Bagagem de Mão

A crónica de Março para o Ponto Final, desta vez com a vantagem de estar em Macau:

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A tal palavra

Na área do antigo bazar, onde Wenceslau de Moraes comprou móveis em décima quinta mão para mobilar a sua casa macaense e ainda lhe sobrou tempo para fazer pouco do modo como o vendedor lhe falou em português, o ar do tempo traz presságios e não é do incenso que arde no Pagode. Os edifícios envelhecidos pedem restauro, uma pintura, caixilhos novos, e ano após ano o pedido parece adiado. Entre fileiras de lojas com portas abertas e outras definitivamente fechadas, alfaiates, floristas, ferragens, coisas que pouca gente parece querer nos tempos do pronto-a-usar, novas lojas surgem de quando em vez, trazendo outros ares, pouco consonantes com o que as rodeia. Uma loja de peças de vidro, design refinado e preço impraticável convive com velharias e móveis chineses. Aqui e ali, uma marca estrangeira, uma loja de smartphones, umas coisas gourmet. Quando o gourmet chega aos bairros antigos, costuma estar tudo estragado – Lisboa que o diga. O convívio entre lojas claramente destinadas a públicos sócio-económicos muito distintos podia ser uma coisa boa numa cidade, cruzando pessoas, quotidianos, hábitos. Ter as ferragens do senhor Wang ao lado dos écrãs de plasma não traria mal ao mundo, mas o que costuma acontecer nestes processos de revitalização não tem muito que ver com revitalização: saem as lojas antigas, inclusive as que ainda estão abertas e em pleno funcionamento, para dar lugar às novas, ao mesmo tempo que as rendas sobem em flecha (ainda é possível que subam mais, em Macau?) e que os habitantes de sempre são paulatinamente afastados para outro espaço qualquer da cidade, de preferência longe dali, porque ninguém quer ver velhinhos de andarilho quando vai comprar foi gras, nem imigrantes de baixo rendimento espreitando entre tecnologia de ponta ou roupas de marca.

Gentrificação, a palavra que anda na boca de tanta gente e que, escrita em longos artigos de jornal – sobre Londres, Lisboa ou Rio de Janeiro – parece uma coisa moderna e asseada, é o nome que se dá a este processo que tem vindo a arruinar a identidade de cidades um pouco por todo o mundo e que, parece-me, anda a rondar a zona velha de Macau como se de um espírito desencaminhado se tratasse. Na verdade, pouco importa o que lhe chamamos, porque a história é sempre a mesma: o dinheiro compra o que há para comprar, arrasa o que não interessa e inventa uma nova cidade. Só que o novo, nestes casos, implica varrer o velho para longe. E varrer o velho, já se sabe, é dar cabo da identidade. A escolha não tem de ser entre manter bairros em decadência acelerada ou arrasá-los e construir outro mundo, sem espaço para quem ali morava. A escolha devia incluir recuperar e desenvolver à medida das necessidades de quem vive ou trabalha nos sítios e de quem chega de novo. Deveria ser possível comprar a alta tecnologia e as ferragens, o foi gras e o camarão seco, a roupa de marca e o dinheiro para queimar no templo, tudo no mesmo sítio. Se a zona do antigo bazar, estendendo-se em direcção ao Porto Interior, for deixada ao abandono, tendo como única saída entregar-se nos braços tentaculares da especulação imobiliária, não vai haver zona do bazar nem ruelas do Porto Interior para reconhecer daqui a uns anos. E quem pensa que isso é uma coisa boa, só pode estar enganado. Se Macau fossem apenas casinos, lojas caras e a confusão de turistas à volta do Largo do Senado, Macau não era a cidade que (ainda) é. Pode ser que o dinheiro venha do jogo, mas o jogo pode sempre mudar de sítio, tornar-se legal aqui mais perto, encontrar novas modas e outros poisos. O resto é que não tem substituição possível.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, 17 Março 2015)

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