Fim de festa no Porto Interior

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Em Maio, nas águas do Porto Interior, Macau celebra o Da Jiu, festividade que presta culto a Chu Tai Sin. Trazida para a cidade na década de 20 do século passado, esta divindade era venerada no templo de Lung Chuen, no porto de Ping Hai, zona do sul da China onde os pescadores de Macau pescavam com frequência. A sua chegada a Macau ficou a dever-se à família do senhor Ng Sai Hok, cujo filho adoeceu ao largo de Ping Hai, tendo o pai sido aconselhado a pedir a protecção de Chu Tai Sin. O restabelecimento da saúde da criança teve tal impacto na comunidade piscatória macaense que a divindade a quem se atribuiu a cura foi rapidamente adoptada pelas gentes do mar, que passaram a venerá-la numa festividade anual integrada na lista do Património Imaterial da China desde 2008.

O Museu do Oriente, em Lisboa, acolhe uma exposição dedicada ao Da Jiu e criada em parceria com o Museu Marítimo de Macau. Numa sala capaz de transportar o visitante para as amuradas do Porto Interior, Pescadores de Macau e o Culto de Chu Tai Sin reúne imagens, objectos e documentação de vários tipos sobre o Da Jiu, tudo devidamente enquadrado por painéis explicativos que dão conta dos diferentes passos da celebração, desde a reunião dos participantes aos rituais de apaziguamento dos espíritos. Assim que se entra na sala de exposições temporárias, ainda antes do início do percurso pelos diferentes núcleos que desvendam o Da Jiu aos olhos de quem nunca o viu, é possível perceber que estamos perante uma tradição que pode ter os dias contados. O culto dos pescadores já foi uma festividade importante no território, celebrado por muitas centenas de famílias ligadas à pesca e ao trabalho no mar. Com o quase desaparecimento de pescadores em Macau e os procedimentos burocráticos que dificultam a entrada no Porto Interior de barcos registados noutros portos, esta festa anual tem visto o número dos seus participantes reduzir-se de forma drástica, de tal modo que não será exagero dizer que o culto a Chu Tai Sin é uma festividade em vias de extinção. Acompanhando a visita do Ponto Final à exposição, a directora do Museu do Oriente, Manuela D’Oliveira Martins, deixou clara a importância da mostra: “Esta exposição é um alerta para a comunidade macaense e sobretudo para o governo da região, porque é preciso tomar medidas para não deixar morrer estas tradições. O Da Jiu é uma tradição de longa data, de uma comunidade que praticamente já não existe. O desenvolvimento económico gigantesco que Macau sofreu nos últimos anos atirou estas populações para terra e já não existem embarcações que sirvam de casa e lugar de trabalho. As gerações que se dedicavam a este trabalho estão muito idosas e os mais novos, se alguém não lhes passou o ofício, não vai ser agora que o vão retomar.” Num dos painéis, os números clarificam a ameaça que os tempos trazem ao Da Jiu. Se em 2002 houve seiscentas e quarenta famílias a participarem nesta cerimónia, em 2014 foram apenas noventa e seis.

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Os três dias das festividades são marcados anualmente no calendário lunar, algures entre o terceiro e o quinto mês, de acordo com os auspícios interpretados pelo adivinho responsável. No Porto Interior, um navio é transformado em templo flutuante pela comunidade e ali se colocam as imagens de Chu Tai Sin e de outras divindades às quais se pede protecção para o resto do ano. De ambos os lados, outros dois navios auxiliam os rituais, servindo de espaço para as refeições comunitárias e para a elaboração de amuletos em papel e tecido que serão distribuídos aos participantes. “Há uma série de passos que fazem parte das tradições budistas, como a leitura dos sutras, o posicionamento das mãos que os monges leigos vão fazendo e que cumprem vários rituais, da convocação dos espíritos para lhes aplacar a fome, com oferendas, até às oferendas às divindades. Há também uma cerimónia que consiste em dar uma série de voltas em torno de um centro, representando o ultrapassar dos obstáculos que a vida nos oferece”, explica Manuela D’Oliveira Martins a propósito das fotografias que registam os diferentes momentos do ritual. Como tantas outras práticas religiosas em Macau, esta cruza rituais e heranças do budismo, do taoismo e do culto dos antepassados. É, aliás, no âmbito deste culto que uma outra tradição se associa ao Da Jiu. A construção de ídolos de madeira representando diversas divindades, bem como figuras-tipo destinadas ao culto dos antepassados, desenvolveu-se na zona portuária de Macau graças à contínua celebração do culto de Chu Tai Sin. Actualmente, apenas um estabelecimento mantém as portas abertas, na Rua da Madeira, dando continuidade à tradição. A loja da família Tai Cheong, representada num espaço destacado da exposição, tem resistido ao progressivo abandono de encomendas deste tipo de trabalho, altamente especializado e quase sempre transmitido por herança familiar. A directora do Museu do Oriente assinala a realidade dos construtores de ídolos com preocupação: “De noventa artífices que existiam até aos anos 80, este foi o único que ficou. E renovou a concepção das estatuetas, passando a fazer também imagens em tamanho gigante, para as comunidades macaenses fora de Macau.” Se não houver descendentes que dêem seguimento à tradição, os escultores de ídolos desaparecerão de Macau, levando consigo uma história que passará a existir unicamente nos livros e nos registos de arquivo.

Preservar e documentar o culto de Chu Tai Sin, bem como as práticas e vivências relacionadas com a comunidade piscatória local, tem sido uma tarefa assumida pelo Museu Marítimo de Macau. “Para além dos objectos e documentos presentes na exposição, o Museu Marítimo tem tido um papel muito importante na recolha de objectos que os pescadores e as associações lhe foram doando. Actualmente, este museu é a entidade que mais sabe sobre as tradições ligadas à pesca e tem sido a instituição a quem as associações e a comunidade piscatória legaram os seus testemunhos para as gerações futuras”, notou Manuela D’Oliveira Martins. “O papel do Museu Marítimo de Macau tem sido tentar preservar uma tradição que é, sob todos os pontos de vista, muito curiosa, e por isso o Museu do Oriente teve todo o interesse em mostrar esta exposição aqui em Portugal.”

Até ao próximo mês de Abril, um pouco da antiga Macau que vai desaparecendo ao ritmo dos novos prédios, dos territórios conquistados ao mar e das oportunidades de negócio pode ser vista na beira-rio lisboeta. As semelhanças com as festividades que, na costa portuguesa como em várias outras zonas marítimas, se realizam em homenagem a santos e divindades associadas à protecção dos que trabalham no mar são tão notórias quanto são diferentes os modos e os gestos de assinalar o ritual. E se no caso português as procissões marítimas e as festas das comunidades piscatórias se ficam pelos pedidos de protecção para quem vive do mar, as festas de Chu Tai Sin em Macau incluem, para além do culto dos antepassados, vários outros momentos dificilmente interpretáveis por parte de quem vive da pesca no Oceano Atlântico. Resta saber durante quanto tempo Chu Tai Sin será cultuado nas águas do Porto Interior. Nas palavras da directora do Museu do Oriente, “fazer parte do património imaterial da China não basta. Se a tradição desaparecer, de pouco serve.”

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, 10 Março 2015)

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