Condor: uma história da infâmia

Condor
Fotografia de João Pina, in Condor (ed. Tinta da China)

 

Sabemos que a memória é uma construção, um processo individual e colectivo que selecciona, acrescenta, retira e modifica. É também um direito, sem o qual o indivíduo ou a comunidade ficarão sempre privados de uma parte da sua identidade. Condor, de João Pina (edição Tinta da China), é um contributo inestimável para a concretização desse direito, para além de constituir um documento essencial para a compreensão da história da América Latina na segunda metade do século XX.

Nos anos 70 do século passado, uma aliança foi forjada entre os regimes militares e ditatoriais de vários países do chamado Cone Sul da América e a CIA, dos Estados Unidos. A sua missão era a de vigiar e calar, de preferência de modo definitivo, os activistas que se opunham a esses regimes, gente de esquerda e comprometida com a oposição e a luta pelos direitos humanos em lugares onde tais direitos eram diariamente esmagados por quem detinha o poder. Para além da CIA, vários antigos oficiais das SS e da Gestapo contribuíram, na teoria e na prática, para a concretização dos objectivos traçados por este plano. Como diz o jornalista Jon Lee Anderson no prefácio a Condor, “a ideia de uma aliança ente os regimes militares de direita da América Latina, com o objectivo expresso de assassinar comunistas nos países uns dos outros soava como uma teoria da conspiração, enquanto a alegação da participação nazi parecia uma fantasia, uma cena saída da imaginação fértil dos argumentistas de Hollywood que não tivesse sido incluída num filme. Mas era verdade (…).”

Entre as décadas de 70 e 80 do século XX, dezenas de milhares de pessoas foram perseguidas, presas, torturadas e assassinadas pelos longos tentáculos da Operação Condor. De muitas delas, desconhece-se o destino, e só a esperança de familiares e amigos impede que se assuma que terão sido mortos. Investigações forenses permitiram descobrir, nos últimos anos, os ossos de alguns desses homens e mulheres que a Condor fez desaparecer. A esperança sucumbirá em momentos como esses, quando um relatório confirma que os restos mortais encontrados em tal sítio pertencem à pessoa que se procurou durante anos, mas parece que um certo sentido de justiça ocupa o seu lugar, recuperado que foi o direito a saber.

Condor apresenta perto de trinta sobreviventes dessa operação infame, retratando-os no presente e contando a sua história num texto que se sobrepõe à fotografia. A essas fotografias juntam-se uma série de outras, mostrando lugares e objectos que compõem um itinerário, um percurso tão lúcido como doloroso pelos efeitos devastadores da Operação Condor. As legendas lêem-se à parte, num pequeno caderno inserido na contra-capa do livro onde se fornecem todos os detalhes sobre cada imagem, o que permite que as fotografias se mostrem de modo absoluto, ocupando a totalidade da página. Percorre-se este livro com as coordenadas que o prefácio de Jon Lee Anderson transmite e a partir daí fica-se por conta própria, vendo suceder-se o estádio do Chile, que serviu de campo de concentração para opositores políticos, a selva de Araguaia, onde a guerrilha resistiu à ditadura militar brasileira, ou o rio de La Plata, entre a Argentina e o Uruguai, para onde tantas pessoas foram atiradas durante esta operação, intercaladas pelos retratos dos sobreviventes e pelos textos que os apresentam. Há também as fotografias de alguns algozes, políticos e militares que dedicaram parte da sua vida a torturar e a matar e que acabaram por ter de enfrentar a justiça, tantos anos depois. Nessas imagens, sem a dignidade de que se revestem os retratos dos sobreviventes, vemos sobretudo o que lá não está, ou seja, os mandantes, os governos que deviam ser responsabilizados pelo que fizeram e não foram (serão, algum dia?), a gente influente que nunca foi apanhada e que ainda hoje perturba os que sobreviveram, por vezes a coberto do anonimato telefónico que permite ameaçar, outras vezes exibindo a sua impunidade nos salões do poder. A fechar, as palavras do juiz Baltasar Garzón contextualizam os factos conhecidos sobre a Operação Condor e os poucos julgamentos que dela, enfim, decorreram, no panorama dos direitos humanos, confirmando que o passado não é apenas o que ficou para trás.

Em Tisanas, Ana Haterly escreveu: “A memória é essa claridade fictícia das sobreposições que se anulam. O significado é essa espécie de mapa das interpretações que se cruzam como cicatrizes de sucessivas pancadas. Os nossos sentimentos. A intensidade do sentir é intolerável. Do sentir ao sentido do sentido ao significado: o que resta é impacto que substitui impacto — eis a invenção.” Outras palavras poderiam invocar-se para falar do gesto de João Pina neste Condor, mas estas servem o propósito de iluminar a estrutura em camadas deste livro, sobrepondo texto e retratos e dispondo o resultado de um processo de olhar, questionar e recuperar para o presente nas páginas sucessivas de um livro. Um livro que é precioso, qualificativo que devemos usar sem medo e que, neste caso, não se refere à sua dimensão de objecto-livro (ainda que esta mereça todos os elogios). O que se reúne nestas páginas é o trabalho rigoroso de uma investigação sobre a Operação Condor e o gesto intenso, dedicado e muito complexo de recuperar o que sobrou de tantas vidas apagadas, repor os dados que tantos tentaram esconder, devolver às vítimas a palavra que lhes foi impedida. Nenhuma das vertentes vacila e o resultado é homenagem, documento e trabalho de memória, tudo condensado no tempo longo de um álbum.

O olhar de João Pina transmite o rigor do jornalista e a dedicação do fotógrafo que não descura a composição de cada imagem. Percebe-se que o percurso do autor, distante da ideia feita (e tantas vezes mal entendida) do jornalista imparcial, prefere comprometer-se com o que vê e, sobretudo, com a vontade de dar a ver. Em momento algum esse compromisso interfere com a construção detalhada deste mapa do horror convertido em objecto de dignidade e conhecimento, um documento onde se mostra o passado e o modo como este se fez presente, entre a revolta, a serenidade e a luta constante por recuperar os pedaços de história que ainda faltam. Será isto, a memória, um gesto em constante construção.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Blimunda #28, Set. 2014)

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