No Patane, com o Deus da Terra

IMG_3101

No segundo dia do segundo mês do calendário lunar, os bairros de Macau enfeitam-se para a festa em honra de Tou Tei. Nos templos dedicados a esta divindade, a festa começa a ser preparada dias antes, com bandeiras, lanternas e a edificação de palcos onde a ópera cantonense terá lugar de destaque. Em Macau, os templos da Horta da Mitra e do Patane são os mais emblemáticos para participar nesta festa.

Esta ano, a festa aconteceu no passado dia 21 de Março e o Ponto Final acompanhou a celebração no templo do Patane dedicado a esta divindade, contando com a colaboração de Manuel Luz, macaense de quarta geração e membro da associação que organiza a festa. Às onze horas da manhã, a Escola dos Moradores do Bairro do Patane, mesmo em frente ao templo, era pequena para acolher os muitos vizinhos e visitantes que quiseram juntar-se à festa. Cá fora, o rebentamento de panchões marcava o início da função, afugentando os maus espíritos e preparando o terreno para a Dança do Leão. Cinco pares de leões, acompanhados pelos músicos dos respectivos grupos, executaram os movimentos dentro da escola, de frente para a enorme mesa onde repousavam vários leitões assados. “Os leitões são oferecidos pela Associação a todos os membros com mais de sessenta e cinco anos. Mais logo, distribui-se leitão, bolo, arroz e lai si por essas pessoas, sobretudo as que não podem vir amanhã ao almoço, onde se comerá a mesma coisa”, explica Manuel da Luz. Num canto do salão, homens e mulheres atarefavam-se no corte dos leitões, repartindo-os em pedaços à medida que iam sendo trazidos da mesa central.

Especialista no tema da religião popular chinesa, Fernando Sales Lopes explicou ao Ponto Final alguns aspectos desta festa e do culto de Tou Tei, tão importante nos bairros de Macau. “O Tou Tei é o deus da terra e estava relacionado, nas suas origens rurais, com a terra da agricultura, com a substância, com a riqueza. Mas depois foi assumindo funções também na cidade, como guardião do bairro. Quer dizer, ele é sempre do solo, mas era do solo arável e agora é do solo habitacional.” De certo modo, Tou Tei define e acompanha os destinos de cada comunidade de vizinhos, por isso não é de estranhar que sejam estruturas como a Associação de Mútuo Auxílio dos Moradores do Patane a organizar a festa que o celebra. De acordo com Manuel da Luz, o templo do Patane teria na sua origem a intervenção de um rei que, fugindo da China continental, ali teria construído um templo, estabelecendo-se nas imediações com a sua família. Já Fernando Sales Lopes pensa que a lenda na origem deste templo é outra, sabendo que são várias as histórias que circulam ao longo dos tempos e conhecendo o facto de Tou Tei ser uma divindade encarnada por um humano, que pode ir mudando conforme os tempos e os lugares: “Diz-se que havia um jovem, muito conhecido pela sua piedade filial, cujo pai foi acusado de um crime que não cometeu. A mãe morre com o desgosto e o filho, não podendo fazer nada pelo pai, vai-se enforcar numa árvore, que se diz que é aquela árvore grande que há no Patane, sempre cheia de divindades e de oferendas. Quando põe a corda ao pescoço, esta parte-se por três vezes. À terceira vez, passa por ali um homem que lhe diz para não se enforcar e que lhe dá uns números para ir jogar. Apostando esses números nalgum dos jogos que já havia na altura, o homem ganhou uma batelada de dinheiro que usou para salvar o pai da morte, e a população, vendo que havia ali uma intervenção divina e que ele seria um bom Tou Tei, decide que será sua a honra de encarnar esse deus depois de morrer. Portanto, o Tou Tei que ali encarnou, no Patane, seria esse homem.”

Alheios à discussão sobre a origem histórica do templo de Tou Tei do Patane, os vizinhos do bairro prosseguem a celebração, assistindo à performance dos leões. Guiados por uma figura vestida de azul, envergando uma máscara sorridente, os leões deixam a escola e dirigem-se, um par de cada vez, para o templo. “A figura com a máscara, que quase se assemelha aos nossos cabeçudos, é uma figura festiva que acompanha os leões. De certo modo é um guia, que conduz os leões ao templo e aos diferentes espaços que o compõem. E a dança do leão vai, no fundo, purificar o espaço, por isso é que vão a cada um dos edifícios”, explica Sales Lopes.

Depois da passagem dos leões, os participantes na festa ocupam os espaços do templo dirigindo-se aos diferentes altares e fazendo as suas oferendas. “As pessoas vão ao templo pedir saúde, proteção, sorte. É igual às pessoas que vão à missa ou a outro sítio de culto qualquer. Nisso, somos todos iguais, o que muda é a cultura.” Com estas palavras, Manuel da Luz relativiza o possível exotismo de uma celebração como esta aos olhos de quem não está familiarizado com a cultura popular chinesa, deixando claro que todos são bem vindos naquela festa, independentemente da origem ou da crença. Apesar disso, quando lhe perguntamos se outras comunidades de Macau, nomeadamente a portuguesa, costumam participar nas festas em honra de Tou Tei, a resposta é negativa: “Há três anos vieram uns portugueses para filmar, mas fora isso, não costumam vir, não.”

No altar principal, onde repousa a imagem do Deus da Terra, a azáfama instala-se. Há quem ofereça incenso, ajoelhando-se para prestar homenagem a Tou Tei, e quem deposite bolos, fruta, leitão e vinho de arroz numa mesa defronte do altar. No terreiro do templo, os crentes queimam dinheiro falso e outras oferendas de papel nos fornos, em enormes labaredas cujo fumo chegará, assim se espera, ao céu, levando para o panteão divino as boas graças de quem, na terra, zela pela harmonia, pela sorte, pela saúde. Junto a uma banca que recebe oferendas em dinheiro, destinadas à manutenção do templo, mas também à contribuição para as despesas da festa, um homem toca um houguan, instrumento de sopro muito comum no sul da China. A melodia repete-se sucessivamente, criando o ambiente ritual que marca tantas celebrações, independentemente da cultura. Para além de Tou Tei, também os outros deuses que têm morada no templo do Patane recebem oferendas: Kun Iam, deusa da misericórdia, Yi Ling, divindade associada à medicina e à saúde, e Seng Mou, deusa do Monte Li.

Ao fim da tarde, o palco da escola receberá um dos muitos espectáculos que marcarão estes dias de festa. A ópera cantonesa, interpretada por actores experimentados, celebra Tou Tei ao mesmo tempo que oferece o entretenimento cultural que é devido aos moradores, sobretudo aos mais idosos da comunidade. É preciso não esquecer que Tou Tei, tal como a sua mulher, com quem por vezes surge acompanhado, são ambos figuras idosas e é por isso que, como conta Sales Lopes, “esta festa de Tou Tei é destinada, primeiramente, aos mais velhos de cada bairro”. São eles quem recebe os lai si oferecidos pela associação de moradores, e quanto maior for a idade, maior será o lai si. E é para eles que a ópera há-de ecoar na noite do Patane, celebrando uma divindade cuja história se perde na memória dos tempos mas que, apesar disso, continua bem viva no quotidiano das ruas, dos becos e dos bairros de Macau.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, Março 2015)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s