Ponto Final

Há um ano estive em Macau, para acompanhar o Rota das Letras, e o jornal Ponto Final convidou-me para escrever um texto que foi publicado nessa altura. Quase um ano depois, inicio agora uma colaboração mensal com o Ponto Final. A primeira crónica saiu no dia 7, a propósito do Ano Novo Chinês:

ENCONTROS BILATERAIS COM UM TINTO ALENTEJANO

anonovo

O Ano Novo Chinês celebrou-se em Lisboa no passado dia 1, numa festa organizada pela comunidade chinesa e apoiada pela Câmara Municipal da cidade. No largo do Martim Moniz, um palco acolheu música, dança e teatro, sempre com apresentações bilingues, e várias bancas divulgaram tradições associadas ao Ano Novo e à Festa da Primavera, para além de actividades nas quais a comunidade chinesa se revê, da imprensa à religião, passando pela comida ou pelo ensino.

Dois dias antes da celebração, a RTP2 passou o documentário “Nós, os Chineses”, um trabalho de Carlos Fraga que recolhe visões de vários emigrantes vindos da China sobre Portugal e os portugueses. A opinião geral é a de que somos gente afável e geralmente disposta a ajudar, apesar de termos a firme convicção de que ‘os chineses são pessoas muito fechadas’. Por outro lado, somos vistos como algo relaxados, pouco apressados com o trabalho (o espanto de um senhor pelo facto de o restauro da Fonte Luminosa ter demorado oito meses, oito, é impagável), ainda que extremamente organizados no que diz respeito à utilização dos espaços e serviços públicos. Esta última característica é apontada em contraste com a ausência de regras na composição de filas na China, algo que pude comprovar quando tentava apanhar um táxi urgente em Macau e tive de placar com os ombros um homem que tentava a todo o custo ultrapassar-me. Mas as generalizações, já se sabe, são coisas pouco úteis, mesmo quando podem corresponder a um hábito enraizado, e isso mesmo confirmei no Martim Moniz, durante a celebração do Ano do Cavalo, quando vi hordas de portugueses abalroando as bancas que ofereciam posters com dizeres auspiciosos, doces ou bebidas. Numa dessas bancas, que oferecia livros exclusivamente em caracteres chineses, vi várias pessoas arrebanhando volumes à molhada, enquanto afastavam os potenciais concorrentes e passavam à frente de quem tentava ver alguma coisa. Estarão os meus compatriotas a estudar chinês de modo dedicado ou aquilo era só uma demonstração tão portuguesa – generalizemos também, porque generalizar é tão pouco útil como é prazenteiro – de acumulação de matéria apenas porque é oferecida?

Depois da festa no Martim Moniz, fui jantar com amigos a um restaurante chinês nas imediações da Av. Almirante Reis, um sítio pequeno, com comida muito boa e sempre frequentado por chineses, o que assegura a diversidade de paladares que a maioria dos restaurantes esconde naquela comida sempre igual, como se fosse possível que num país tão grande como a China os alimentos soubessem todos ao mesmo. Quando nos sentámos, seríamos os únicos portugueses na sala (e digo ‘seríamos’ porque não posso garantir que alguns dos supostos chineses não fossem, já, nascidos em Portugal, e portanto tão portugueses como eu) e as grandes mesas redondas acomodavam dezenas de pessoas que cantavam e, de quando em vez, brindavam com vinho, levantando-se da sua mesa e percorrendo as restantes naquele gesto efusivo de quem quer estender a festa. Aparentemente, todos se conheciam.

Tinham começado a chegar os primeiros pratos para acompanhar a cerveja que já bebíamos quando a senhora que atende os comensais se aproximou com uma garrafa de vinho inesperada. Pousando-a, explicou-nos que se celebrava o Ano Novo Chinês e que os senhores da mesa lá do fundo nos ofereciam aquele vinho para que celebrássemos também. Foi uma pena que não estivessem por ali as pessoas que acusam a comunidade chinesa de ser fechada, porque quando me levantei, levando o meu copo de vinho, e me dirigi à mesa que nos ofertara a garrafa de bom tinto alentejano, o que vi foi uma roda de chineses sorridentes e felizes pela partilha, e o que ouvi foi o homem de quem partiu o gesto generoso a pedir silêncio na sala e a dirigir algumas palavras em chinês para a geral. Não sei precisar se falou mandarim ou cantonês, e só posso envergonhar-me por isso, mas sei que não precisei de perceber para perceber tudo. Depois desse pequeno discurso, toda a sala ergueu os copos, brindando à nossa presença naquela festa com palavras ruidosas e também em português, um ‘obrigado, amigos, feliz ano novo’ que fez tanto pelas relações bilaterais como todas as acções e negócios luso-chineses regularmente anunciados na televisão. É que um copo de vinho levantado na hora certa pode deixar marcas maiores do que muitas agendas negociais.

Sara Figueiredo Costa
(a fotografia foi tirada no Martim Moniz, no dia 1 deste mês)

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