Júlio Pereira: a volta ao mundo em quatro cordas

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Júlio Pereira tem novo disco, “Cavaquinho.pt”, e anda em digressão para o mostrar. Para além do disco, a Associação Cultural e Museu Cavaquinho tem espalhado a palavra e o som deste instrumento por onde passa. Em Lisboa, o Ponto Final conversou com o músico sobre as suas andanças mais recentes.

Em 1981, o publicava-se o álbum “Cavaquinho”, com chancela da Sassetti. Trinta e três anos depois, qual a relação que este “Cavaquinho. pt”, publicado pela Tradisom, tem com esse primeiro disco?
Acho que não tem nada que ver com o primeiro. Aliás, foi o grande problema quando, 30 anos depois, regressei ao cavaquinho: como é que faria um disco que não fosse idêntico ao outro? Três décadas passadas, é como se tivesse ficado em mim a sensação de que já tinha explorado o instrumento todo. Claro que isto nunca é assim, mas mostra a dificuldade que eu tive perante a necessidade de fazer um disco diferente do outro. Mas foi acontecendo naturalmente, sobretudo numa altura em que decidi não me interessar por nenhuma referência étnica, à semelhança do primeiro disco, e ir tocando o que saísse.

Esse primeiro disco, de 1981, marca um ponto de viragem na divulgação do cavaquinho fora dos meios onde era tocado.
Sim, até aí só se encontrava o cavaquinho nos ranchos folclóricos, escondido lá para trás. E aquela década a seguir ao 25 de Abril foi incrivelmente importante para a música de raiz tradicional. Até ali, o que havia era um programa de televisão que só mostrava ranchos folclóricos, o que aliás deu uma imagem muito errada do que é o som de cada uma das regiões. Depois apareceram alguns grupos como o G.A.C, a Brigada Vítor Jara e outros, onde já começávamos a ver instrumentos que, até então, não se viam nem ouviam. É bom referir que até ao 25 de Abril, o instrumento que infelizmente se ouvia mais, nas últimas décadas, era o acordeão, que foi substituindo os cordofones. O “Cavaquinho” foi importante, sim, e na realidade, é aí que defino uma espécie de carreira na música instrumental.

Com “Cavaquinho. pt” espera-se um renascimento do interesse pelo cavaquinho e pelos repertórios que lhe estão associados?
Cada vez mais me convenço de que o que é importante num instrumentista é tocar. Isso é mais importante que tudo, até do que as referências com que esse instrumentista possa ter começado. Acho que isto acontece com qualquer criador, à medida que vai evoluindo, vai-se afastando daquilo que foi a sua referência inicial e vai descobrindo a sua própria linguagem. A alma nunca se perde, ou seja, eu posso fazer discos diferentes com o mesmo instrumento, eles podem ser realmente diferentes, mas há uma alma qualquer, que é a minha maneira de tocar, o modo como eu sinto a música, que vai estar lá sempre.

Entre as várias colaborações deste disco, algumas pertencem a universos com os quais a música e a cultura portuguesas têm mantido diálogos históricos, como o Brasil, Cabo Verde e a Galiza. Que importância têm essas geografias neste trabalho?
O Brasil e Cabo Verde fazem, com Portugal, um triângulo muito curioso ligado ao cavaquinho, que é parte integrante de alguns dos mais importantes géneros musicais nestes espaços, como o chorrilho ou a morna. Portanto, este triângulo fazia sentido, mas fui parar aí como podia ter ido para qualquer outra parte, como fui também para a Galiza, com a participação da Uxia. Ao entrar o Brasil e Cabo Verde, lembrei-me de ir buscar a Sara Tavares, com quem sempre gostei de trabalhar, e a Luanda Cozetti, que fez um diálogo com a Sofia Vitória no “Peixinhos do Mar”. Esse tema é curioso, por ser contraditório na sua origem: há quem diga que é brasileiro, mas também já ouvi dizer que será dos Açores. Todas estas confusões são boas e salutares quando se transformam em música.

No texto que acompanha o disco, João Luís Oliva refere o “ambiente do litoral festivo, lúdico, profano e comunicativo” como espaço mais favorável ao cavaquinho. O predomínio do instrumento nesse ambiente deve-se às suas características morfológicas e sonoras ou a um uso tradicional que se construiu assim um pouco por acaso?
Eu sou músico, não sou etnomusicólogo, mas gosto de viajar e conheço muito bem o Minho, por isso osso dizer que é nítido o facto de este instrumento ter tudo que ver com essa parte do país. De facto, as pessoas são muito extrovertidas, alegres, propensas à dança, e o cavaquinho cai que nem ginjas, como se costuma dizer, nessa cultura regional. Como dizia o Ernesto Veiga de Oliveira, o timbre agudo do cavaquinho casava bem com o timbre agudíssimo das mulheres dali. Este cavaquinho no Minho tem, de facto, características rurais, era feito e tocado neste universo. Depois seguiu outros universos, porque as coisas cruzam-se sempre na História.

Em 2013 fundou-se a Associação Cultural e Museu Cavaquinho, de que Júlio Pereira é um dos dinamizadores. Um dos objectivos dessa associação é a criação de um fundo documental ligado ao cavaquinho. Em que ponto está esse processo?
A primeira coisa que a Associação fez quando foi constituída foi precisamente procurar ter a noção da quantidade de informação e material que há, e sobretudo da sua desorganização. Temos andado a fazer o inventário disto tudo, e sobretudo, a perceber onde estão as pessoas, os tocadores, os grupos, os construtores. Isso é muito importante para percebermos o panorama, mas sobretudo para podermos, no futuro, proporcionar encontros, conversas, workshops que ajudem essas pessoas a tocar melhor.

Para além do site na internet, já têm um espaço físico?
Ainda não, mas neste momento começa a ser vital. A associação vai tendo espólio, e já nem falo dos 70 cavaquinhos que andam em exposição itinerante… A Associação Museu Cavaquinho não tem fins lucrativos nem fontes de financiamento, vamos tentando procurar o dinheiro para acontecimentos concretos e tudo isto é um trabalho de bastidores, do inventário aos contactos, os protocolos, as fotografias. E começava a ser difícil, quando precisamos de financiamento para as coisas, a associação não ser conhecida. Hoje, felizmente, já não acontece tanto e a exposição tem servido para isso, ao mesmo tempo que permite às pessoas falarem sobre o cavaquinho.

Como é que surgiu essa exposição itinerante, “70 Cavaquinhos 70 Artistas”?
Começou com uma brincadeira minha. Vi um pormenor de uma instalação do Pedro Cabrita Reis de que gostei muito e resolvi aplicá-lo no tampo de um cavaquinho, tudo virtual, no computador. Mostrei-lhe o resultado e ele gostou. A seguir fui ter com o Júlio Pomar e com o Julião Sarmento e foram estes três os primeiros artistas com quem falei sobre o projecto. O segundo passo foi ir à APC, a única fábrica industrial de cavaquinhos que temos no país, e à Artimúsica, a fábrica artesanal que há em Braga, e conseguir a maioria dos instrumentos físicos para serem intervencionados. Juntaram-se mais dez artistas plásticos e depois convidei os outros, através das redes sociais, o que tornou o processo muito rápido. E o que foi interessante foi todos terem alinhado com alegria e terem apoiado a causa.

Apesar da matriz portuguesa, digamos assim, o cavaquinho acaba por estar espalhado pelo mundo com outras morfologias e sonoridades. Que intervenção terá a Associação Cultural Museu Cavaquinho fora de Portugal?
Quando retomei o cavaquinho, há cerca de três anos, comecei a investigar na net tudo o que tinha que ver com o ukelele, que actualmente é o cordofone mais popular no mundo. E percebi que todos os sites referem os portugueses como estando na origem desse instrumento, o que é correcto, mas também que a maioria dessas pessoas não conhece nem a forma do cavaquinho, nem o seu som, e portanto não conhece a música que se faz com ele. Pareceu-me uma boa base para começar. Com a Associação queremos preservar, documentar, mas também dar ao mundo aquilo que temos. A verdade é que este pequeno instrumento, ou, se quisermos, estes pequenos instrumentos, têm uma história muito interessante, também porque são instrumentos fáceis de levar em viagem. Havia um homem em Braga que andava com o cavaquinho no bolso do sobretudo, e há fotografias dele assim. É uma imagem curiosa, que mostra que o cavaquinho pode levar-se para qualquer lado. Ainda há muitas histórias por descobrir sobre este instrumento, nomeadamente no Oriente, e a Associação também serve para isso.

O que se sabe sobre a presença do cavaquinho no Oriente?
Ainda sabemos pouco, e é por isso mesmo que gostávamos de investigar nessa geografia. Até agora temos dados sobre a Indonésia. O musicólogo Manuel Morais descobriu, há pouco tempo, um cavaquinho muito antigo feito na Índia. E quase que aposto que na Malásia também haverá, digamos, derivados do nosso cavaquinho. Portanto, toda essa zona precisa de ser investigada, por isso quase me apetece dizer que gostava que esta exposição dos “70 Cavaquinhos 70 Artistas” fosse a Macau…

Sara Figueiredo Costa
(Publicado no Ponto Final, Fev. 2015)

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