Fim de semana Pimba

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Na ACERT, em Tondela, o espectáculo Deixem o Pimba em Paz voltou a subir ao palco e a esgotar uma sala. O texto que fiz sobre este projecto para a agenda da ACERT (que, já agora, podem ler aqui na sua versão digital) acabou na folha de sala e passa agora a morar também aqui no blog. Sobre o concerto de sábado, só posso dizer que nunca me imaginei a cantarolar certas canções com tanto afinco…

NOVOS OUVIDOS PARA O PIMBA

A música pimba sempre existiu. Os bailes de Verão, as festas na aldeia ou no bairro, os concertos na sociedade recreativa, tudo espaços e momentos em que sempre ouvimos as letras mais do que directas, os refrões a resvalar para o brejeiro, os trocadilhos embalados em sintetizadores e guitarras ritmadas. Passámos a falar de pimba quando o espaço mediático se prestou a dar lugar a canções e intérpretes que até esse momento não saíam do escaparate musical da bomba de gasolina ou do palco da província. Os sociólogos esboçaram explicações, os críticos musicais torceram o nariz (ou começaram a tomar atenção, conforme os casos) e uma certa classe convencida da sua cultura superior bradou aos céus contra o mau gosto. Não serviu de nada e ainda bem. Desde os cancioneiros medievais que cantamos brejeirices e histórias românticas de faca e alguidar, não seria agora que íamos abandonar a prática só porque alguém decidiu inventar o pimba.

Em 2013, Bruno Nogueira lembrou-se de agarrar nesse património lírico e musical tão desprezado pelos pseudo-sapientes (que, sem o confessarem, saberão de cor os refrões de várias canções pimba como qualquer comum mortal) e fazer dele um espectáculo e um disco. Deixem o Pimba em Paz reúne quinze temas popularizados por intérpretes como Ágata, Marco Paulo, Marante ou Quim Barreiros. No palco, Bruno Nogueira e Manuela Azevedo, acompanhados por um lote de músicos de excepção, dão voz a esses temas, reinterpretando-os com os arranjos de Filipe Melo e Nuno Rafael. O resultado é tão estranho quanto fascinante. A estranheza talvez resulte de darmos por nós a trautear “Não És Homem Para Mim” como se fosse a canção que levaríamos para uma ilha deserta, agradecendo o facto de a voz poderosa de Manuela Azevedo ter revelado o drama que se escondia num dos hits mais pimba de sempre. O fascínio, esse resulta do privilégio de ouvirmos um conjunto de canções que contam histórias, que apelam ao trocadilho malandro e que revelam pequenas tragédias e felicidades banais – tudo aquilo que não tínhamos sabido ouvir e perceber enquanto ainda estávamos preocupados com o rótulo “pimba”.

Sara Figueiredo Costa

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