Num bar de Macau, com Patrícia Reis

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Já tem umas semanas, mas só agora tive tempo para arrumar a casa: no final de Setembro, li O que nos separa dos outros por causa de um copo de whisky (D. Quixote), a novela com que Patrícia Reis venceu o Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal 2013-2014 e conversei com a autora a propósito do livro. O resultado saiu no Ponto Final, de Macau, no dia 26 de Setembro. Aqui fica.

DO LADO DE CÁ DA SOLIDÃO

Um homem sentado ao balcão de um bar desfiando as suas dores de alma ao ritmo de uma embriaguez mais ou menos ponderada é um clássico de certa cinefilia, imagem de tal modo cristalizada no imaginário comum que a podemos colocar no panteão iconográfico das nossas misérias emocionais. É nesse espaço de naufrágio e alguma vontade de salvação que decorre “O que nos separa dos outros por causa de um copo de whisky” (D. Quixote), o livro com que Patrícia Reis acaba de vencer o Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal 2013-2014.

Na barra de um bar de Macau, um homem desfia, então, as suas dores de alma. “A ideia era desmontar, era apropriar-me da força visual desse momento que já vimos tantas vezes no cinema”, explica a autora ao PONTO FINAL.

Novela curta e sem maneirismos que façam da dor decoração narrativa, o livro recolhe a digressão desse homem em torno do seu próprio naufrágio num texto onde não há outros intervenientes que possam usar da palavra, mesmo que se convoquem outras personagens para o longo rol de penas guardadas e prontas a estilhaçarem-se em coro ao ritmo do álcool.

A força desta voz única, capaz de se desdobrar em passados e dúvidas como tivesse uma audiência a incitá-lo, começa por homenagear a tal imagem cristalizada do homem ao balcão do bar, mas rapidamente a homenagem que parecia encaminhada para glorificar certa herança hollywoodesca se desfaz em dores.

“Escrevi um monólogo, mais do que uma novela dentro dos cânones literários; pode bem ser uma dramaturgia. Não creio que as diferentes histórias, fruto da introspecção do narrador, possam glorificar nada, pelo contrário, são apenas exemplos que reforçam a solidão que, muitos, talvez possam encontrar ao balcão de um bar numa noite de reflexão.”

Do outro lado do balcão, uma mulher chinesa, ‘barmaid’ atarefada no serviço de bebidas e na limpeza esporádica do espaço, é a interlocutora involuntária deste monólogo. Entre ambos, a fronteira não é apenas o balcão, nem sequer o idioma que não partilham, mas sobretudo as muitas memórias e heranças culturais que nos compõem, fazendo de nós pequenas ilhas em contextos que não se deixam contaminar, mesmo quando acabamos por ter vidas mais ou menos parecidas.

A língua, afinal, não é a barreira que afasta estes dois personagens: “Para defesa da minha ‘barmaid’, que acarinho, importa dizer que não sabemos se ela não fala outras línguas. O narrador dirige-se a ela apenas em pensamentos, nem tenta encetar uma conversa, principiar uma relação. O mais normal é que ela fale inglês. O mais normal é ela ter um namorado e ser feliz. Mas isto não encaixa ou serve o propósito do narrador, ele está afundado na sua amargura e quer que ela entre nesse seu mundo de miséria. De tal forma que inventa cenários de vida que são, também eles, bastante cinematográficos. Os clichés do costume ou, se preferires, para usar a expressão dele, banalidades.”

Um homem fala, então, mas nada do que diz ganha verbo fora da sua cabeça. Ao longo de uma noite, lembrará o casamento falhado, os afectos perdidos, as indecisões e as escolhas arrependidas. Inventando uma vida para a ‘barmaid’ silenciosa, parece procurar um porto seguro que confirme a solidez dos dias ou, mais difícil, que atribua algum sentido à imagem do irmão resvalando em queda livre para o abismo do rio que o matou.

“O que nos separa dos outros por causa de um copo de whisky” pode ensaiar alguns passos da complexa dança das diferenças culturais e dos encontros e desencontros que aí se desenham, e nesse sentido a escolha de Macau como cenário é tão pouco inesperada como é certeira, mas onde a novela revela o seu nervo é no modo como a linguagem se constrói como se procurasse a salvação. Não há miragens de paraíso, mas há a certeza de que a palavra pode salvar-nos, pelo menos de um certo modo, mesmo que incompleto, como se narrar fosse a maneira possível de dar sentido(s) à vida.

“Para mim é tudo isso. Escrever é uma salvação e quando optamos por partilhar transformarmos essa potencial salvação numa história que pode dizer algo a alguém. Ou não. É certo que não publicamos tudo o que escrevemos. A relação mistério com a escrita que, em alguns casos, está condenada à gaveta, também existe. Existirá sempre. Por existirem receios, interrogações que não queremos publicadas? Sim, publicar implica sempre uma exposição. E escrever é sempre procurar um sentido outro. Para viver com menos peso. Ou para chamar os nomes aos bois.”

Quando a escrita reflecte uma só voz, sem margem para que outros invadam o espaço íntimo das dores de quem narra, o risco do texto amplia-se e a literatura passa a respirar no fio da navalha, algo que Patrícia Reis aguenta sem vacilar. Apesar disso, o exercício não foi ensaiado: “Não existe premeditação na minha escrita. Nunca sei o que irá acontecer. Começo a escrever, parto da imagem do personagem e vou escrevendo. Como [Jorge Luís] Borges dizia, para ver como acaba. Não faço narrativas com o apoio de um caderno onde tirei notas ou índices à americana. Não sei escrever de forma organizada. Tudo me sai. Ou não. Por vezes, sai bem. Outras nem por isso.”

Caberá aos leitores o juízo final, mas digamos que “O que nos separa dos outros por causa de um copo de whisky” é um retrato verosímil e doloroso do que pode ser, e tantas vezes é, a nossa pequena miséria. Que esse retrato se estruture em linhas desordenadas, pequenas histórias de um novelo sem limites e deambulações imaginárias pelas ruas de um passado mal resolvido, não é fragilidade do enredo, mas antes verosimilhança.

Por mais que se queira arrumar o modo como o cérebro revisita tudo o que lá guarda, e é preciso contar com os movimentos imprevisíveis que parecem escapar à razão, sejam eles originados no coração ou nas entranhas – não temos, talvez nunca tenhamos, modo de saber. Como se lê a dada altura da novela, “a minha solidão é tão hedionda como a dos outros”, diz o narrador, perdido nas esquinas do seu labirinto emocional.

Nesse momento, e se dúvidas ainda restassem, ilumina-se no texto aquilo de que já se desconfiava: a escolha de Macau para cenário é tão certeira como acidental, algo que a autora confirmou, dizendo que tudo isto se podia passar em Oslo, em Lisboa ou em qualquer cidade do mundo. Os desencontros, as fronteiras e as pontes que se procuram para chegar a um outro ou ao próprio seriam válidas em qualquer parte do mundo.

Apesar disso, talvez a reflexão de um professor de escrita, profissão que acaba por definir este monólogo em muitas das suas passagens, fosse outra se o cenário mudasse. Houvesse amplos jardins em vez de casinos barulhentos, ou salões de tertúlia no lugar de bares escurecidos pelo álcool e pela tristeza, e outra seria a condução desta história. O ponto de onde tudo parte e onde tudo acaba por convergir, esse, não teria por que mudar. Não somos menos complicados ou mais resolvidos com os nossos dramas se mudarmos de cidade, por mais que queiramos acreditar que é mais fácil entender o mundo quando o mundo parece não nos entender, algo que facilmente pode passar pela cabeça de um ocidental deambulando pelas ruas de Macau.

A encerrar a conversa, o PONTO FINAL quis perceber o motivo pelo qual as referências ao chinês falado em Macau apontam sempre para o mandarim, e não para o cantonês que é língua geral no território. A resposta acaba por reafirmar o cenário de Macau como acidental e a autora confirma a opção do mandarim como um gesto propositado, “pelo simples facto de a maioria das pessoas não fazer distinção, ou não saber mesmo que existe o mandarim, falado na China continental, e o cantonês. Podia ter referido? Sim, mas não me ocorreu, simplesmente.”

Para os leitores de Macau, a decisão poderá parecer desadequada, mas deste lado do mundo, numa Lisboa onde a tristeza dos balcões de bar pode ser tão intensa como a de Macau, não há estranheza. Afinal, não é o domínio de um idioma que nos resolve os eternos problemas de comunicação.

 

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