Ponto Final: Bagagem de Mão (Janeiro)

Bah pau sem remorsos

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A primeira vez que estive em Macau reparei na frequência com que era possível observar pessoas a comerem em qualquer canto da rua, para não falar da proliferação de estabelecimentos de comida, carrinhos ambulantes e pequenas bancas de doces ou salgados entaladas entre o casario das ruas mais antigas. Em Hong Kong, o cenário pareceu-me semelhante, embora a dimensão da cidade (e a minha facilidade em perder-me umas três ou quatro vezes seguidas) tenha deixado por confirmar se era apenas uma impressão. No regresso, ente as anotações de viagem, fiquei com dúvidas: haveria tanta gente a comer a qualquer hora do dia ou da noite ou era só a novidade de uma cidade até ali desconhecida, com gente e hábitos ainda não familiares ao meu olhar? Uma nova estada em Macau apagou as dúvidas, com o benefício de muitas incursões gastronómicas em bancas de mercado ou em mesas de estabelecimentos vários.

Mais recentemente, um livro contextualizou tudo, como costuma acontecer com os bons livros. The Food of China, de E. N. Anderson, foi publicado em 1988, mas só no último Natal me veio parar às mãos, escolhido por quem sabe dos meus interesses. Professor de antropologia na Universidade da Califórnia, Anderson conhece bem a China e a sua gastronomia, tendo vivido várias temporadas em Hong Kong, nos anos 60 e 70 do século passado, estudando a pesca local e as relações de produção que lhe estão subjacentes. Abreviando o muito que há para ler neste volume, a tese do autor aponta para a relação estreita entre a sofisticação e a complexidade da comida chinesa e o seu lugar na organização social. Num plano mais simples, aprende-se muito sobre o que se come nas diferentes regiões, quer no presente, quer ao longo dos milénios desde o aparecimento da agricultura. Num plano ainda mais simples, este totalmente alheio a Anderson mas muito gratificante para as minhas notas de viagem, parece que sim, que os chineses, sobretudo no Sul, tendem a valorizar os chamados snacks, o que quer dizer que comem várias vezes ao longo do dia (não significando, obviamente, que comam muito). Portanto, a quantidade exorbitante de iguarias diversas que experimento sempre que estou em Macau não é uma questão de gulodice da minha parte, nem apenas um interesse genuíno por conhecer a cultura local, mas sobretudo um modo de viver, na medida do possível, como os habitantes de Macau. Em Roma sê romano, e por aí fora… Nada como um livro validado pela academia para nos sossegar a consciência.

O problema é que os chineses comem com frequência, mas eu é que tenho excesso de peso. Raios partam o karma! Tanto arroz com nabiças e molho de soja, tantos docinhos com sésamo ou feijão, e aqueles pães recheados ali para os lados da Rua da Felicidade, porco e legumes numa massa que parece feita de nuvens e que a senhora da padaria me ensinou a pronunciar: bah pau. A sopa de fitas, sobretudo a daquela casinha que quase passa despercebida a caminho do Porto Interior e cujas mesas passei a frequentar assim que uma boa amiga macaense me mostrou o lugar. Um mês em Macau, no ano passado, e os senhores do estabelecimento de comidas já me indicavam a mesa do costume, sabendo que preferia as verduras simplesmente cozidas no caldo, sem um monte de molho de ostra enfrascado a afogá-las em glutamato monossódico, essa praga que faz com que quase toda a comida dos restaurantes chineses do Ocidente saiba ao mesmo (outra descoberta que agradeço a Anderson, que agora me permite chamar as coisas pelos nomes quando praguejo contra o chop suey lisboeta, que deve ser igual ao californiano e ao alemão). Agora que li sobre a excelência do porco em Fukien, ou sobre o pato fumado com chá e cânfora em Szechuan, não sei se Macau chegará para a minha curiosidade (é apenas curiosidade, digo eu a tentar acreditar) gastronómica. E até temo o momento em que tentar passar as Portas do Cerco e o polícia me perguntar por que quero ir à China Continental. Se lhe disser que, por culpa de um americano, preciso absolutamente de almoçar em Guandhong, ou até um pouco mais longe, conseguirei passar a fronteira?

Sara Figueiredo Costa
(Publicado no Ponto Final, Fev. 2015)

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