Entrevista: Meridian Brothers

MERIDIAN BROTHERS:
EM BOGOTÁ, COM VISTA PARA O MUNDO

Formados em Bogotá, entre 2007 e 2008, os Meridian Brothers cultivam uma sonoridade onde é fácil reconhecer o cruzamento de múltiplas referências e influências, mas que de tanto trabalhar a partir dessa babel musical acabou por erguer um som único, identificável com a cidade que os viu nascer e com a ideia de um mundo sem fronteiras geográficas ou barreiras temporais. Durante o Festival Músicas do Mundo, em Sines, onde os Meridian Brothers actuaram, Eblis Álvarez, vocalista e fundador da banda colombiana, conversou com a Blimunda sobre o seu trabalho.

MeridianBrothers
Fotografia de © Mário Pires

Em 1999, começaste a fazer experiências com instrumentos e sonoridades novas. Depois disso foste para a Dinamarca, estudar música electrónica e composição e no regresso a Bogotá fundaste os Meridian Brothers. Que importância teve, para o vosso trabalho, essa passagem pela Dinamarca?
Foi o processo habitual de uma pessoa experimentando outro tipo de ambiente, de realidade. E foi a abertura a outras escolas artísticas e musicais, com muitos tipos de influências. Ali pude desenvolver as minhas influências colombianas, as coisas que já tinha começado a fazer na Colômbia, mas de uma forma mais sofisticada e com novas ferramentas técnicas. Foi muito importante, sim, por essa hipótese de aprender e desenvolver ideias, e aconteceu ter sido na Dinamarca, mas poderia ter acontecido em qualquer outro lugar. O que contou foi o amadurecimento e a aquisição de novas ferramentas como artista.

A vossa música cruza sonoridades que podemos identificar com América Latina, ou com aquilo que os europeus acreditam ser a música latino-americana, com sons experimentais, elementos da pop e várias outras referências. É uma mistura complexa e gostava de perceber se esse é o vosso propósito quando compõem, o de misturar tudo numa mesma sonoridade.
A intenção dos Meridian Brothers é, acima de tudo, procurar, desenvolver uma certa linguagem, não necessariamente focada na música colombiana. A banda é muito ecléctica em termos de gostos e influências e a nossa ideia é alcançar uma linguagem única. Mas nos dois últimos trabalhos [Desesperanza, de 2012, e Devoción, de 2013] focámo-nos no desenvolvimento de sonoridades da música latino-americana que são muito familiares um pouco por toda a parte, como a salsa, a cumbia, os sons tropicais em geral. Por isso essa identificação faz sentido.

É possível perceber no vosso trabalho uma certa ideia de tradição, não como algo cristalizado, mas uma abordagem sonora que se reinventa e se cruza com outras. O que é, para vocês, a tradição?
A nossa ideia de tradição é dinâmica. Não somos músicos do campo, e sim de uma cidade grande e exposta a todo o tipo de influências cosmopolitas, portanto aquilo a que eu chamaria tradição passa pelas gerações de músicos que estão a fazer mais ou menos desde os anos 60/70, com a entrada do rock na América Latina, aquilo que nós também fazemos. O que aconteceu foi que em cada país houve músicos a utilizarem o folclore das suas zonas, combinando-o com a modernidade do rock. La Columna de Fuego, da Colômbia, os Inti Illimani, do Chile, ou o movimento que, no Peru, desenvolveu o rock em direcção à cumbia peruana, são bons exemplos disso. Digamos que esse interesse pela tradição é transversal à música latino-americana, ainda que em cada país as coisas tenham evoluído de modo diferente, de acordo com a história local. Na Colômbia não foi diferente e nós acabamos por ser uma quinta ou sexta geração de músicos a percorrer o mesmo caminho, ou seja, misturando as influências da modernidade com as ferramentas tradicionais e com o movimento global.

Há algum trabalho de recolha da chamada música tradicional da vossa parte?
Há duas tendências. Uma é a de ir aos lugares onde os músicos tradicionais tocam e cantam e observar o que fazem. São lugares dos quais muitos de nós estamos afastados, onde há outra forma de viver e de estar. Já fizemos esse trabalho algumas vezes, aprendendo a tocar os instrumentos e os repertórios tradicionais, sim. A outra forma de fazer esse trabalho é a partir da discografia, de gravações que foram feitas por vários músicos importantes de outras gerações. Essa também é uma linha de trabalho que seguimos, e com mais frequência, porque se aprendemos muito com essa experiência física de ir aos sítios e aprender, acabamos por guiar-nos mais pelas gravações que existem, não só da América do Sul, mas igualmente do Caribe e de outros espaços.

Há pouco falavas de Bogotá, que é uma cidade gigante e caótica onde muitas coisas se misturam. Podes ter, lado a lado, um autocarro velho a cair aos bocados que leva as pessoas do trabalho para casa e um arranha-céus muito sofisticado…
… e que custou milhões de dólares. Sim, se há um elemento que marca a nossa história, não apenas em Bogotá, mas em toda a América Latina, é a segregação social, algo que vem desde os tempos da conquista espanhola e que se manteve quase intocável, porque sempre tivemos uma elite e uma classe obrigada à servidão. Isto também se reflecte na música, com correntes mais dominadas por um gosto elitista, ocidentalizado, e outras mais populares e até mal vistas. Recentemente começou a haver uma mistura de ambas e nessa mistura também trabalhamos nós, tal como muitíssimas outras bandas em Bogotá.

A vossa carreira começou em Bogotá?
Bom, eu fiz algumas coisas na Dinamarca com uma outra banda, os Sonora 3, e digamos que aí já se tocaram algumas canções que seriam dos Meridian Brothers e que estavam gravadas. Depois, em 2007, os Meridian Brothers oficializaram-se e nessa altura tratámos de começar a mostrar ao vivo, em Bogotá, aquilo que andávamos a fazer.

Há uma relação forte entre o que fazem e a vida da cidade?
Creio que está a começar, até agora. Há alguns jornalistas que valorizam os Meridian Brothers como um elemento importante de Bogotá, porque a verdade é que temos uma sonoridade realmente bogotana, feita por gente da classe média, que estudou música e que quis, em determinado momento, agarrar no que conhecia e modernizá-lo, desenvolvendo-o no contexto em que vivia. Mais bogotano que isso, é difícil. Mas posso dizer que o público de Bogotá, e o colombiano, em geral, é muito conservador. As pessoas estão muito habituadas a ouvir metal, techno, mas nem sequer é o techno feito na Colômbia, ou a cumbia electrónica, mas sim o de Detroit, ou o de Berlim. Há muitíssimos lugares para tocar techno, dj’s importantes da cena berlinense ou londrina que vão até lá. Enfim, isso faz com que nós estejamos um pouco empurrados para uma espécie de cena underground, num espaço onde as pessoas querem continuar a ouvir o rock mais tradicional, os AC/DC e o Richie Hawtin em vez de darem atenção ao que estão a fazer as bandas novas. É um trabalho que talvez se faça em duas gerações. Se calhar já estaremos mortos, mas não importa.

A tua participação noutros projectos, como Frente Cumbiero, é algo que desenvolves de um modo totalmente à parte ou acaba por misturar-se com o que fazes nos Meridian Brothers?
O que muda é o director musical. Na Frente Cumbiero, o director é Mario Galeano e o que faço é contribuir com as minhas ideias na guitarra, ou na parte electrónica, além de já ter produzido alguns discos. Nos Meridian Brothers, sou eu. Mas nós somos um grupo bastante unido e como a cena musical é tão pequena, há poucos lugares para tocar, toda a gente se conhece e ouve o que os outros fazem, portanto a influência é óbvia.

E esse contacto entre músicos e bandas é extensível aos outros países da América do Sul? Há um contacto forte entre toda a gente ou isso é difícil?
Mais ou menos. O continente é grande e a comunicação é difícil. O transporte não é muito eficaz, até porque é caro, mas há algumas bandas do Peru e do Chile, por exemplo, que tocam na Colômbia. Nós viajámos pela América Latina algumas vezes. E com a Frente Cumbiero estive no México, na Argentina e no Uruguai. Apesar disso, parece que cada indústria musical se fecha no seu país e é preciso ser muito famoso para poder chegar de uns países aos outros.

E a distribuição?
Esse é um dos problemas. Para poder ter discos distribuídos por toda a América Latina será preciso estar numa editora grande, como a EMI, por exemplo, ou a Sony. As editoras independentes têm muito pouco alcance e há pouco interesse das distribuidoras. O outro problema, que é de fundo, é o de não haver poder de consumo, ou seja, as pessoas não têm como comprar música.

Longe dos tempos da canção de intervenção latino-americana, hoje não deixam de existir músicos e bandas que abordam temas sociais e políticos. Algumas canções dos Meridian Brothers falam sobre a corrupção, o domínio de uma elite, o fosso entre ricos e pobres. É uma abordagem com vontade de denunciar o que se passa?
Falando dos anos 70, havia o apoio de alguns governos a certos músicos, como aconteceu no Chile, em Cuba. No Chile, muitos desses músicos acabaram torturados e mortos mais tarde, quando mudou o governo. No México havia o apoio à música tradicional, mas o protesto vinha dos que cantavam em inglês, porque o governo era muito repressivo. Hoje há toda uma paleta de música politizada, desde os que rejeitam essa vertente até aos que são totalmente panfletários. E isso depende muito das personalidades de cada um. No meu caso, os temas políticos que abordo são interesses que tenho sobre a história do país, indignações sobre as coisas terríveis que se passam. O meu objectivo não é exactamente denunciar, mas descrever, sugerir.

Como uma espécie de crónica?
Sim, como uma crónica. E talvez com um pouco de realismo mágico, ou seja, falando das coisas como se elas se passassem num mundo de fantasia. É uma questão de gosto no modo de falar daquilo que vemos.

Sara Figueiredo Costa
(entrevista realizada durante o Festival Músicas do Mundo, em Sines, e publicada na Blimunda nº27, Agosto 2014)

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