Balanço e contas II

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No último dia de 2014, a crónica do Ponto Final (‘Bagagem de Mão’) serviu para o inevitável balanço.

O QUE FICA DE 2014

Não há como fugir a balanços e o final de um ano é uma altura tão boa como qualquer outra para o exercício. É certo que desse lado do mundo o ano só acaba lá para Fevereiro, entre o Cavalo e a Cabra, mas como calendários são coisas úteis para ordenar uma vida, deixemo-nos ficar com o já familiar gregoriano e avancemos.

Um livro
Entre os muitos que se publicaram este ano, Condor, de João Pina (Tinta da China), é escolha segura para o que sobrará de 2014. Entre as décadas de 70 e 80 do século XX, dezenas de milhares de pessoas foram perseguidas, torturadas e assassinadas pelos tentáculos da Operação Condor, uma aliança forjada entre os regimes militares e ditatoriais de vários países do chamado Cone Sul da América e a CIA. A sua missão era a de aniquilar os activistas que se opunham a esses regimes. O livro de João Pina cruza os retratos e as histórias de cerca de trinta sobreviventes dessa operação infame com imagens de lugares, objectos, vestígios, documentos. Condor é homenagem, documento e trabalho de memória, tudo condensado num livro que há-de perdurar.

Um disco
Há muitas coisas, e coisas muito interessantes, a acontecer na música portuguesa. O último disco dos Diabo na Cruz foi uma das melhores coisas de 2014. Trazendo os bailes de aldeia para o meio da urbanidade mais convencida de ser original, o álbum homónimo da banda volta a convocar a tradição e a fazer dela modernidade. “Queres um mundo pra vocês outro pra nós/ Que contemple um curral de onde viemos/ Só que eu e tu tivemos os mesmos avós/ Desce abaixo desse ramo solitário e bailemos”. Quem canta versos como estes sabe bem de onde veio e não pede licença para chegar ao futuro.

Um espectáculo
Transformar uma obra de José Saramago num espectáculo teatral de rua já era audácia em quantidade, mas fazê-lo conseguindo criar uma outra obra, capaz de traçar intensamente o seu percurso para lá do livro impresso, revelou-se uma autêntica epopeia. Durante quatro meses, a equipa do Trigo Limpo/Teatro ACERT fez deslocar um enorme elefante de ferro e vime por catorze concelhos da região de Viseu Dão Lafões (e eu tive o privilégio de integrar a digressão como cronista, pelo que fica a declaração de intenções). Em cada local, a recepção das pessoas foi entusiasta, dedicada e agradecida, mas foi sobretudo um reflexo do trabalho de equipa, a da ACERT e a que em cada local participou no espectáculo. Quem acompanhou de perto a digressão de A Viagem do Elefante, não esquecerá os quatro meses de estrada. E para o ano, talvez Salomão regresse ao caminho.

Um lugar
Estar entre dois lugares é um modo de imaginar uma arrumação possível no mundo. O mais certo é estarmos sempre entre muitos lugares, ainda que não nos levantemos do sofá tantas vezes quantas o médico recomendaria, mas quando se atravessa o globo em longas horas e se vê o dia nascer a quase onze mil quilómetros de distância de casa, estar entre dois lugares torna-se coisa concreta. As coordenadas são relativas, mas Macau será sempre o meu outro lado do mundo. Em 2014 regressei à cidade depois de um ano sem a visitar e percebi que todas as notícias que ia lendo em Portugal sobre a especulação imobiliária e o crescimento urbano desenfreado não eram um exagero. Em apenas doze meses, desapareceram muitas das pequenas lojas e estabelecimentos de comida que conheci um ano antes, demoliram-se edifícios que me habituei a reconhecer na moldura da cidade e construíram-se outros que ali não estavam, em quantidade suficiente para me fazer temer pela saúde mental de alguém que experimente regressar a Macau ao fim de, digamos, cinco anos fora. Apesar disso, é fácil ter pela cidade um carinho quase disfuncional. Tão fácil que conto voltar daqui a nada.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, 31 Dez. 2014)

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