Ponto Final (Julho)

A minha crónica de Julho para o jornal Ponto Final:

NA ESTRADA, COM O ELEFANTE

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Quando José Saramago publicou A Viagem do Elefante estaria longe de imaginar que uma companhia teatral iria transformar o livro num espectáculo. Apesar disso, a adaptação de romances para teatro não é uma prática tão pouco comum, pelo que, prosseguindo o exercício de especulação, o que talvez Saramago estivesse longe de imaginar seria a transformação do seu texto num espectáculo capaz de adquirir uma identidade de tal maneira forte que a sua existência acabaria por ser autónoma. Claro que A Viagem do Elefante encenada pelo Trigo Limpo/ ACERT não existiria sem A Viagem do Elefante que Saramago escreveu, mas a interpretação e a leitura construíram uma outra narrativa, igual na estrutura, mas capaz de chegar a públicos onde se incluem leitores e não-leitores, convivendo sem conflito. Para todos os efeitos, é de um outro objecto que se trata, ainda que muito se partilhe entre romance e espectáculo.

Em 2013, o grupo de Tondela transformou em teatro de rua a história do elefante Salomão, a mesma história que Saramago conheceu e com a qual ergueu um romance. O espectáculo andou por terras do interior de Portugal, as mesmas por onde passou o Salomão do livro. Um ano depois, A Viagem do Elefante percorre as localidades da região de Viseu Dão Lafões: em cada lugar, a companhia instala-se durante uns dias e convida as pessoas da terra a participarem. Os ensaios decorrem de terça a sexta e, no sábado, o espectáculo é mostrado ao público. Entre os participantes há gente nova e gente velha, há quem se mova com muita noção do corpo e quem tenha de aprender quase tudo, há, até, quem tenha dificuldades de locomoção, e ainda assim, tudo se faz. A relação da ACERT com as gentes de cada localidade cria sinergias únicas, deixando perceber características e identidades, mas o que mais impressiona quem tem acompanhado esta digressão é o efeito que o elefante desencadeia nas comunidades.

No largo principal de cada localidade, Salomão é reconstruído peça por peça, até o seu porte magnífico de elefante asiático se reconhecer à distância. Sereno e possante, o paquiderme aguarda pelo dia do espectáculo enquanto os passantes lhe admiram a figura. É fácil perceber que o elefante não é verdadeiro. Os ferros que o definem, os vimes que lhe conferem corpo e a carroçaria de uma velha carrinha que lhe permite a locomoção não foram reunidos para fingir. O que acontece ao fim de umas horas é algo mais forte do que a mera ilusão, porque a relação que cada terra cria com Salomão é baseada na sua condição de engenho cénico, mesmo quando há dúvidas sobre se o bicho conseguirá andar. O extraordinário neste processo é observar que, apesar da certeza de que o que se ergue no largo central é uma máquina para servir um espectáculo, o passar do tempo confere-lhe uma dimensão afectiva que cria sentimentos de posse por parte dos participantes locais e dos habitantes que hão-de ser espectadores. Um elefante autêntico teria efeitos mais prodigiosos, mas o que Salomão faz nascer em cada terra onde estaciona é a certeza de um gesto comunitário. Há quem creia que a palavra caiu em desuso, melindrada por internets e outros écrãs, mas basta um rastilho para alterar os passos – ou desencaminhar os sofás – de quem partilha o espaço de uma vila ou aldeia com os vizinhos. Em poucos dias, é exactamente isso que um elefante de vime e uma equipa teatral provocam na vizinhança. Os ensaios, os jogos que ajudam a desinibir e a aprender movimentos, o convívio entre actores, equipa técnica e participantes, sem distinções ou formalismos, essa é a pegada maior que Salomão imprime.

Na semana seguinte, o elefante está de novo na estrada, a caminho do próximo rossio. Peça por peça, como uma fénix em forma de paquiderme, voltará a nascer no meio da vila ou aldeia um animal capaz de mudar tantas coisas na vida da comunidade e no modo como os vizinhos se relacionam. Não haverá desígnio maior para o trabalho de tanta gente.

Sara Figueiredo Costa
(Publicado no Ponto Final, Julho 2014)

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