A Diáspora Macaense, de Xangai para o mundo

xangaimacau

O Museu do Oriente, em Lisboa, acolhe até sexta-feira mais uma edição da sua Festa do Livro, disponibilizando centenas de edições dedicadas a temas asiáticos a preços de saldo. Na sala onde se mostram os livros, vários volumes têm Macau como eixo temático, dos estudos históricos à literatura em língua portuguesa produzida no território, passando pela cartografia, pela gastronomia ou pelas artes plásticas. No âmbito da Festa do Livro, o museu programou uma conferência dedicada ao tema “Os Refugiados de Xangai-Macau 1949”, proferida pelo investigador Alfredo Gomes Dias que tem vindo a desenvolver o seu trabalho sobre o assunto a convite do Arquivo Histórico de Macau, e da sua directora, Lau Fong, do qual irá resultar uma exposição que será inaugurada em meados de 2015, nas instalações do Arquivo.

Autor de uma tese dedicada ao tema e recentemente publicada pelo Centro Científico e Cultural de Macau e da Fundação Macau, “Diáspora Macaense. Macau, Hong Kong, Xangai (1850-1952)”, Alfredo Gomes Dias contextualizou o movimento migratório entre Xangai e Macau, apresentando alguns dados que o antecedem e permitem conhecer melhor a realidade da época.

Entre o século XIX e a primeira metade do século XX, muitos são os macaenses que emigram para outras paragens, com destaque para Xangai e Hong Kong. A partir da segunda metade do século passado, concretamente no pós-II Guerra Mundial, esse movimento de diáspora espalha-se por todo o mundo, havendo registo de famílias macaenses nos Estados Unidos da América, na Austrália, no Canadá, em vários países africanos, sobretudo os de língua oficial portuguesa, e um pouco por todo o mundo. Na década de 1840, com o nascimento da cidade de Hong Kong e a mudança da superintendência do comércio britânico de Macau para esta cidade, começa também a diáspora macaense para Hong Kong. No que diz respeito a Xangai, cidade onde se deteve a atenção de Alfredo Gomes Dias nesta conferência, os dados apurados pelo investigador confirmam a existência de macaenses na cidade desde finais da mesma década, ocupando sobretudo postos de trabalho ligados ao comércio.

“Macau é uma cidade que nasceu e vive de fluxos migratórios, mas os movimentos migratórios não são apenas números, são pessoas, e é importante conhecê-las”, defendeu o autor durante a sessão. Como viviam, então, estes macaenses emigrados em Xangai? De acordo com o estudo de Alfredo Gomes Dias, as pessoas estavam dispersas pela cidade, contrariando a ideia de uma comunidade circunscrita a um determinado bairro e, portanto, guetizada. Para além da predominância de postos de trabalho em áreas ligadas ao comércio, a investigação do autor permitiu perceber que um dos factores que asseguravam a boa recepção e o sucesso laboral dos macaenses em Xangai era o domínio de mais do que um idioma, nomeadamente o português e o inglês, para além do chinês que iam aprendendo conforme as necessidades do quotidiano.

Crédito extraordinário

No final dos anos 40, muitos destes macaenses abandonam Xangai, regressando a Macau ou partindo para outros países. Como explicou Alfredo Gomes Dias, “o movimento dos Refugiados de Xangai para Macau, a partir de 1949, representa o início de novos fluxos migratórios macaenses e da dispersão pelos cinco continentes.” Este movimento torna-se massivo em 1949, data da proclamação da República Popular da China por Mao Tsé Tung, mas as suas raízes encontram-se um pouco antes na cronologia. Em 1937, a guerra entre a China e o Japão faz sair os primeiros refugiados de Xangai. Na sequência da invasão japonesa, o Governador de Macau, Artur Tamagnini Barbosa, já havia começado a preparar o território para a possibilidade de um regresso em força destes emigrantes a Macau, assinando uma portaria (a número 557, de 1 de Janeiro de 1937) que prevê um crédito extraordinário de 30 mil patacas para despesas com possíveis refugiados.

Terminada a II Guerra Mundial, e afastado o exército japonês do cenário, o conflito civil que opunha as tropas do Kuomintang às do Partido Comunista Chinês recupera intensidade, depois de algum abrandamento motivado pela necessidade de combater o inimigo comum vindo do Japão. Em Maio de 1949, o Exército Popular, afecto às forças comunistas, entra em Xangai, cinco meses antes de ser proclamada a República Popular e a partir desse momento, o movimento dos refugiados de Xangai começa a deslocar-se em força para Macau.

Os jornais da época são documentos fundamentais para se conhecer o processo. Alfredo Gomes Dias citou, entre outros, o Notícias de Macau do dia 18 de Maio de 1949, data em que chegam ao território os primeiros cento e dez refugiados macaenses oriundos de Xangai. A viagem decorreu na sequência dos esforços desenvolvidos pelo Cônsul de Portugal em Hong Kong, que fretou três aviões para o efeito, garantindo uma saída em segurança.

Nem todos os que fogem de Xangai entre a chegada do Exército Popular e a proclamação da República Popular se encaminham para Macau. Os que o fazem são, na generalidade, pessoas com poucos recursos e com grande necessidade de apoio económico e social, algo que será assegurado pelo Governo de Macau e pela Santa Casa da Misericórdia, com a criação de lares de acolhimento e com a disponibilização de verbas para as necessidades básicas. Muitos macaenses com profissões liberais ou especializadas preferem partir para outros sítios, na tentativa de continuarem a desenvolver a sua profissão.

Entre a plateia que assistiu à conferência sobre os Refugiados de Xangai no Museu do Oriente, em Lisboa, uma mulher que viveu esse processo conversou com o PONTO FINAL sobre a sua experiência.

Natércia Remédios Leitão nasceu em Xangai, tal como os seus pais, mas os avós integraram esse movimento regular que, no século XIX, levou tantos macaenses a emigrarem para a cidade do norte da China. Em 1949, com a entrada do Exército Popular em Xangai, teve de abandonar a cidade: “Conseguimos apanhar o último navio que saiu de Xangai, mas não fomos para Macau, ao contrário de tanta gente. Como o meu sogro estava a viver em Portugal, viemos directamente para aqui, parando em Hong Kong apenas por algumas horas. Em Marselha, desembarcámos e apanhámos um comboio para Lisboa. A viagem demorou um mês, mas chegámos.” Casada com um médico que exercia a profissão em Xangai, Natércia encontrou em Portugal um espaço para viver sem sobressaltos, onde o marido pôde continuar a exercer medicina e onde nasceram os seus filhos. Apesar disso, a mudança não foi pacífica: “Era tudo tão escuro e deprimente em Lisboa. Eu vinha de uma cidade luminosa e tudo, aqui, me parecia apagado e triste, de tal maneira que disse várias vezes ao meu marido que não queria ficar. Mas ficámos. As pessoas eram simpáticas, mas havia o problema da comunicação. Como eu não falava português, não havia como comunicar, a não ser com pessoas que falassem inglês. Foi muito duro.”

Não foi a primeira vez que Natércia teve de fugir de Xangai. Na sequência da invasão japonesa, em 1937, a sua família foi obrigada a abandonar a cidade pela primeira vez. “Como tínhamos familiares a viver em Hong Kong, a minha mãe levou-nos para lá durante algum tempo. Ainda frequentei a escola em Hong Kong durante um ano. Depois, quando voltou a ser seguro, regressámos a Xangai.”

Uma das mágoas que Natércia Remédios Leitão guardou na sequência da sua partida foi o ter perdido contacto com uma amiga de infância, cujo filho apadrinhou e de quem não voltou a ter notícias desde que fugiu para Portugal.

Regresso a Xangai

Depois da morte de Mao Tsé Tung, a China inicia um processo de abertura ao mercado internacional acompanhado, entre outros factores, por alguma flexibilidade na atribuição de vistos de turismo. No final da década de 80 do século XX, Natércia volta ao seu país de origem, depois de o marido ter decidido que era altura de os filhos conhecerem o outro lado do mundo.

Foi numa viagem familiar que o regresso a Xangai aconteceu e a urgência de ter notícias sobre a sua amiga de infância esteve sempre no horizonte. “Os guardas vermelhos confiscaram todos os seus papéis, e foi assim que ela perdeu a minha morada de Portugal. Quando tentei contactá-la, por carta, fui aconselhada a não o fazer, porque isso podia criar-lhe problemas com as autoridades. Disseram-me, além disso, que o mais certo era estarem todos mortos, ela e a família. Ao fim de tantos anos, estando eu em Xangai outra vez, achei que tinha de tentar, pelo menos, encontrar a casa onde ela vivia com o meu afilhado”, contou Natércia.

A cidade tinha mudado muito, entretanto. As ruas de Xangai já não eram as mesmas do tempo em que Natércia ali vivia e encontrar uma casa no meio de uma cidade que tinha crescido tanto parecia tarefa impossível. O guia do hotel, os taxistas a quem pediram informações, os funcionários dos correios, ninguém conseguia localizar uma rua que parecia já não existir.

Por um daqueles acasos que talvez a memória explique, Natércia olhava para um mapa da cidade quando o seu olhar se fixou numa determinada área, provavelmente reconhecendo-lhe parte da morfologia cartográfica que ainda a ligava à Xangai de outros tempos. “Metemo-nos num táxi, chegámos ao destino e a casa lá estava, no mesmo sítio de sempre. Bati à porta e apareceu a minha amiga. Não queria acreditar, depois de tantos anos.”

O reencontro emocionado acabou por pacificar a sua relação com a cidade onde nasceu. A amiga morreu entretanto, sem nunca ter chegado a visitar Portugal. “Acho que tinha medo de viajar sozinha para tão longe”, diz Natércia, “é uma viagem muito comprida.”

Natércia Remédios Leitão foi uma entre as muitas centenas de pessoas que fugiram de Xangai depois da chegada à cidade do Exército Popular. Como defendeu Alfredo Gomes Dias na sua conferência, os números associados a um processo de migração, neste caso, forçada, não são apenas números. Cada dado da estatística guarda a história de alguém. A de Natércia não passou por Macau, terra de origem da sua família, desviando-se em direcção a Portugal. Regressa agora ao território em forma de artigo de jornal.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, 10 Dez. 2014)

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