Craig Thompson, Habibi

O SEGUNDO GRANDE LIVRO DE CRAIG THOMPSON

habibi

 Craig Thompson
 Habibi
 Devir

Depois do reconhecimento mundial de Blankets, um livro que alcançou leitores muito para além do campo mais ou menos isolado da banda desenhada, Craig Thompson voltou à narrativa longa e ao volume de grande formato com este Habibi, originalmente publicado em 2012, que a Devir traz agora para Portugal (como, de resto, já havia feito com Blankets). São mais de seiscentas e cinquenta páginas de banda desenhada a preto e branco que têm argumentos para ombrear, nos escaparates livreiros, com alguns grandes romances ou livros de ensaio.

A riqueza de Habibi está na multiplicidade de leituras que a sua narrativa provoca. A história atribulada de Dodola e Zam, se isolada de um contexto mais amplo e do espaço-tempo em que o livro pode ser recebido, lê-se como um episódio moderno de As Mil e Uma Noites: duas crianças pobres e condenadas à escravidão, que escapam do seu primeiro destino tropeçando noutros escolhos, acabando por alcançar uma espécie de felicidade serena. Tragédia, peripécias, final feliz, sempre com Sherazade a ecoar no modo de cada episódio se suceder ao anterior. O trabalho da imagem acompanha este filão narrativo, com vinhetas que exploram a simbologia do Corão, a ornamentação arquitectónica de tradição árabe e as relações entre Cristianismo e Islão.

Apesar desta referência às Mil e Uma Noites, Habibi não se limita à narrativa das desgraças de Dodola e Zam até ao momento em que conseguem perseguir um outro destino. Questões como o modo de representar uma ideia de alteridade e o olhar de um certo Ocidente relativamente ao que chamamos, sempre de modo redutor, o ‘mundo árabe’ são aqui convocadas a cada prancha. Habibi não é um livro de respostas, no sentido em que não propõe linhas de pensamento que conduzam história e personagens a nenhuma espécie de debate civilizacional, e ainda menos à proposta de teses sobre esse debate. Acontece que é muito difícil ler estas páginas sem o lastro da história mais recente, aliás, um fardo que enriquece Habibi sobremaneira, tanto quanto mostra as suas fragilidades – e talvez o sucesso do livro esteja nestas contradições. Dodola e Zam carregam um peso maior do que o das histórias das suas vidas, e esse peso é-lhes atribuído pelo narrador quando os insere numa linhagem cultural que recua aos primórdios das religiões do Livro. Ao fazê-lo, o narrador conduz a leitura para um eco do passado que faz das personagens símbolos, momento a partir do qual, por mais que queiramos cingir-nos à narrativa que nos é dada a ler, não há como não ver em Dodola e Zam o reflexo da cultura e da sociedade que os viu nascer. Como reflexos, as personagens perdem parte da densidade que começaram por ter, abrigando as suas contradições naturais numa espécie de radiografia oriental que em nada ilumina as sempre redutoras leituras que tendemos a fazer do que conhecemos mal.

Apesar disso, Habibi extravasa as suas próprias limitações através da sempre fiável capacidade de contar uma boa história sem descurar o modo de trabalhar a narrativa e os recursos de que está se socorre. E nem o final feliz, quase em jeito hollywoodesco, mancha essa capacidade.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Blimunda #31, Dez.2014)

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