Ponto Final (Maio)

​A minha crónica de Maio para o diário Ponto Final, de Macau.

A NAÇÃO INDÍGENA E BRUCE LEE

20140509-182929.jpg

​Nos concertos de Caetano, nunca falham os espectadores que só conhecem os hits telenovelescos e que não entendem como é que não o espectáculo não abriu com “A Luz de Tieta” ou “Leãozinho”. Abriu com “A Bossa Nova é Foda”, canção do último álbum, o que suscitou uma certa incredulidade em duas senhoras da fila de trás: “é foda? ele esta a dizer foda?”. Estava, claro, e ainda pediu para o público dizer com ele. Perante o escândalo das duas senhoras, é difícil travar aquele assomo de impaciência que é capaz de ser presunção, mas que nem por isso se consegue evitar. Declinemo-lo, portanto. Será preciso gritar comentários durante um concerto numa sala? É muito difícil perceber que os comentários se ouvem, e incomodam, e podem ser feitos ao ouvido do destinatário? E ter noção de que as palavras de uma mesma língua, partilhada por 250 milhões de falantes, não têm o mesmo valor em todas as geografias?

A língua de Caetano é o português na sua variante brasileira, um mapa dialectal complexo, variado e aparentemente infinito, mas a língua de Caetano é sobretudo a sua língua, aquela que foi ao antropofagismo de Oswald de Andrade buscar a vontade incontrolável de comer tudo e o outro, de absorver o que está em volta e o que parece distante, fazendo do desejo e da curiosidade os impulsos nobres de um idioma sem limites. A Tropicália foi muitas coisas, e em momento algum foi um movimento cristalizado e doutrinário que quisesse amarrar os seus cultores ao que quer que fosse, mas o que ficou de mais visível desse terramoto cultural e social na obra de Caetano Veloso talvez tenha sido esta orgia de ideias, conceitos, pessoas, uma vontade de juntar nos mesmos versos a nação indígena e Bruce Lee, livros e aquários, Krishna e a Virgem Maria, pretos, brancos e mulatos, o lixo do Leblon ecoando no Haiti.

O disco que Caetano Veloso levou ao Coliseu de Lisboa, Abraçaço, é um daqueles volumes musicais que não mais deixará de ser um marco. Deixemos a crítica musical para quem a sabe fazer e fiquemo-nos pelo modo como um conjunto de canções reflecte uma carreira de quase cinquenta anos sem deixar de ser presente, ou mais do que isso, futuro, um devir que continua a misturar para melhor pensar, a agarrar tudo sem medo das contradições que nos definem, do espanto que nos comove, dos medos que somos nós. Ouça-se “Um Comunista”. Tão fácil escrever uma baladinha maniqueísta sobre o herói Carlos Marighella, guerrilheiro urbano em tempos de ditadura, morto a tiro em São Paulo, em 1969, com as balas do poder militar. Difícil é não ser baladinha. Difícil é cantar a coragem e a causa sem esconder a dúvida sobre o que seria ou não seria o futuro, ponderando a deriva repressiva e ditatorial de tantos comunismos do mundo.

No trabalho de Caetano Veloso não há preto e branco sem sépia, certezas inabaláveis ou teses irrevogáveis. Haverá causas, tomadas de posição e as diatribes que tanto irritam os liberais (e às vezes também a esquerda, dependendo do grau de casmurrice), e sobretudo deambulações por aquilo que somos e não deixaremos de ser, gente iludida, alegre, sombria, apaixonada. Gente que se revê na nação indígena ou em Bruce Lee, por vezes em ambos, desconfiando das relações submersas e impensáveis de todas as coisas do mundo. Para a próxima, senhoras da fila de trás, espreitem as novidades discográficas antes do concerto. E já agora, comentem baixinho, não berrem ‘canta o Leãozinho’ a cada cinco minutos e esqueçam a vontade de fotografar o palco com os telemóveis, que para isso estão lá os fotojornalistas que disponibilizarão as imagens na net poucas horas depois. Tanta luz, tanto écrã, só serve para ofuscar o essencial.

Sara Figueiredo Costa
(Publicado no Ponto Final, 9 de Maio 2014)

Anúncios

One comment

  1. Ótima crônica! Com interessante conteúdo crítico/ analítico/denúncia, materializado através de uma linguagem simples e sofisticada ao mesmo tempo — sim, é possível, você fez isso.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s