Bibliotecas de Lisboa

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Notícias publicadas nos últimos dias deram o alerta: a Câmara Municipal de Lisboa quer transferir oito das suas bibliotecas para as Juntas de Freguesia das áreas onde se encontram. Dito assim, pode soar a melhoramento da gestão da coisa pública, a aproximação dos serviços aos seus utentes, a desburocratização. No entanto, é preciso ter em conta que a Rede Municipal de Bibliotecas de Lisboa funciona, como o próprio nome indica, em rede, sendo essa uma das características deste serviço que mais tem feito pelo acesso generalizado dos lisboetas à leitura pública. Um leitor pode requisitar um livro da Biblioteca de Belém na Biblioteca dos Olivais, por esta ser mais perto de sua casa, e no dia em que terminar o prazo de devolução, pode devolver o livro nas Galveias, se por acaso esta for mais perto do seu trabalho, ou do sítio onde está nesse dia. Esta característica não é apenas um modo de tornar tudo mais confortável para o leitor, o que já seria positivo quando se trata de leitura e do seu acesso, é também um modo de organização que implica que o fundo bibliográfico das bibliotecas espalhadas pela cidade é um só, devidamente organizado e classificado pelos bibliotecários, arquivistas e demais funcionários em cada biblioteca. As pesquisas que se fazem no site das BLX, muito funcional, fazem-se a partir desse fundo colectivo, o que as torna mais produtivas e eficazes. Podemos fingir que um fundo ou uma colecção podem ser igualmente acessíveis se repartirmos as suas espécies por diferentes modos de gestão, mas sabemos que isso não é verdade e é pelo facto de as colecções das BLX terem um modo de gestão centralizado e em rede que tudo funciona bem, como tem funcionado até agora.

Há outros motivos de preocupação para os cidadãos de Lisboa. Por exemplo, o acesso. Nas BLX, o acesso é livre, qualquer pessoa pode entrar numa biblioteca, consultar os livros e ficar nas instalações a ler, estudar, trabalhar. Quem quiser requisitar livros só tem de fazer um cartão de leitor, gratuito, que lhe permite requisitar até cinco livros e duas revistas ao mesmo tempo, por um período de quinze dias, renovável duas vezes em presença ou através do site (portanto, sem ter de sair de casa). Se a rede deixar de contar com todas as bibliotecas, parte considerável dessa oferta perder-se-á. Por outro lado, nada nos garante que uma Junta de Freguesia, com gestão autónoma em relação ao seu património, não decida introduzir alterações no acesso à leitura. Pode cobrar pelo cartão. Pode restringir o acesso directo, porque pode não ter funcionários que assegurem uma tão grande exposição de estantes com livros onde qualquer pessoa pode chegar. Pode cortar serviços como o aconselhamento, a pesquisa bibliográfica, a reprodução de páginas. Não sabemos, ainda que saibamos que nos vão dizer que, com toda a certeza, tudo vai ficar igual ao que já está e ninguém precisa de se preocupar. Mas estas coisas são sempre iguais no início, até serem irremediavelmente alteradas um nadinha depois.

Também é preciso pensar na questão orçamental. Em que é que o facto de as bibliotecas passarem para as Juntas de Freguesia vai melhorar a sua situação. Quem frequenta as BLX sabe que os últimos tempos não têm sido pródigos em novas aquisições, porque a crise não permite, ou porque o orçamento para a cultura está mais curto. O que é que acontecerá quando as bibliotecas forem da responsabilidade das Juntas? Terão as Juntas de Freguesia um orçamento maior para fazerem face a esta necessidade de renovação constante dos fundos que uma biblioteca pública exige ou as bibliotecas vão passar a ser depósitos de livros? Uma vez mais, é claro que vai ser garantido que o orçamento chegará, e que até vai ser mais vantajoso porque uma Junta só terá de responsabilizar-se por uma biblioteca, mas sabemos bem o que nos têm oferecido garantias como estas; basta ler o jornal.

Não menos importante do que as questões que dizem respeito à leitura pública são as questões laborais. A notícia do Expresso diz que as transferências dos trabalhadores da CML para as Juntas, não só das bibliotecas mas igualmente de outros equipamentos de que a CML quer prescindir, serão voluntárias. O que é que isso quer dizer? Se nenhum bibliotecário quiser sair de uma rede de bibliotecas para uma biblioteca isolada de uma freguesia, o que é que acontece? Esses bibliotecários são integrados nas bibliotecas que ficarem na rede e as bibliotecas das Juntas ficam sem bibliotecários, ou contratam novos (ou resolvem o problema com funcionários sem formação na área, apenas para guardar os livros)? E não há retaliações? Como nada disto parece muito lógico, está por esclarecer esta questão da saída voluntária. E, portanto, está por esclarecer a situação dos trabalhadores.

Antes de fechar, que o texto já vai longo, pensemos um pouco na questão patrimonial. A Biblioteca de São Lázaro, uma das que a CML vai entregar às Juntas, comemorou este ano os seus 130 anos de vida. A colecção de livros infantis que alberga é uma das muitas preciosidades que a Rede das BLX tem ao seu cuidado e à disposição dos leitores. A Bedeteca de Lisboa é um equipamento único, com uma colecção dedicada à banda desenhada e à ilustração e técnicos que conhecem profundamente os livros e documentos que ali se guardam, oferecendo aos utentes de todas as idades um serviço impagável (e isto apesar do abandono a que foi votada nos anos mais recentes, com a CML a encerrar as hipóteses de programação cultural que ali sempre aconteceram e, com isso, a retirar um pouco de vida a uma casa que sempre foi muito animada e a desperdiçar o conhecimento e a iniciativa de quantos ali trabalham). São apenas dois exemplos de entre os muitos possíveis.

Adenda: está a circular uma petição contra o desmantelamento da Rede de Bibliotecas de Lisboa. Quem quiser pode assiná-la aqui.

5 comments

  1. Não concordo minimamente com esta decisão.
    Isto só pode partir de mentes iluminadas que nada conhecem do assunto.

  2. Boa noite, realmente nao da para entender esta alteracao. As Juntas nao tem capacidade de gerir estes espacos, algumas terao,mas a maior parte nao. Se as coisas funcionavam bem, com eficiencia, os utentes estavam satisfeitos, nao entendo a mudanca. Sr. presidente reconsidere.

  3. […] Ouvimos uma história macabra que não conseguimos confirmar mas ao que parece um(a) funcionário/a da Biblioteca dos Olivais teve um ataque cardíaco depois da sessão da Câmara de Quarta-Feira passada, tal o seu estado de nervos com todo este processo de destruição das BLX em curso – já agora é de ler este artigo que explica bem a actual organização. […]

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