida e para as coisas que fez e em que acreditava, a energia sincera com que continuava a escrever-nos e a responder-nos aos e-mails entre um tratamento e uma recaída.

E foi assim que um velório se transformou num momento que, não prescindindo da tristeza, não evitou a alegria, porque guardar alguma coisa dos que partem e sabê-la parte essencial dos que ficam tem de ser motivo para nos alegrarmos. Escrevo isto com toda a convicção, e não porque queira florear um texto que não deixa de ser sobre a morte. Só tive o prazer de conhecer o Manuel há uns anos, e nesse dia percebi que já devia ter rumado à Culsete há muitos mais, mas creio não estar a delirar se disser que naquela noite, triste, muito triste, o Livreiro Velho havia de sorrir, talvez até de gargalhar, se nos ouvisse ali a falar dele, do que nos deixou e do que havemos sempre de ter connosco. Pela minha parte, tenho a certeza de que estas memórias não são coisa para guardar na caixa do passado, mas antes algo que já faz parte do presente a caminho de ser futuro. E agora que me estou a lembrar de uma certa tarde em que o Livreiro Velho (que às vezes me chamava Sarinha sem que eu nunca tenha feito a cara feia que costumo fazer quando me tratam assim) me disse que tinha de ler a poesia de Wanda Ramos, vou ver se colmato essa falha. Os bons conselhos dados por pessoas sábias são sempre coisa para se seguir.

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