Notas de viagem: Hong Kong

Há um ano, passei algumas horas em Hong Kong, aproveitando os ferrys frequentes. Quando cheguei, não sabia como orientar-me nem para que lado ir e o mapa que comprei não ajudou. Lembro-me de sair do metro em Causeway Bay e ficar no meio da rua a olhar para os arranha-céus de boca aberta, confirmando a estreiteza de vistas urbanas (a minha, claro) e percebendo que a selva urbana era mesmo como nos filmes. Desta vez decidi ir para Kowloon e o efeito não foi diferente, ainda que a estranheza já tenha sido menor. No templo de Wong Tai Sin, um dos mais procurados na cidade, experimentei um daqueles momentos que ajudam a desfazer encantamentos pseudo-místicos com o Oriente e as suas religiões: a primeira coisa que me ocorreu quando cheguei à entrada foi a cena bíblica em que Jesus expulsa os vendilhões do templo, o que dará a medida do circo que ali está instalado.

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Na Shangai Street, uma das mais antigas de Hong Kong, encontro aquilo que talvez seja um eco do passado da cidade, as lojas velhas de utensílios de cozinha, objectos para os templos, ferragens e papel misturadas com estabelecimentos de comida com bancos improvisados à porta (almocei num deles e recomendá-lo-ia se tivesse descortinado o nome). Em algumas das transversais há mercados de rua e alguns becos sossegados, constrastando com o barulho, o movimento e a poluição atmosférica constantes. Decido ceder ao cliché e desço à Avenue of the Stars: um mar de gente a fotografar as marcas deixadas pelas mãos de actores famosos, sobretudo do cinema oriental, e a estátua de Bruce Lee (que não resisto a fotografar no meio de um batalhão de gente que imita a pose do mestre) não valem a visita, mas a vista sobre as águas e a ilha de Hong Kong, na outra margem, justificam tudo.

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Depois do ferry e de meia hora fintando carros e fumo de escapes na zona de Central, chego à porta do alfarrabista que me levou até ali e descubro-o fechado. Tendo em conta que ainda faltam 40 minutos para a hora do encerramento, espero que não seja mais um caso de livraria encerrada (se as rendas em Macau estão proibitivas, não imagino em Hong Kong, ainda por cima tão perto do distrito financeiro onde uma parte dos nossos destinos vai sendo decidida). Regresso a Macau com aquela sensação de alívio que se tem no regresso a casa – aqui, andar a pé sem tropeçar em escapes e sem recorrer a infinitas passagens aéreas, construídas para os peões que perderam o seu lugar na rua, é uma prática perfeitamente exequível.

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