Diabo na Cruz: distorção e copos de três

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Gravaram o primeiro disco em 2009 e conquistaram a crítica e o público. “Virou!” anunciava um som onde o rock de guitarras com efeitos encontrava descanso na música de raiz tradicional, entre bombos e braguesas, sem que nenhum dos registos se desse por vencido. Com “Roque Popular”, lançado em 2012, continuaram a misturar tempos e modos, cruzando a broa e o traçadinho, o pimba e o disco sound, os dramas do casamento na aldeia com as tragédias que entretanto voltaram a fazer de nós um país de emigrantes. Este fim-de-semana tocam em Macau, no Festival da Lusofonia, e prometem transformar a plateia num baile popular, assim o público os acompanhe. Em Lisboa, o vocalista da banda, Jorge Cruz, falou ao PONTO FINAL sobre a sua música, o próximo disco e o que esperam encontrar em Macau.

A vossa música cruza referências daquilo a que chamamos música tradicional com outras que vêm do universo do rock, mas também do funk ou até do disco. Essa mistura é um propósito desde o início ou é um processo natural, pelo facto de todas essas coisas serem referências para vocês?
Jorge Cruz – É um propósito, sim, porque a banda surge como uma forma de responder à vontade de juntar essas coisas. Juntámo-nos para fazer esse encontro de linguagens. Tínhamos a pretensão de equiparar as referências que para a nossa geração são muito mais fortes, as anglo-saxónicas e a cultura pop, com referências da nossa própria musicalidade, do país.

Há algum trabalho sistemático de recolha e registo da música de raiz tradicional no vosso quotidiano?
J.C. – De uma forma espontânea, a atenção é grande em relação a tudo o que é música de raiz popular e tradicional, mas não de uma forma académica. Nós surgimos um pouco com uma postura mais irreverente, porque o academismo e o tradicionalismo, apesar de tudo, são coisas que estão bem defendidas. Queríamos tentar usar essas referências, mas no prisma do rock, do punk, do disco, da música negra. Temos um conhecimento suficiente da música popular e tradicional, e quando a citamos estamos a evocar a memória. No fundo, estamos sempre a trabalhar com o inconsciente, nosso e de quem nos ouve.

O que é a tradição? É um património encerrado lá atrás, no passado, ou algo em que se pode mexer todos os dias?
J.C. – A tradição, para mim, é uma espécie de fio condutor. Ou seja, é imparável, vai em direcção ao futuro, mas só é tradição na medida em que responde também ao passado, vem de algum lado. Portanto, é possível a tradição ser agora, evidentemente, mas para ser tradição tem de responder a uma linguagem, a algo que tem uma raiz. Para nós, a raiz está na nossa terra. Claro que também há tradição noutros tipos de música – há tradição no pop, mas é capaz de ser uma tradição com 50 anos, ou assim.

Os vossos concertos são bastante festivos, numa celebração que lembra as festas de aldeia, onde a proximidade entre público e músicos é muito grande. Esta referência das festas populares é importante para o vosso modo de tocarem ao vivo?
J.C. – Sem teorizar muito acerca disso, porque festa é festa, é evidente que pretendemos fazer uma festa que refira coisas, que cite, que abane um bocado os nossos preconceitos. Sendo uma banda urbana e que gosta de música alternativa, e que tem fãs com esses gostos também, é bastante provocatório estarmos a trabalhar com coisas que se associam mais aos avós, ao povo, à música pimba, se for preciso. Então, andamos a fazer um bocado de ping-pong com estes conceitos.

Há uns anos, na Galiza, as bandas do movimento Bravú diziam que a música que queriam fazer era a que resultava da junção de um tractor com uma guitarra cheia de distorção. Reconhecem-se neste projecto?
J.C. – Reconheço uma parte do que fazemos nessa ideia, sim. Houve uma altura em que foi mesmo isso. Muito do que nós podemos ir buscar quando pensamos em música portuguesa é também uma música híbrida em relação à música galega, mas também temos uma relação de interesse com a música brasileira. Houve um movimento, o mangue-beat, que fazia um pouco isso, com o Chico Science e Nação Zumbi, por exemplo, ou Pedro Luís e a Parede. Era muita distorção misturada com percussão brasileira, samba, chorinhos. Da Galiza ao outro lado do Atlântico, dos celtas à música mais mulata, acho que a música portuguesa se relaciona com tudo isto e nós estamos a tentar fazer parte de um eixo que também passe por aí.

A letra da “Bomba-Canção” parece ir além do elogio de um certo modo de vida, mais rural, comunitário, festivo, e deixa no ar um certo sarcasmo para com a vida da cidade. É só uma picardia ou há aqui alguma leitura mais virada para uma ideia de manifesto?
J.C. – Cada um dirá aquilo que sente, mas é evidente que sou particularmente sensível a essas questões. Como escrevo as letras, e por isso falo em nome mais singular, acho que a vida citadina é muito interessante e permite uma data de coisas que a nossa música também procura explorar, mas por outro lado afasta-nos de algumas coisas essenciais.

Que coisas são essas?
J.C. – Coisas que são mais perenes e imutáveis e que interessa preservar. O ser humano não pode ser só algo em mudança, também tem de saber onde está o seu eixo. E às vezes o eixo são coisas tão simples e que nós desvalorizamos, como a família, a alimentação, o sono, o silêncio. São coisas que podem ter uma enorme influência no que é a vida das pessoas e que nós não valorizamos no dia a dia.

Há diferenças na recepção que o público vos faz em Lisboa ou em Carrazeda de Ansiães, por exemplo?
J.C. – Há algumas diferenças, sendo que o essencial, quando a coisa realmente pega fogo, é igual. Temos a sorte de ter uma música que funciona em todos estes sítios. O público de Lisboa usa mais o sentido crítico, gosta do sarcasmo, gosta que a gente goze com ele. As pessoas em Carrazeda de Ansiães não gostam que a gente vá para lá gozar com elas, querem ser elogiadas. Estou a exagerar um pouco, mas todos estes públicos merecem-nos um respeito enorme e nós sentimo-nos especiais quando estamos a tocar. Temos a sorte de ter tido grandes concertos em todos os distritos do país.

Este fim-de-semana e no próximo dia 22, os Diabo na Cruz tocam em Macau. Conhecem o território ou é a primeira vez que o visitam? E o que esperam do público?
J.C. – Há pessoas da equipa técnica que já lá estiveram, mas na banda, ninguém. É um mistério e uma ansiedade. Já ouvimos dizer que o público é bastante mais disciplinado do que aquilo a que estamos habituados, por isso estamos à espera de uma coisa um bocadinho mais ordeira, eventualmente com algum público que conheça a língua, por causa dos muitos portugueses que vivem em Macau. E estamos à espera de ver como é que a nossa música funciona aí. No estrangeiro, só tocámos em Praga e foi muito interessante. Em Macau estamos à espera de ver o que é que aquelas ruas nos dizem, também acerca de nós, e estamos à espera de aprender. Sobretudo isso.

Quando é que podemos esperar o próximo disco?
J.C. – 10 de Novembro, se tudo correr como está previsto.

Como se chamará?
J.C. – “Diabo na Cruz”, o chamado disco homónimo. O primeiro disco foi uma maneira de procurar um determinado som e ficámos muito surpreendidos com as reacções que teve. Começámos a tocar e a viver daquilo que fazemos. No segundo disco sentimos mesmo necessidade de sermos sérios, de reflectirmos sobre a nossa posição enquanto portugueses que fazem este tipo de música, que se implicam na cultura do país. No terceiro estamos bastante mais relaxados, já sem tanto peso e responsabilidade sobre os ombros. Acho que é um disco mais feliz.

“Vida de Estrada”, com o seu elogio à liberdade, é o primeiro single desse novo disco. É uma boa amostra do tom desse novo álbum ou devemos esperar muita heterogeneidade no alinhamento?
J.C.É uma boa amostra. Teremos um novo single a sair em breve, que penso que será uma continuidade do “Vida de Estrada”, mas já a abrir mais caminhos. É um disco que vai ser variado, mas conciso, e mais leve do que o disco anterior, coisa que para nós era fundamental. O “Roque Popular” era denso, tinha um certo peso, uma certa amargura com a situação do país, uma vontade de nos percebermos no país naquele momento, e agora estamos claramente à procura do sol e com vontade de andar para a frente.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, 16 Outubro 2014)

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